Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Djavan lança seu 23º disco, 'Vidas Pra Contar', marcado pela alegria e pelo amor

Cantor e compositor ensaia agora para o show da turnê que inicia em 2016

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2015 | 05h00

RIO - Moradia e estúdio coexistem na mesma propriedade do cantor e compositor Djavan, no Rio. Foi no estúdio, o Em Casa, que o músico alagoano gravou seu novo disco, Vidas Pra Contar, o 23.º da carreira, e ali ensaia agora para o show da turnê que inicia em 2016 – em São Paulo, as apresentações ocorrem nos dias 11 e 12 de março, no Citibank Hall. Um belo jardim separa essas duas alas da casa. Djavan diz que gosta de sair do estúdio, abrir a porta que dá acesso ao jardim e se deparar com aquele cenário. Árvores margeiam o gramado e proporcionam a justa sombra a um grande banco central. Há pau-brasil, flamboyant, além de flores de vários tipos. De certa forma, esse ambiente o conecta à sua mãe, D. Gina, que sabia sobre botânica, mesmo sem nunca ter tido um estudo formal.

Vidas Pra Contar é todo autoral, com 12 músicas inéditas assinadas por ele. “Tive poucas parcerias na minha vida. Faço música e letra desde o início. Gosto dessa coisa solitária de sentar e fazer música.” Nesse novo trabalho, impõe-se um universo de canções amorosas e sobre relacionamentos, cunhadas pela poética muito particular de Djavan. O DNA sonoro tão característico do músico também está lá, soberano, mas a audição mais apurada alerta para as nuances que levam para o xote, em Vida Nordestina, o jazz, em Enguiçado, o samba em Ânsia de Viver. Em entrevista ao Estado, em seu estúdio, em uma tarde meio cinzenta, Djavan, aos 66 anos – e 40 de carreira –, fala do novo disco, que tem, segundo ele, uma “aura de esperança, de alegria”, crise no Brasil, racismo e da homenagem que receberá no Grammy Latino, este mês, em Las Vegas. “Vou receber um prêmio pelo conjunto da obra, fiquei muito feliz, porque isso quer dizer que a obra está refletindo bastante fora do Brasil.”

Vidas Pra Contar soa como um disco autobiográfico. Isso foi pensado na hora da composição?

Quando escrevo, em geral, prefiro tentar ficar olhando ao longe. Acho que inventar situações, histórias é o que priorizo. Agora, é impossível não ter ali a minha história, o meu olhar, as coisas que vivenciei. Mas esse disco especificamente é mais biográfico do que os outros. Ele se chama Vidas Pra Contar porque percebi que estou contando algumas vidas ali. Falo do homem de hoje, no contexto político, social e até familiar também na música Enguiçado, falo dos seres tanto animal como humano em Vidas Pra Contar.

Em músicas como Vida Nordestina esse traço é mais nítido. Fala muito da sua origem.

Nela, quis trazer um pouco o Nordeste de novo para minha vida. É uma espécie de homenagem a uma região que me deu tanto, que me ensinou tanto, que me formou. Foi ali que absorvi as informações gerais, da vida e da música. E tive uma dificuldade extrema, porque pensei: para quem conhece Ary Lobo, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, aquele pessoal que falou do Nordeste de uma maneira linda e densa, o que vou falar sem ser repetitivo? Não é não falar das mesmas coisas, é como falar, e eu precisava falar com afeto. Então, acabei optando em falar da fé do povo, do folclore, da folia nordestina, e fiz Vida Nordestina, que ficou uma canção bem contemporânea, embora falando das coisas que vivi desde a infância.

Em Dona do Horizonte, você fala da sua mãe, que foi muito importante na sua vida e influência em sua formação musical. Como surgiu a vontade de homenageá-la nesse trabalho?

Quando minha mãe morreu, eu tinha 21 anos, acho que me marcou muito tê-la perdido tão cedo. Ela era uma espécie de parteira sem fazer parto, porque a parteira no Nordeste é aquela mulher que orienta as pessoas do bairro, socorre em todos os níveis, sobretudo psicológico. Minha mãe fazia isso. Lá em casa era uma romaria de pessoas. Às 18h30, 19h, começavam a chegar pessoas com toalhas, esteira. Eu morava numa casa de esquina, com a calçada bem grande. Sentava todo mundo. Eu tinha 6, 7 anos, deitava no colo da minha mãe e ficava ouvindo aquelas histórias. Ali aprendi muita coisa: a contemplação do universo, da natureza, o nome de plantas que sei até hoje. Esse gosto que tenho pela botânica, pela mata, flores e jardins vem dela. E ela tinha uma musicalidade ímpar desde o início. Eu, jovenzinho, 7, 8 anos, ia com minha mãe para a beira do riacho lavar roupa, e ela, com as amigas, ficava cantando aquelas modinhas. Tenho dito sobre essa influência dela, mas eu nunca tinha feito música com isso. Quis deixar registrado numa música o que ela me pôs para o ouvir, que eram os ídolos dela: Orlando Silva, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga.

Temas como amor e as relações são inerentes à sua obra e, nesse novo disco, eles são muito presentes. Qual o desafio de falar disso a cada novo trabalho?

Acho que falar de relação, de amor é sempre um desafio muito grande, porque é um tema recorrente para todos. E você ganhar algum frescor nessa areia movediça que é esse tema é o grande desafio. E adoro desafio, me expor ao erro, porque isso é vida. Vou falar de amor a vida inteira, porque sempre vou tentar descobrir novos horizontes que tragam um amor distinto, de agora, vivido nesse momento.

Você falou de uma felicidade que domina o disco. Isso tem a ver, de alguma forma, com o momento que você vive?

Acho que estamos vivendo uma vida tão conturbada, em todos os âmbitos. Eu, ao contrário – embora vivencie tão profundamente também a vida social e política do Brasil –, sou um homem muito esperançoso com esse momento. Quis fazer um disco ao contrário do que se vive hoje, dessa coisa tão feeling blue, tão down, de a gente se entristecer com os valores hoje completamente destrocados, temos de refundar todos eles. Achei que cabia um disco assim, que trouxesse uma aura de esperança, de alegria.

Em 2010, você disse que havia votado em Lula, mas era reticente em relação a uma sucessão dele por Dilma Rousseff. Como você vê o País hoje, nesse atual contexto de crise?

Acho que o que me parecia na época é que o Lula estava querendo assegurar a cadeira, independentemente do que pudesse acontecer. E o que ficou claro é que essa ideia se confirmou. Acho que hoje se sabe que não é apenas a Dilma o problema, é o sistema de poder que foi montado no Brasil. Estamos vivendo um momento para tentar trazer o País para onde ele precisa estar. Somos um país que é uma potencialidade em todos os níveis, não tem cabimento ele estar vivendo uma crise econômica tão violenta, institucional até, política. O mundo caminha para frente. É impossível você pretender evoluir politicamente com o Congresso que temos, com o governo desgovernado que temos. Diante do quadro político que nós temos, fica difícil você dar uma opinião concreta sobre o que é melhor: renúncia, impeachment, ir até o final do mandato. Não sei, até os políticos também têm dificuldade de saber. Portanto, entrego a Deus.

No final de semana, a atriz Taís Araújo foi alvo de ataques racistas no Facebook. Dei esse exemplo porque ela é uma figura pública, mas isso ocorre a todo momento. Impressiona como as redes sociais tornam isso ainda mais devastador.

Acho que o racismo está longe de ser contido no Brasil. Não sei se é possível até, porque é cultural. Vem desde o início da formação da sociedade brasileira. É uma coisa que envolve vida social, o fato da própria escolaridade. O negro não tem acesso a uma formação com a naturalidade que tem o branco, porque a sociedade foi formada por seres de pele clara. Claro, muita coisa se transformou, o mundo mudou. Os exemplos de que a sociedade branca sempre impôs, de que a raça negra é uma raça intelectualmente inferiorizada, por mais que se tenha feito nesses anos todos provando o contrário, ainda para determinadas pessoas isso é uma realidade. E, quando se deparam com o contrário desse pensamento, eles usam de agressividade para combater qualquer ação ou pessoa que venha contra esse pensamento. Portanto, o negro vai ter sempre que lutar muito para conseguir um lugar, para conseguir se impor na sociedade.

 

Antigas canções dele ressurgem no Arquivo Nacional

Em um precioso projeto de organização e digitalização de documentos submetidos à censura do Arquivo Nacional, vieram à tona canções que ficaram de fora do primeiro disco de Djavan, A Voz, O Violão, A Música de Djavan, de 1976, e estavam perdidas. Do compositor, o produtor Aloysio de Oliveira recebeu 60 canções, das quais escolheu 12. As demais se perderam. Dentre elas, ressurgiu a canção Negro, que Djavan escreveu depois de ter sido vítima de racismo. "Entrei numa loja para comprar um piano, com o Tadeu, que era um menino negro também, divulgador da EMI. Quando saímos, tinha uns dez soldados da polícia e nos pegaram. Todos se referiam a mim de negro." Eles ficaram presos por 4 horas. Era tempo de ditadura e Djavan lembra que tinha medo que o matassem. Haveria chance de ele regravá-las agora? "Acho difícil, deve ficar mesmo na história."

LETRA

Negro

Djavan Caetano Viana

Negra é a luz

Que se fechou no ar

Negros sonhos

Cantador do mar

Negro, lágrimas, correntes

Identificam a gente

De maneira má

Negro de coração forte

Teu sorriso é só amor

Que deus nos mandou dar

Negro eu

Bis

Negro você

Vida negra

Negra é a paz

Da terra oriental

Negra é a sorte

É o fim de um marginal

Negro na mitologia

É poesia é poesia

Homem trabalhador

Negro é potencial

De glorias de um 

País tropical

Negro é senhor

Negro eu

Bis

Negro você

Vida negra

 

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