Djalma Corrêa tem gravação inédita do 1º show de Gal, Gil, Caetano, Bethânia e Tom Zé juntos em 1964

Djalma Corrêa tem gravação inédita do 1º show de Gal, Gil, Caetano, Bethânia e Tom Zé juntos em 1964

Ouça um trecho do registro histórico feito pelo músico no Teatro Vila Velha, em Salvador; músico e seus filhos estão em busca de parcerias para realizar documentário a partir do áudio

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2019 | 03h00

O show Nós, Por Exemplo, que inaugurou o Teatro Vila Velha, em Salvador, em 22 de agosto de 1964, já seria histórico só pelo fato de reunir pela primeira vez, no mesmo palco, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé – numa época em que Tropicália e Doces Bárbaros não faziam parte de seus sonhos mais delirantes. Mas a reação inesperadamente acalorada da plateia àquela primeira apresentação desencadeou um efeito potente na trajetória de todos aqueles jovens estudantes. “Sem dúvida, foi uma alavancada para todos nós. A aceitação do público foi incrível. Até para nós foi surpresa, isso ajudou muito a gente a continuar, tanto que cada um seguiu seu caminho”, relembra o músico Djalma Corrêa, então baterista da trupe – e outra peça importante naquele show. 

Muito já se leu e se ouviu falar sobre Nós, Por Exemplo (título esse dado por Caetano), mas só Djalma tem uma verdadeira preciosidade daquele show em mãos: o registro em áudio do espetáculo, que pertence ao acervo que ele mantém em seu sítio, na Pedra de Guaratiba, no Rio. De maneira geral, seu arquivo concentra áudios de shows, gravações em Super 8, fotos, slides e fotogramas preto e branco, e “muitos registros da cultura popular brasileira”, conta o músico, hoje com 76 anos. 

A gravação da estreia de Nós, Por Exemplo – e dos outros shows que vieram na esteira de seu sucesso – permanece inédita há mais de 50 anos. Mas Djalma e seus filhos, Caetano e Shanti, têm planos para mudar isso. A proposta é fazer um documentário a partir desse áudio. “Nunca mostrei (o áudio) para eles (Gil, Gal, Bethânia, Caetano, Tom, entre outros), então minha ideia sempre foi fazer um documentário com eles ouvindo esse show pela primeira vez. Ver a reação de cada um, lembrando de detalhes com cada um separadamente, e depois algo com todo mundo junto”, diz Djalma. 

Na realidade, o projeto existe há cerca de 15 anos, conta sua filha, a produtora Shanti C. Corrêa, que vive nos EUA. Mas alguns empecilhos, como a dificuldade de encontrar parceiros para viabilizá-lo, paralisaram sua realização. “Engavetamos para um próximo momento, mas nunca aconteceu”, lamenta ela. Naquela época, Shanti chegou a fazer muitas pesquisas na Bahia – inclusive, constatou que quase não há registros fotográficos daquele momento. Além disso, duas faixas que estão na gravação foram masterizadas em Los Angeles. Tudo foi uma iniciativa bancada por ela. 

Passados todos esses anos, parece existir agora um movimento natural de se organizar o rico acervo de Djalma, que inclui os registros da cultura popular brasileira (leia abaixo) e a retomada do documentário. “A demanda maior que a gente tem é de parceria de produção, de financiamento, e diretores que tenham prática de documentário na área de música”, afirma Caetano Correa, filho de Djalma. 

Para não tirar o ineditismo desse material, Djalma conta que nunca pensou em lançá-lo em disco. “A ideia primeira sempre foi essa história de eles ouvirem pela primeira vez e a reação de cada um, então nunca pensei em transformar isso em disco. Gravei quase todos os shows que rolaram na Bahia. Um dos que gravei e cedi para Polygram foi a despedida de Gil e Caetano antes do exílio, em 69, e foi feito esse disco”, diz o prestigiado músico.

O gravador. No início do show no Teatro Vila Velha – ouça o áudio abaixo –, ouvem-se vocais em sintonia, seguidos por aplausos da plateia, e, então, os protagonistas de Nós, Por Exemplo se apresentam um a um: “Eu sou Djalma Corrêa, eu sou Alcyvando Luz, eu sou Antônio Renato, eu sou Maria da Graça, eu sou Gilberto Gil, eu sou Caetano Veloso, sou Maria Bethânia, sou Antônio José”. Caetano emenda os primeiros versos de Quarta-Feira de Cinzas. “É maravilhoso, porque tem uma carga de veracidade muito grande. Você reconhece as vozes. Há pouca mudança vocal de cada um”, analisa Djalma. 

Na época, o percussionista – nascido em Minas – morava em Salvador, e lá estudava música na Universidade Federal da Bahia e também já era técnico de som do câmpus. Todos eles se conheciam por causa da música. “Substituímos uma peça (Eles Não Usam Black Tie), que não ficou pronta para a inauguração do teatro, então foi proposto fazer um show.” Os ensaios se dividiam entre a casa da amiga Maria Moniz, onde tinha a famosa sopa, e da mãe de Caetano e Bethânia, Dona Canô. “Houve tempo para ensaiar, fazer repertório, tem músicas já conhecidas, mas com arranjos bem ousados para época”, detalha. Ele conta que o grupo se surpreendeu com a euforia da plateia lotada. “Foi cobrado ingresso, preço barato”, diz. “Não ganhamos cachê, era uma coisa amadora.”

E o que fez Djalma levar o gravador para o show? “Tinha uma música minha, Bossa 2000 D.C, que estava no show. Na fita, tinha a parte eletrônica dessa música e eu precisava do gravador do meu lado para poder soltar e parar na hora certa. Aí eu disse: o gravador está aqui e vou gravar. Não foi algo premeditado.” Quem não gostou da presença do gravador no palco foi o diretor Roberto Sant’Ana. A ponto de os dois brigarem – e Djalma diverte-se com a lembrança. 

Orlando Senna, que se ocupou da produção do show, confirma o episódio. “Roberto Sant’Ana era muito minucioso com relação à iluminação e ao cenário, e achou que um gravador, por menor que fosse, iria interferir na luz e no espaço”, conta. “Lembro-me que Djalma me chamou para ajudá-lo a convencer Roberto, que foi convencido. Graças a esse gravador no meio do palco, temos hoje uma preciosidade histórica e musical que Djalma pretende mostrar ao mundo.”

Djalma revela outras curiosidades, como o fato de o teatro estar localizado no jardim do Palácio do Governo. Em tempos de ditadura, não era um mero detalhe. “O que acontecia já nos ensaios é que a gente estava no meio de uma música e entrava a interferência do telégrafo do governo, e isso aconteceu até no show, no meio de uma música. Isso minha gravação capta. Tanto que uma das coisas que acho legal é a tradução desse código Morse e ver o que eles estão dizendo.”

Uma das estrelas que emergiram naquele show, Gal ficou feliz em saber sobre o documentário. “(O show) foi importante, porque eu queria ser cantora, sempre quis isso. Então, foi o começo da minha carreira, foi a primeira experiência no palco, primeiro enfrentamento com uma plateia. Foi mais do que especial.”

Depoimento de Tom Zé, cantor e compositor

“Intervalo de ensaio.

Lembrei-me de perguntar a alguém que estava mais 

próximo de mim: “Este show tem nome?” 

‘Nós, por exemplo.’

!!!? 

Pelo hábito e pelo tipo de comentário que fazia sobre os artistas que estavam em cena na época, não havia dúvida: aquele título que agora me dava um choque era de Caetano. Meu sentimento estremeceu em vários raios e direções. 

‘NÓS, POR EXEMPLO.’

‘Então nós estamos incluídos no elenco nacional brasileiro?’ 

Uma ‘responsabilidade...’ Responsabilidade graúda me atingiu em cheio. Nós, por exemplo. Aquela simples e inevitável vírgula no interior do título ganhava um respeito nunca antes atribuído a um sinal de pontuação. Ora, veja! Nós, por exemplo. Onde foi que eu fui me meter! Eram o Brasil e a história da canção popular sobre nós, quer dizer, NÓS. 

Que ousadia! Num relâmpago, me lembrei de ‘É de manhã’, que Caetano já havia 

composto naquele tempo. 

Nós.

Como Caetano era altivo!”

Acervo de Djalma Corrêa voltado à cultura popular passará por restauro

Uma parte do vasto acervo de Djalma Corrêa – que tem como recorte os registros da cultura popular feitos pelo músico em suas andanças pelo Brasil – passará por um importante processo de restauro, digitalização e conservação. O projeto Acervo Djalma Corrêa: Música e Cultura Afro-brasileira, de autoria de Cecília de Mendonça – cujo doutorado tem como tema o acervo de Djalma –, foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e terá início em abril. Entre o material que passará por esse processo, estão 60 fitas de áudio (rolo 7”), 500 imagens e 30 rolos de Super 8, que fazem parte do acervo de Djalma voltado para o estudo das culturas populares brasileiras, incluindo registros de pessoas, grupos, terreiros, festas populares, festivais e encontros culturais. 

“Djalma Corrêa reuniu em sua trajetória um acervo muito extenso e muito rico. As primeiros gravações já têm mais de 50 anos. A maior riqueza desse projeto é a possibilidade de fazer esse trabalho de preservação do acervo na presença de Djalma, buscando qualificar cada registro sonoro, cada fotografia, cada filme através da memória do seu criador”, ressalta Cecília, que sempre se dedicou aos estudos na área de culturas populares, do patrimônio imaterial e da música popular.

“Quando soube da existência desse acervo, com uma diversidade enorme de registro pelo Brasil, logo vi a possibilidade de desenvolver um trabalho de pesquisa mais intensiva sobre esse acervo ligado aos registros da pesquisa de Djalma das culturas populares, da percussão afro-brasileira e do universo dos terreiros”, ela conta. “Mas acaba que o trabalho tem seu lado biográfico e é impossível dissociar da sua atuação da chamada MPB. E consequentemente do seu acervo dos registro da música popular e da música erudita também.”

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