DJ Thaíde lança CD e faz show sábado no Sesc Pompéia

O rapper Thaíde, de 39 anos, chega à entrevista com a reportagem do Grupo Estado, na sede da Glauber Produções, na Bela Vista, lamentando o atraso. "É que sou pai solteiro", justifica ele, com a filha mais nova, Mayah, a tiracolo. Há quem não leve muita fé nessa cena, mas rapper também é pai de família. E Thaíde é pai zeloso. Sua ?nenenzinha? Mayah, como ele a chama, tem a cara da mãe, a cantora e atriz Quelynah - a Mayah do longa e do seriado Antônia, dirigido por Tata Amaral. Pois é: o nome de sua personagem é uma homenagem à filha. Juntos por nove anos, Quelynah e Thaíde se separaram quando as filmagens de Antônia chegaram ao fim, mas a ex-mulher, de uma maneira ou outra, se faz presente no novo CD do rapper, Thaíde apenas (Glauber Produções), que ele apresenta sábado, 24, no palco do Sesc Pompéia (no dia 30, é um dos convidados do show do grupo Apocalipse 16, no Via Funchal). A cantora faz participação especial na música Escute aqui, além de ser ela, digamos, a grande musa-inspiradora do rap brega Louca por Mim. "A letra vinha de uma época em que eu ainda era casado e, depois de tantas tentativas, foi a última que achei para demonstrar o amor verdadeiro. Não deu certo, mas valeu pela música." Louca por Mim não é só a derradeira tentativa de um rapper apaixonado e de coração partido em reconquistar a amada. Nela, Thaíde expõe sua inesperada simpatia pela música brega. Fã do fino do brega como Fernando Mendes e Diana, pegou emprestado o refrão da música Sou Louca por Você, sucesso na década de 70 na voz da cantora Elizabeth, para dar o devido tom dor de cotovelo à sua composição. A voz desalentada de Elizabeth foi mantida. "Não existe rap brega e eu tive essa idéia. A letra é interessante, a música também e o refrão caiu como uma luva. Sampleei a voz da cantora. É boa para tocar em rádio AM. Da minha situação pessoal, aflita, consegui fazer Louca por Mim. Que não era louca por mim..." A dor pela perda da amada fica registrada, mas o CD Thaíde apenas deve ser encarado por outros méritos. Ou, outro mérito: é seu primeiro disco desde o fim da dupla com DJ Hum, em 2000. Juntos, Thaíde e DJ Hum foram os pioneiros do hip hop brasileiro. Hoje, Thaíde diz que não acompanha muito o trabalho do ex-parceiro, mas que os dois conversam bastante. Muitos foram os motivos que culminaram no fim da dupla. "Muito tempo juntos, muitos projetos individuais. Problemas pessoais, profissionais. Cada um seguiu seu caminho e foi a melhor saída." Segundo ele, o intervalo de quase sete anos, entre a extinção da dupla e esse novo CD, foi necessário. Com a agenda lotada de palestras, oficinas e shows, além do compromisso como apresentador do programa, da MTV, não sobrava tempo para pensar num disco. "E eu não estava tão preparado. Não queria fazer um disco só para satisfazer os fãs, queria me satisfazer também. Então, achei que a melhor coisa era esperar um pouco. Foi o primeiro disco que fiz do jeito que eu queria." Atuação em Antônia Aproveitou todas as vantagens de uma carreira independente para, finalmente, produzir um CD com sua cara e seu tempo. Não abriu mão das velhas crônicas da vida dura, como se ouve em Pilantras de Plantão e Expresso da Favela, mas fez questão de incluir coisas mais dançantes, como Pra cima. Tentou não ser radical demais, nem comercial demais. Nessa nova empreitada, Thaíde não acredita ter ousado muito. Suas únicas preocupações eram colocar o CD na rua e resgatar o antigo formato do rap. Para o rapper, seu maior objetivo é mostrar para muita gente do próprio movimento que ainda é possível fazer boas letras e boa música. "Tenho escutado muita coisa ruim. Com a minha música e a de várias outras pessoas que fazem bom rap, dá para eles saberem que não é um bom trabalho o que eles estão fazendo." Chama atenção ainda para a desunião de quem integra o movimento. "De fora parece que existe união, mas não existe. Sou unido com as pessoas que trabalham comigo, existe união entre Rappin Hood e o pessoal que trabalha com ele. Infelizmente, a união que eu gostaria de ver ainda não existe, mas ainda vai existir. Se a gente fosse mais unido, estaria uns cinco anos mais adiantados." É essa falta de visão, acredita ele, que faz uma corrente dentro do hip hop torcer o nariz quando outro mano consegue projeção. Pegamos como exemplo o caso do rapper Xis, muito criticado na época que aceitou participar do reality show Casa dos Artistas, do SBT. Para Thaíde, o erro de Xis foi ter desistido no meio do caminho. "O que me decepcionou não foi ele ter participado, eu participaria. Ele deveria ter ficado e o público ter tirado ele da casa, se quisesse. Eu não desistiria", garante ele. "Na minha opinião, quem criticou só por ele ter participado estava com inveja." Nas graças Pois hoje quem está nessa posição de evidência é o próprio Thaíde. O rapper caiu nas graças do público, na TV e no cinema, dando vida ao empresário malandro Marcelo Diamante, em Antônia. Ele conta que ganhou o papel por acaso: estava acompanhando a então mulher Quelynah a testes para o filme, quando foi convidado para fazer um teste também. Foi aprovado. Modesto, ele prefere dizer que atuou na produção e não que foi ator nela. "É uma falta de respeito com os atores, que se dedicaram a isso." Bem, Thaíde não nega que emprestou um pouco da própria personalidade ao personagem, tudo misturado a trejeitos de tantos Diamantes que conheceu pela vida. Em breve, ele poderá ser visto também no filme Caixa Dois, de Bruno Barreto, numa participação especial. Não nega também que tanto a Rede Globo como as próprias telonas do cinema foram algumas de suas melhores vitrines ultimamente. Mas assegura que isso não o deixa deslumbrado. "Até hoje tem gente que me chama de Diamante. É uma visibilidade tremenda, mas prefiro não pensar muito. Prefiro pensar como vou aproveitar isso para seguir meu caminho. Não viajo nesse bagulho, porque é passageiro. O que faço com as pessoas que trabalham comigo é duradouro. Se você não se prepara aquilo vai embora e você vai junto. Se você se prepara, aquilo vai embora e você continua." Thaíde no Projeto Plataforma. Choperia do Sesc Pompéia (800 pessoas). Rua Clélia, 93, Pompéia, 3871-7700. Sábado, 21 horas. R$ 3 a R$ 10

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