DJ Krush junta música tradicional com picapes e scratch em show

Japonês foi de soldado da máfia Yakuza a astro da eletrônica

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2014 | 03h00

TÓQUIO - Ex-soldado da Yakuza, a máfia japonesa, o astro da música eletrônica DJ Krush (codinome de Hideaki Ishi, de 52 anos) largou o crime quando abriu um pacote da organização e encontrou o dedo de seu melhor amigo como um alerta. Regenerado pela via da música, tornou-se pioneiro do hip hop em seu país nos anos 1980, e na segunda-feira, nos jardins do mais antigo museu do Japão, o Museu Nacional de Tóquio, ele protagonizou uma nova revolução.

Krush juntou a música tradicional do Japão milenar com as picapes e o scratch, colocando ao seu lado no palco um mestre do kodo (o grande tambor japonês), Yousuke Oda, além de outros três instrumentistas de sopros. Shuzan Morita tocava a shakuhachi, lendária flauta de bambu que remonta ao período medieval, além de outras duas peças clássicas - o hoeho, o chamado órgão de boca de bambu, e o hichiriki, flauta tradicional da corte japonesa.

Sob uma chuva fina em Tóquio, cerca de 500 pessoas em um palco montado sobre um lago assistiram ao espetáculo, denominado The Garden Beyond. Um acontecimento musical insólito, e especialmente bonito. A batida do kodo, rodeada pela batida sintetizada do DJ Krush, emolduradas por sua vez pela seção de sopros delicada do lado direito, formava uma pintura sonora de rara beleza.

O espetáculo foi um dos mais disputados do evento Red Bull Music Academy, com filas do lado de fora do Museu Nacional disputando os lugares limitados. Krush distribuiu capas e a plateia ficou sob a chuva durante toda a apresentação, mas ninguém desertou.

A maestria de Krush consistiu em não conspurcar nem uma música nem outra, fazendo ambas se enlaçarem sem traumas, sob os aplausos enlouquecidos da plateia.

Encontros. Mestres e discípulos mostraram um novo caminho para a música eletrônica durante os encontros de Tóquio essa semana. O interessante foi notar que a eletrônica já tem mestres e história. Um dos luminares do techno (e criador do selo Minus) de Detroit, o britânico Richie Hawtin, hoje com 44 anos, fez uma concorrida palestra de 90 minutos na qual falou de sua experiência num tempo anterior ao laptop, quando criava seus próprios gadgets para tocar, no qual os DJs profissionais tinham sorte se encontrassem transporte para voltar para casa depois dos shows e de como as coisas mudaram. Ele afirmou que, na época, os DJs não pensavam nas implicações negativas da tecnologia, apenas sabiam que queriam ir naquela direção, o que foi abrindo espaços e tornou global a cena. “Gosto de pensar uma música para a pista cujos sons tenham espaços entre eles, para que você possa escalar ou se mover no meio deles”, disse Hawtin. 

Novas gerações já revisitam a eletrônica que se tornou clássica, como a cena jungle e drum’n’bass de Londres. A terceira onda jungle foi representada pelo ousado Untold, também britânico, que fez um dos melhores shows da jornada. Untold, codinome de Jack Dunning, afirmou que, por seu background ser da cena do dubstep, parecia interditado a ele ousar. “O dubstep tem algumas regras, você tem de ficar em torno de uma frequência”, disse.

Mas Untold não só quebrou as regras como vem fazendo uma das músicas mais interessantes da cena eletrônica da atualidade. Foi remixado por James Blake e enveredou pelo tecno em uma faixa, mas sem abandonar sua vocação pelos primórdios do grime e do jungle. Ele vê um admirável mundo novo se abrindo para os artistas da eletrônica. “Há muitas cidades com cenas novas explodindo, expressões que se afirmam localizadamente antes de se tornarem globais”, afirmou.

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO FESTIVAL

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