DJ Dolores faz sua estréia em CD

Ele empunha um texto de Gilberto Freyre como um estandarte de carnaval para justificar suas escolhas musicais. "Sou sensível aos valores da tradição, mas os arroubos experimentais me seduzem como as sereias aos antigos marinheiros", dizia o autor de Casagrande & Senzala.Ele é Élder Aragão, sergipano de Propriá ("A única pessoa nascida em Propriá que chega perto da fama, que eu conheço, é a mulher do Carlão Reichenbach", diz, brincando), o "cabeça de medusa" do grupo DJ Dolores e a Orchestra Santa Massa, a mais grata revelação nacional a ocupar o palco do 16.º Free Jazz Festival, no mês passado - ao lado do onipresente Yamandú Costa.DJ Dolores, a persona inventada por Aragão, mistura sanfona com guitarra wah wah, bateria hardcore com rabeca sertaneja, canto de aboio com hip hop e surf music. Em vez de soar prolixo musicalmente, no entanto, seu som se encaminha para uma espécie de reiteração progressiva do mangue bit de Chico Science e companhia.Seu show foi uma das gratas surpresas da jornada, superando em invenção e suingue as novas gerações presentes à mostra e apontando para uma nova direção na música pop brasileira.Com um detalhe: eles não têm nem sequer um disco lançado ainda. Quer dizer: lançaram um independente, com 500 cópias, mas ninguém sabe, ninguém viu. "Cara, eu mesmo não tenho uma cópia, para você ter uma idéia", diz Aragão. Já tinham participado também de uma coletânea, Enjaulado - Música para Ouvir Trancado, em 1999.A estréia, que leva o nome de Contradição?, já está gravada e chega às lojas no mês que vem. Aragão é DJ há 10 anos e trabalhava como designer, desenhista de motivos do mundo underground do mangue bit - criava logotipos e desenhos para Chico Science e Fred Zero Quatro."Na época, a gente não tinha acesso à eletrônica", ele lembra. "Eu não tinha sampler e usava um cassete para fazer uns grooves, botar texturas." Tem intensa atividade no circuito independente: fez shows como o Mundo Livre S/A e, há dois anos, recebeu um convite do dramaturgo João Falcão para fazer a trilha do espetáculo A Máquina. A trilha virou CD."A resposta foi tão boa que a gente resolveu ficar trabalhando nessa direção", afirma DJ Dolores. A direção é uma mistura equilibrada de eletrônica e tradição, sem ´totemizar´ uma e folclorizar outra. Há um senso dionisíaco, de farra, no som do DJ Dolores (em músicas como "Dança da Moda"), mas também muito rigor e uma atitude cool, de observação quase científica da mistura (como é o caso de Samba de Dez Linhas)."Não me considero um músico, no sentido tradicional da palavra", diz Aragão/Dolores. "Não gosto de fazer nota, mas dessa idéia da música com alta repetição, e meu instrumento é o sampler, o sampler e o tape", conceitua.Mercado - DJ Dolores diz que tem "forte identificação" com a nova geração de DJs brasileiros, como Marky, Patife e Ramilson Maia, de São Paulo. "Eles seguem a tradição da música urbana da Zona Leste de São Paulo, uma coisa genuína, que não tem nada a ver com o mercado", afirma. "Também não tem nada a ver com o hype, com o valor que o DJ subitamente adquiriu nos dias de hoje."Segundo Aragão, Marky e Patife tocavam nas danceterias da Zona Leste e enchiam pistas muito antes de terem sido descobertos como fenômenos internacionais e antes mesmo de os DJs serem guindados ao altar do superastros, de terem se tornado o establishment. O fato de terem ocupado o Main Stage do Free Jazz não subiu à cabeça de Aragão. "Aqui, por mais reconhecimento que tenha, a gente é muito underground", diz o produtor. Agradou-lhe bastante, contudo, fazer parte de um time de artistas excepcionais da atualidade, como Macy Gray e o DJ Richard James, que usa o codinome de Aphex Twin."O espetáculo dele foi sensacional", afirma Aragão. "Ele levou ao extremo essa postura de ratificar que a música tem de ser a coisa mais importante numa apresentação", disse. "Paradoxalmente, a gente ficava sem saber qual era a interferência dele, o que era feito na hora e o que era pré-gravado", diverte-se.Como produtor, o sucesso de Aragão já é um fato há pelo menos três anos. Ele participou de um disco de releituras de Luiz Gonzaga, Baião de Viramundo, ao lado de gente como Naná Vasconcelos, Black Alien, Speed Freaks, Mestre Ambrosio, Otto, Cascabulho, Nação Zumbi, Stela Campos, Nouvelle Cousine e outros. No disco de Otto, foi o autor de um remix celebrado, O Celular de Naná. Agora, é a vez de ocupar o centro do palco.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.