DJ das multidões, Fatboy Slim toca na praia do Rio

Domingo é dia de Flamengo. Mas nada de bola rolando no gramado do Maracanã. Com a bela paisagem do Pão de Açúcar ao fundo, quem vai comandar a torcida é o DJ e produtor inglês Fatboy Slim, codinome do multiforme Norman Cook, que já esteve por aqui, no Free Jazz Festival de 2001. Às 16 horas começa na praia carioca o primeiro evento da série Nokia Trends, que deve reunir mais de 200 mil pessoas. Antes dele se apresentam seu conterrâneo Jon Carter e os brasileiros Marky e Patife. A movimentação em torno da festa, ao ar livre e de graça, é tanta que a Marina da Glória já não tem mais barcos para alugar. Segundo a produção, há diversas agências fazendo pacotes para o Rio por conta do show. Ciente disso, Fatboy preparou algo especial para homenagear a cidade. "Vou prestar uma homenagem à cidade e tocar muitas novidades", diz com voz pastosa de quem tinha acabado de acordar de mais uma noitada. "Não conheço Marky e Patife, mas ouvi falar bem deles e, se tivermos oportunidade, poderemos fazer alguma coisa juntos, não sei, tudo é possível. Não dá para prever o que pode acontecer num evento desse tipo." Os paulistanos podem se preparar para encarar a estrada ou a ponte aérea. Andou circulando um boato sobre uma provável apresentação em local fechado em São Paulo, mas o próprio DJ desmentiu. Ao que tudo indica, apesar de fazer restrições a tocar para grandes platéias ao ar livre, ele se diverte mais. Fatboy conhece bem a responsabilidade de conduzir multidões. Para quem quiser comprovar, está disponível no Brasil o DVD Big Beach Boutique II (ST2), com o registro de sua histórica apresentação na Praia de Brighton, sua cidade natal, em 2002. O nome da festa vem de um pequeno clube londrino, Big Beat Boutique, onde Fatboy iniciou a carreira de DJ. Foi o segundo evento de seu projeto de festas ao ar livre, que reuniu 250 mil pessoas, o mesmo número de habitantes de Brighton. O trânsito parou, a cidade virou um caos, com toneladas de lixo espalhadas por todo canto, monumentos quebrados, jardins pisoteados e muito maluco alterado se jogando no mar. O DVD não mostra, mas está no CD Live on Brighton Beach (Sony Music), também lançado no Brasil: a certa altura, Fatboy pára uma música no meio a pedido da segurança e alguém pede para que as pessoas voltem para a areia porque o mar estava perigoso. Como se houvesse um canto de areia sobrando. O estrago na cidade fez com que o prefeito proibisse a realização de um terceiro evento. Fatboy concordou que não havia mais condições para isso. "Talvez eu esteja mais preparado para tocar agora no Rio, mas não sei, é difícil prever a reação do público num grande evento", diz o criador de The Rockafeller Skank, seu sucesso mais popular no Brasil. Difícil esquecer o efeito do refrão Right about now/ The funk soul brother/ Check it out now/ The funk soul brother, que virou até grito de torcida de futebol na Inglaterra. Aos 40 anos, Fatboy é uma figura privilegiada na música eletrônica. Ele se vale da experiência que já teve em grupos como Housemartins e Freak Power, entre outros, para criar um híbrido de funk, soul, rock, tecno, house e break beats, que resulta sempre surpreendente. "Acho que por ter tido essa formação de músico e transitar por várias vertentes consigo agradar tanto ao roqueiro quanto ao fã de tecno", reconhece. "Comecei no rock e não sei definir a música que faço, apenas mixo gêneros." Bom ouvinte, Fatboy é mestre em transformar canções apáticas em hits sensacionais, como o antológico remix de Brimful of Asha, do Cornershop. Magic Carpet Ride, do Mighty Dub Katz, um de seus projetos eletrônicos, é outro de seus melhores feitos. Recentemente ele turbinou Lazy, do X-Press com David Byrne, e Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones. Patrocinador de boas idéias alheias, no ano passado lançou por seu selo Southern Fried um remix de Ashley Beedle para Are You Ready for Love, canção esquecida de Elton John, que de cara nova tomou de assalto as pistas inglesas. Fatboy foi um dos primeiros a fixar um nome e um rosto na fugaz cena eletrônica, quando trocou o contrabaixo de roqueiro pelo sampler no início dos anos 90. Até tornar-se um astro pop foi um longo caminho. O grande salto veio com o álbum You´ve Come a Long Way, Baby, de 1998. Cheio de hits potenciais como The Rockafeller Skank, Praise You e o irresistível Gangster Tripping, vendeu mais de 5 milhões de discos. De uns tempos para cá, sucesso e qualidade não têm andado juntos em nenhum gênero musical, muito menos na dance music. Como Moby e o Groove Armada, Fatboy é um dos poucos a evoluir dentro do conceito DJ-artista. Conhecedor de boa música, especialmente os ritmos negros, é craque na utilização de samples de velhos clássicos para criar algo novo e contundente. Bom exemplo é o que fez com a voz de Jim Morrison (1943-1971) em Bird of Prey, em seu CD mais recente, Halfway Between the Gutter and the Stars, lançado em 2000. Seu novo trabalho deve sair este ano, mais voltado para o soul e rap do que para o rock.

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