Arquivo/AE
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Dizzy Gillespie e sua cuíca perdida 36 anos atrás

Chega às lojas álbum que Gillespie gravou com o Trio Mocotó, em 1974

Jotabê Medeiros,

28 de outubro de 2010 | 06h00

Ouvir um disco que ficou 36 anos perdido é certamente uma viagem cultural. Mas quando esse disco reúne o lendário Dizzy Gillespie e o mítico combo de sambalanço brasileiro Trio Mocotó, aí então é mais que uma viagem, é um delírio.

 

A gravadora Biscoito Fino acaba de lançar o álbum Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, disco gravado em 1974 e que andou perdido durante quase quatro décadas, sendo localizado no ano passado após reportagem do Estado. São seis faixas apenas, registradas no Estúdio Eldorado em agosto daquele ano, e que reunia o quarteto de Dizzy e mais o Trio Mocotó – João Parayba (percussão), Nereu Gargalo (pandeiro) e Fritz Escovão (cuíca). A cantora Mary Stallings canta Evil Gal Blues, composição de Leonard Feather e Lionel Hampton (que foi grande sucesso de Dinah Washington).

 

Talvez a bossa nova seja a síntese mais perfeita da ambição de unir o jazz e o samba (tão perfeita que acabou se misturando ao mainstream do jazz), mas essa experiência de Dizzy Gillespie é um tanto mais excêntrica. As duas primeiras músicas, Samba e The Truth, são do pianista e compositor Michael Josef ‘Mike’ Longo, que trabalhou longamente com Dizzy (com quem dividiu o disco The Earth Is But One Country).

 

O solo de trompete atravessa longamente a seção rítmica de samba, com uma levada meio de ambient music (à moda de Burt Bacharach) em Samba. Já The Truth é mais experimental, com solos concêntricos de Dizzy costurando um percurso abstracionista no meio da percussão. O guitarrista da banda de Dizzy, Al Gafa, compôs e faz o principal solo de Behind the Moonbeam, a mais deliciosa levada do álbum, total samba jazz.

 

Crioulo doido. Enfim, chega a faixa mais "samba do crioulo doido" do lote, a última, composta pelo próprio Dizzy: Rocking with Mocotó. "Manda pau", "Por favor, meu bem", "Margarida, eu te amo": os integrantes do Trio Mocotó fazem uma introdução vocal antes da cuíca de Fritz Escovão iniciar o assalto sonoro. A improvisação do jazz numa desabalada carreira junto à síncope do samba – mais até que na terceira faixa, a bossa cool que leva o nome Dizzy’s Shout – Brazilian Improvisation.

 

Produzido pelo suíço Jacques Muyal, que conta a história de como reconstituiu a trajetória do álbum pelo mundo, até reeditá-lo no Brasil, o disco foi mixado em Los Angeles no ano passado, e provavelmente vai causar grande efeito quando chegar aos ouvidos da comunidade jazzística norte-americana. É uma avis rara mesmo no meio da tradição de visionário de Dizzy.

 

John Birks ‘Dizzy’ Gillespie tinha 57 anos em 1974 e já era uma lenda do jazz, responsável pela modernização do gênero e pelo alargamento de suas fronteiras, buscando conexões com os ritmos afro-cubanos, por exemplo. Ganhou o apelido, Dizzy, por causa das caretas que fazia ao tocar, suas grandes bochechas. Foi um dos maiores nomes da música popular no século 20. Criou o bebop, ao lado de Charlie Parker e Thelonious Monk. Compôs standards do jazz, como A Night in Tunisia. Morreu aos 75 anos, de câncer.

 

Dizzie Gillespie com Trio Mocotó. Biscoito Fino. R$ 30

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