Edson Lopes Jr
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Divina Valéria estrela show com repertório que vai de Caetano Veloso a Edith Piaf

Musa dos LGBTs celebra 60 anos de carreira longe dos palcos, mas não do público

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

24 de agosto de 2021 | 20h00

Não tivesse a pandemia do coronavírus congelado o mercado cultural ao redor do mundo e exigido a adoção de medidas de isolamento social, a atriz, cantora e performer Divina Valéria provavelmente estaria viajando o mundo, dando prosseguimento à agenda de apresentações lotadas que está acostumada a fazer ao longo das últimas seis décadas pelos seis continentes.

“Trabalhei em quase todos os países do planeta! As cidades não posso nem contar porque foram muitas. Em todos os países, nunca estive de passagem, sempre fiquei no mínimo um mês, então naturalmente você conhece a cidade e dá até para ficar um pouco conhecida”, lembra a artista, que, neste 2021, celebra 60 anos de carreira longe dos palcos, mas não do público.

Atendendo a um convite do ator, diretor, dramaturgo e produtor Ivam Cabral, Divina Valéria entra em cena dentro da programação do Satyros Digital, com a estreia de um show inédito no qual celebra não apenas sua trajetória artística, mas também o colo dos amigos, que produziram e roteirizaram o show como um presente à artista.

“Há muitos anos, nos tornamos próximos e íntimos, conversando sempre, e sempre pensando em fazer alguma coisa juntos. Com a pandemia, Divina ficou sem poder fazer o que mais amava: viajar e trabalhar. Sem trabalho, obviamente, enfrentando algumas dificuldades. Então, o projeto que deveria acontecer em território físico, veio para o digital e com alguma urgência”, explica Cabral, apresentado à artista pela diva dos Satyros, Phedra D. Córdoba.

“Precisávamos garantir à nossa diva que, embora geograficamente separados, sempre seríamos de sua família e, em família, deveríamos cuidar uns dos outros. Assim, esse trabalho surge de um grande abraço de amizade e reconhecimento a uma figura essencial na vida política e artística do Brasil.”

Ao projeto se uniram os roteiristas Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, conhecidos como Os Albertos, e o pianista Carlos Blauth, que arma a cama para que a artista desfie um roteiro de clássicos da música mundial, com obras que vão desde a dos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil até o sambista Cartola e a diva da chanson Edith Piaf.

“Musicalmente me interessa sempre os autores de antes e o repertório da MPB de antes. Atualmente nada me interessa, nem a música nem os artistas atuais. Raras são as exceções na geração atual de bons artistas”, critica a cantora, que nem por isso deixa de ver o público jovem em seus shows.

“Os jovens adoram ver o meu espetáculo, adoram me ver cantar, me ver em cena. Lógico, os artistas de hoje não sabem nem trabalhar, então quando você vê um artista bom, que se comunica, que emociona e que chega até o coração deles, naturalmente eles ficam maravilhados. E isso é o ser humano, você tem que tocar o coração da pessoa. No momento que você toca o coração, não existe idade, é só reconhecimento e amor pelo artista.”

Esse pensamento acompanha a artista desde seu início, quando ainda era vista como figura menor no cenário cultural brasileiro. Preconceito que demorou a ser quebrado. Apenas em 2016, com a estreia do documentário Divinas Divas, de Leandra Leal, Divina Valéria acredita ter havido um reconhecimento a seu trabalho.

“Foi muito importante para ficarmos mais conhecidas na mídia, que sempre nos ignorou. Para eles, nosso trabalho sempre foi uma coisa pequena. Eu nunca levei a sério porque corri o mundo inteiro, botei plateias de pé e viajei o Brasil de ponta a ponta.” 

Em Divina Valéria, o show, o repertório entrelaça canções como Escândalo e Camarim com poemas de autores como Fernando Pessoa e Florbela Espanca. 

“Queríamos contar uma história que falasse de amor e falasse do tempo, sobretudo. Uma colcha de retalhos, onde o centro e o foco é, na verdade, a nossa Divina Valéria”, conceitua Cabral, que convidou para o projeto uma série de artistas próximos como uma homenagem à trajetória da cantora.

“Na verdade, foi um encontro de amigos queridos. Quando, enfim, decidimos fazer o show, convoquei alguns amigos próximos (Andre Lu, Cléo De Páris, Dominique Brand, Gustavo Ferreira, Julia Bobrow, Leandra Leal, Marcia Dailyn, Maria Clara Spinelli, Nicole Puzzi, Patricia Pillar, Sergio Guizé e Thiago Mendonça) e, juntos, decidimos fazer tudo em coletivo”, explica.

O carinho, embora traga felicidade, também faz aumentar a ansiedade pelo fim da comunicação digital. “Tô louca que volte o público presente, aglomeração, como sempre foi, o público é sempre muito importante que esteja presente para que o artista possa se entregar totalmente, entende? Então eu espero que essa nova onda online passe logo como a pandemia”.

O show cumpre temporada de 23 de agosto a 08 de setembro online, sempre às 20h, com sessões de segunda à quarta-feira. Os ingressos são gratuitos, mas o público pode contribuir com qualquer valor. Toda a renda será revertida para a artista, que, a despeito do online, acredita na força de um espetáculo artístico independente da plataforma.

“A arte não tem sexo nem idade. O importante é transmiti-la, é fazer chegar ao coração das pessoas. Este é o importante da arte e é o que fazemos”, finaliza.

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