Diva alemã abre temporada em SP

Diva. O qualificativo está tão desgastado que, qualquer dia, vão acabar chamando Christina Aguilera ou Shakira disso. Mas, felizmente, ainda restam algumas cantoras que merecem, por um ou outro motivo, ser cultuadas como deusas da voz. Uma delas, sem dúvida, é Ute Lemper, a artista alemã que estréia hoje na Sala Esther Mesquita do Teatro Cultura Artística, abrindo uma série de apresentações que vai até quarta-feira.Nos anúncios da temporada, Ute aparece numa foto como um cruzamento entre uma fatal Marlene Dietrich e a funcionalmente angulosa Eva do filme Metrópolis. Nos seus recitais, a cantora também surge como uma encarnação de uma mescla, de um crossover entre vários estilos musicais e atitudes de vanguarda, que vão dos cabarés da Berlim da República de Weimar nos anos 20 e 30 ao rock minimalista de um Nick Cave ou Tom Waits, passando pelo lieder clássico e chegando até às experiências de Philip Glass."Vou cantar um pouco de tudo em São Paulo", diz a cantora, prometendo ainda para os fãs de música francesa, canções de Jacques Prévert, Jacques Brel e do repertório de Edith Piaf. Acompanhada por seu mais constante parceiro musical, o pianista francês Bruno Fontaine, que trabalha com ela desde 1992, mais dois americanos, o baixista de formação erudita Dan Cooper e o baterista Todd Turkisher (que toca bastante com David Byrne), Ute Lemper disse que vai decidir na hora o repertório de cada recital, dentre um elenco de 30 canções.Certamente essa seleção vai mostrar as paixões de Ute, as músicas de cabaré, os sucessos de cantoras que ela aprecia como Piaf e Marlene, alguma coisa de jazz, canções de musicais como Cabaret, Cats e Chicago,composições que gravou em seu último disco Punishing Kiss,temas de Elvis Costello, Nick Cave, David Bowie.Com 37 anos, Ute Lemper teve os genes de uma mãe cantora lírica e as facilidades proporcionadas por um pai banqueiro para desenvolver sua voz. Cresceu ouvindo jazz e música pop americana. Soube logo que não poderia ser outra coisa que uma artista dos palcos. Estudou piano, canto e balé e, já aos 15 anos, trabalhava em bares, cantando standards como Lullaby of Birdland e Night and Day. Interessou-se pelo teatro e passou dois anos no Teatro Estatal de Stuttgart, interpretando um repertório que ia de Fassbinder a Checkhov.Apesar de ser mais conhecida como cantora, Ute Lemper é reconhecida como uma atriz talentosa, tendo trabalhado em vários filmes como A Tempestade, de Peter Greenway, Bogus-Meu Amigo Secreto, de Norman Jewison, e Prêt-à-Porter, de Robert Altman. Também estrelou um episódio da série de TV Contos da Cripta. Unindo voz e interpretação, atuou em musicais como a montagem berlinense de Cats, de Andrew Lloyd Weber, depois foi a Sally Bowles da montagem que Jérôme Savary fez de Cabaret em Paris e foi Lola em O Anjo Azul, também na capital alemã. Apresentou-se ainda como dançarina principal num balé criado para ela por Maurice Béjart. Como se não bastasse, ela se diverte pintando -- já fez exposições em Paris e Hamburgo -- ou escrevendo (é autora de dois livros e assinou artigos em jornais como Libération, Die Welt e The Guardian). Ute Lemper afirma que quase parou de cantar por causa de outra atividade de tempo integral, a de mãe. Seu filho Max nasceu em 1994, em Paris, e Stella, em 1996, em Nova York, onde Ute mora com o marido, o ator e comediante David Tabatsky. Eles se casaram apenas cinco dias antes do nascimento de Max. "Tenho admiração pelas mulheres que cumprem essa dupla tarefa, a de trabalhar fora e a de ser mãe, pois experimentei isso e sei como é difícil. O caos que as crianças trazem à sua vida tornam a rígida organização de que você precisa para um trabalho teatral a longo prazo quase impossível", afirma. Lembre-se que quando Max era bem pequeno, ela fazia o musical Chicago na Broadway e excursionava pelos Estados Unidos.Depois, ela praticamente parou a carreira por dois anos: "Tenho de confessar que era uma liberdade enorme. E uma felicidade, apesar de gostar do que fazia. Aí, meu marido pode trabalhar mais, pois havia deixado sua carreira quase de lado para ficar em casa." Apaixonada pela obra do compositor Kurt Weill, que como ela emigrou da Alemanha para os Estados Unidos, ela criou um one-woman show com as músicas do autor (depois transformado em disco), que marcou um renascimento do interesse por Weill e transformou Ute Lemper de integrante de elenco de musicais em estrela de shows com uma marca crescente de originalidade. "Sou muito grata a Weill", explicou. "Pois ele me deu uma visão da minha cultura, muito diferente da que recebi como criança na Alemanha do pós-guerra. Agora, pode ser fácil pensar que o período nazista é parte da história, algo em que não precisamos pensar mais. A obra de Weill é aguda e lembra que não devemos ser complacentes. Seus trabalhos iniciais com Bertolt Brecht mostram que a cultura alemã era radical, vibrante e uma ponta de lança das artes européias de vanguarda." O trabalho com Weill e outros autores berlinenses cujas músicas enchiam os cabarés de sensualidade, ironia e humor, fez com que Ute, durante certo tempo, ficasse limitada ao gênero. Mas, certo dia, durante sua temporada em Cabaret, ela pensou: por que não cantar músicas contemporâneas? Afinal, ia sempre a concertos de Elvis Costello, Nick Cave e Tom Waits. Ouvia o tempo todo música da sua geração, de Randy Newman a Joni Mitchell, de Tracy Chapman a David Bowie. Juntando essas preferências ao fato de achar que sempre cantou muita música popular ("O que Weill e Brecht compuseram era música pop. Tocava no rádio. As pessoas cantavam na rua. Era música popular, sobre a vida real, mesmo que o marketing de música popular não agradasse a Brecht.") Assim, ela começou a cantar esse tipo de música que está representado sobretudo no disco Punishing Kiss, em que ela faz a ponte entre a Berlim antiga e decadente da burguesia alemã em que nasceu e a sociedade igualmente decadente, consumista, sem valores humanistas em que vive hoje. Um tipo de música que ela diz atraí-la sempre e que estará nos concertos paulistanos: "Canções que vão até o fundo da alma humana, onde se juntam a crueldade e o desespero." Quem for ao Cultura Artística terá uma boa dose disso e poderá conferir que as divas ainda existem.

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