Rafael Arbex / ESTADAO
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Discoteca do Centro Cultural São Paulo comemora 80 anos a partir deste sábado,8

Discoteca Oneyda Alvarenga concentra mais de 45 mil discos e 27 mil LPs de vinil

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2015 | 04h00

O mais visível dos sonhos que pairam pelo espaçoso prédio de número 1000 da Rua Vergueiro, em São Paulo, ainda é o de Mário de Andrade. Ele queria recolher a música do Brasil todo em 1938, quando enviou quatro homens e um gravador para que fossem registrados de aboios a lamentos melodiosos dos mendigos de Recife, de batuques de cozinhas a sambas de terreiro, de solos de viola a cantos de carregadores de piano. A europeização dos padrões formais da composição o incomodava e só o batizado de uma cultura que não se via nem ouvia fora de suas nascentes poderia mudar o foco. O Brasil precisava saber que já tinha sua música nas mãos.

A missão de Mário foi menor que o previsto. Enfraquecido em sua função de diretor do então Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo depois do Golpe de 1937, de Getúlio Vargas, abortou a tarefa antes que seus expedicionários saíssem do Nordeste e seguissem para outras regiões. Não era tudo mas já era muito. Sete filmes, 1.500 melodias, 1.126 fotografias, 17.936 documentos textuais e mais de mil instrumentos musicais e outros objetos que chegavam a São Paulo de navio como atestados da existência de uma outra civilização dentro de uma civilização. E apenas uma das muitas civilizações guardadas pela Discoteca Oneyda Alvarenga, do Centro Cultural São Paulo, que começa a comemorar hoje seus 80 anos de atividade.

A reportagem passou algumas horas da tarde de ontem revirando um acervo que, além da Missão das Pesquisas do modernista, tem uma riqueza que, mesmo depois de oito décadas de fundação, ainda carece de descobertas. Estão lá para serem escutados pelo público, de forma gratuita, 45 mil discos lançados em 78 rotações, 27 mil LPs de vinil, 11 mil livros sobre música, 2,5 mil CDs, quase 5 mil periódicos e uma hemeroteca com 1.500 assuntos indexados. “São estudantes, pesquisadores, músicos. Até moradores de rua vêm aqui com frequência”, diz Jéssica Barreto, responsável pelo espaço.

Os discos de 78 rotações, que não passam pela mesma redescoberta que vivem os vinis de 33, tiveram visibilidade até 1962, quando os LP tombaram nos pratos (com produção volumosa até 1990). Dos 78 raros, estão no acervo da Oneyda os primeiros lançados por Elis Regina, muito pouco conhecidos. Um deles, gravado quando Elis ainda vivia em Porto Alegre, tem as músicas Dá Sorte no lado 1 e o calipso Sonhando (Dreamin’) no lado 2. Ainda mais rara é uma peça gravada em 1940, um disco chamado Native Brazilian Music, que traz em um de seus lados o samba Quem Me Vê Sorris, regido pelo londrino Leopold Stokowski. O nome Oliveira, que aparece como um dos autores, é de Angenor de Oliveira, antes que seu apelido Cartola fosse criado.

Uma exposição abre hoje nas dependências do CCSP. Discoteca 80: Um Projeto Modernista vai fazer uma rápida passagem por artigos e partituras originais e autografadas por compositores como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Às 16h30, o pesquisador e violeiro Ivan Vilela faz uma audição comentada de obras garimpadas. Uma delas é Jorginho do Sertão, considerada a primeira moda gravada, em1929.

A visita vale para se acessar o acervo além do que será exposto. Uma área de entrada livre permite que o visitante escolha, manuseie e ouça seu vinil. Obras que em sebos estão acima de R$ 40, como discos do grupo pernambucano seguidor das ideologias ‘armoriais’ de Ariano Suassuna, o Quinteto Armorial, do compositor de sambas Sinhô e de um encontro entre o maestro Tom Jobim e o argentino Astor Piazzolla. 

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