Washington Alves/LightPress/Estadão
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Discoteca básica

Em Belo Horizonte, paulistano quer reunir todos os LPs brasileiros lançados entre os anos de 1950 e 1990

Renato Vieira, Especial para o Estado,

02 de março de 2013 | 07h00

BELO HORIZONTE - Paulistano do Jaçanã, Edu Pampani era proprietário de uma loja de discos em Salvador nos anos 1990. Com a euforia da indústria fonográfica e do público pelo som digital, o comerciante vendia LPs novos e usados a preços razoavelmente baixos. Estrangeiros, especialmente japoneses, começaram a comprar álbuns que ninguém mais queria. Ao perceber que o destino dos bolachões era o outro lado do Atlântico, pensou em uma maneira de manter essa herança musical no Brasil.

"Eles (os estrangeiros) procuravam discos do Tamba Trio, Bossa 3, Tim Maia, Jorge Ben e artistas mais obscuros da bossa nova e do soul brasileiro. Foi quando percebi que eram LPs históricos que estavam indo embora. Como nenhum Museu da Imagem e do Som do Brasil pensa assim, achei que devia fazer alguma coisa pra permitir que brasileiros pudessem conhecer esses álbuns", lembra Pampani, que se mudou para Belo Horizonte em 2002, por conta de uma proposta de emprego que não deu certo. Mas, dois anos depois, aprovou um projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura para criar a Discoteca Pública, que entrou em funcionamento em 2005. Hoje com 14 mil discos, a maioria doados por quem se desfaz de suas coleções, a iniciativa tem como meta mapear e obter um exemplar de todos os álbuns de artistas brasileiros lançados entre os anos 1950 e 1990, quando o formato LP reinava.

Em uma casa na Floresta, bairro tradicional de Belo Horizonte, ele recebe visitantes e pesquisadores e também comercializa CDs de artistas independentes. Montou ainda um blog (disco te capublica.blogspot.com.br) no qual 30% de seu acervo está catalogado. Os álbuns não saem do imóvel. O visitante que quiser escutá-los o faz no local ou pede uma cópia em CD ou MP3 para Pampani - o que também pode ser solicitado via internet.

Os discos estão dispostos como livros em uma biblioteca. Há uma divisão que vai de denominações básicas, como "cantores" e "cantoras", gêneros e distinções a nomes reconhecidos da MPB, como Nelson Gonçalves, por ter sido o artista que mais gravou LPs no País, e Roberto Carlos, o maior vendedor. Há ainda um espaço para a produção fonográfica feita em Minas. Mas Pampani - talvez por identificação - guarda um carinho especial pelo escaninho com álbuns da Marcus Pereira, gravadora que leva o nome do publicitário que a criou para registrar em áudio diversas manifestações musicais brasileiras.

Pampani conta que sempre chega um visitante perguntando qual o disco mais raro da Discoteca Pública. Há no local exemplares cobiçados no mercado de colecionadores, como A Banda Tropicalista do Duprat - álbum lançado pelo maestro Rogério Duprat em 1968 com participação dos Mutantes -, e Krishnanda, de Pedro Santos, recém-relançado pela Polysom. Mas ele diz não se importar com a questão da raridade. "Recebi um e-mail uma vez de um filho de um cantor desconhecido cujo disco está catalogado no site. O rapaz disse que há anos procurava o LP que o pai, já morto, nunca teve em casa. A raridade que não vale pra você pode valer pra outra pessoa". Quem se aventurar por lá com tempo pode descobrir pepitas importantes na história do mercado fonográfico nacional, como o primeiro LP de 12 polegadas lançado no Brasil, em 1956 - uma coletânea promocional da gravadora Sinter - e o primeiro álbum lançado em estéreo no País, do conjunto Ases do Ritmo, Ritmos do Brasil em Estéreo, que chegou ao mercado em 1958 pela RCA.

A iniciativa foi patrocinada nos últimos anos por uma empresa de telefonia, mas a Discoteca entrou em 2013 sem patrocínio. Pampani diz que mesmo sem incentivo continuará com a empreitada, além das feiras de vinil entre comerciantes que organiza mensalmente na capital mineira. "O trabalho do Edu é importante porque ele não se dedica a catalogar uma coisa só. Todos os estilos da MPB estão na Discoteca", diz o guitarrista Toninho Horta, amigo de Pampani. "O Edu faz toda a diferença no cenário cultural de Belo Horizonte", afirma a cantora Aline Calixto. Se depender dos artistas, a proposta do paulistano radicado em Minas tem tudo para continuar dando samba.

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