Marcio Fernandes|Estadão
Marcio Fernandes|Estadão

Discos lançados há 30 anos fizeram o rock explodir e revolucionaram a música brasileira

Em 1986, chegaram às lojas 'Vivendo e Não Aprendendo' (Ira!); 'Cabeça Dinossauro' (Titãs); 'Rádio Pirata ao Vivo' (RPM); 'Selvagem?' (Os Paralamas do Sucesso); 'Dois' (Legião Urbana); e 'Capital Inicial' (Capital Inicial)

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2016 | 05h00

Olhe bem para a foto acima. Uma parte da história do rock nacional foi escrita por esses três. Paulo Ricardo, Dinho Ouro Preto e Nasi não só eternizaram seus nomes na chamada geração de ouro do gênero, como são sobreviventes de um estilo que, para alguns especialistas genéricos de plantão, se perdeu ao longo do tempo. O rock, entretanto, ainda pulsa nas veias dos veteranos. Na cozinha da casa de Nasi, na zona oeste de São Paulo, o anfitrião, Dinho e Paulo batem um papo descontraído, a convite do Estado. Juntos, os cabelos grisalhos e as memórias recheadas de bons e maus momentos simbolizam o que de melhor produziram na década de 1980 e, mais especificamente, em 1986, no chamado grande ano do rock nacional. Há três décadas, seis discos fundamentais foram lançados e mudaram para sempre a história do gênero: Vivendo e Não Aprendendo (Ira!); Cabeça Dinossauro (Titãs); Rádio Pirata ao Vivo (RPM); Selvagem? (Os Paralamas do Sucesso); Dois (Legião Urbana); e Capital Inicial (Capital Inicial).

Muitos fatores foram determinantes para que 1986 seja considerado o grande ano do rock brazuca. O País acabava de sair de um longo regime ditatorial e a morte do presidente Tancredo Neves, em 1985, deixou um gosto amargo na boca de todos os brasileiros. A chegada do Plano Cruzado conseguiu, por alguns meses, controlar a alta inflação que consumia os salários da população. A explosão do primeiro Rock in Rio, em 1985, e o estouro da Blitz, de Evandro Mesquita, três anos antes, também contribuíram para o boom do rock.

O RPM é certamente o nome de destaque de 1986. Rádio Pirata ao Vivo vendeu mais de 3 milhões de cópias. Tudo aconteceu por acaso. Em 1985, a banda tinha acabado de lançar seu primeiro álbum de estúdio, Revoluções por Minuto. Além de Rádio Pirata, Louras Geladas e Olhar 43, o grupo incluiu no set dos shows uma versão peculiar de London, London, de Caetano Veloso. A música estourou e as rádios passaram a tocar versões piratas da canção. Como os singles não eram mais produzidos no Brasil, a solução foi lançar Rádio Pirata Ao Vivo para que o público pudesse ter acesso à faixa. “Gravar um disco ao vivo naquele ano foi algo extremamente ousado. Ninguém no País fazia isso. Quando tocamos London, London, o Anhembi – onde o show foi realizado – veio abaixo”, lembra Paulo Ricardo.

Na mesma vertente musical do RPM, em maio de 1986, o Ira! entrou no estúdio mais renomado do Brasil, o Nas Nuvens, para gravar seu segundo disco, Vivendo e Não Aprendendo. A relação de Liminha, produtor do disco, com Edgard Scandurra e Nasi não foi das melhores. Apesar do clima turbulento, o Ira! tinha ali o melhor disco da sua carreira. Envelheço Na Cidade, Dias de Luta e Flores Em Você externavam uma sonoridade mais compacta e madura da banda. O Ira! se consolidava como grande força do rock nacional. “A gente era muito cabeça-dura. Sofremos um pouco por conta disso. Talvez se tivéssemos sido mais flexíveis, os resultados teriam sido maiores”, diz Nasi, vocalista do Ira!.

Dois meses antes do Ira!, os Titãs lançaram Cabeça Dinossauro, a epopeia do rock nacional. O disco reformulou a cena. Bichos Escrotos, Polícia, Homem Primata e Família mesclavam funk, reggae e até hardcore. Com letras consistentes e riffs agressivos, o trabalho impulsionou a banda. Nenhum outro disco fez tanto barulho na década de 1980. “Acho que a coisa só deu certo porque fizemos tudo do nosso jeito. Queríamos criar um trabalho mais autoral. Não nos importávamos com a viabilidade comercial. Em termos de quantidade e qualidade, num curto espaço de tempo, nunca houve nada parecido”, afirma Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs.

Se São Paulo era rota obrigatória para o rock nacional, o Rio de Janeiro não ficava para trás. Os Paralamas do Sucesso cresciam absurdamente. Após duas apresentações históricas na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone queriam mais. Depois de Cinema Mudo (1982) e O Passo do Lui (1984), o trio produziu seu disco mais consistente: Selvagem?. As letras políticas e atuais da banda mostravam amadurecimento. Com ska, dub e world music, driblaram os críticos que ainda olhavam para o trio com certa desconfiança. As batidas africanas e a estrutura de samba-enredo de Alagados comprovam isso. “O Selvagem? foi uma escolha mais ousada. Não queríamos fazer coisas tão óbvias. À época, houve muita polêmica em relação à nossa atitude de buscar influências do reggae e da música negra”, afirma João Barone, baterista dos Paralamas.

Da cena de Brasília vieram Dois, da Legião Urbana, e o primeiro disco do Capital Inicial. “Você consegue mensurar a qualidade de uma obra de acordo com o tempo. Nós tocamos essas músicas até hoje”, analisa Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial. “Nossa geração não inventou o rock brasileiro. A gente só conseguiu externar nossos objetivos com mais contundência. O ano de 1986 externa tudo isso para gente, porque simboliza a democratização e o fim de um regime opressor.”

  RPM - Olhar 43

Legião Urbana - Tempo Perdido

Capital Inicial - Música Urbana

Os Paralamas do Sucesso - Alagados

Ira! - Flores em Você

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