Reprodução
Reprodução

Discos históricos da gravadora Elenco são relançados em vinil

Trabalhos dos anos 60 de músicos como Tom Jobim, Sérgio Mendes e Dorival Caymmi marcaram época

Lucas Nobile, O Estado de S. Paulo

22 Março 2014 | 16h00

Na primeira metade da década de 1960, muitos balconistas de lojas de discos do Rio deparavam com uma situação curiosa: clientes chegavam perguntando não pelo novo álbum de um artista específico, mas pelos lançamentos de uma gravadora.

A tiragem era pequena, cerca de 2 mil discos. Não se tratava da quantidade, mas, sim, da qualidade que faria com que a Elenco marcasse seu lugar na história da música brasileira. De 1963 a 1966, a gravadora criada por Aloysio de Oliveira lançou cerca de 60 álbuns de nomes como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Sergio Mendes, João Donato, Dick Farney e Sylvia Telles, além das estreias de Edu Lobo e Nara Leão.

Agora, cinco LPs da Elenco são relançados pela Polysom, única fabricante de discos de vinil da América Latina em atividade. O box reúne as três “categorias” marcantes da gravadora: encontros, como Caymmi Visita Tom (1964) e Vinicius & Odette Lara (1963); shows, como Vinicius/Caymmi no Zum Zum (1966); e estreias, como a de Nara Leão, em Nara (1964), e Bossa Nova York (1967), primeiro disco de Sergio Mendes nos Estados Unidos.

“O Aloysio foi inovador. Deixou de ser um grande artista para, na época da bossa nova, se tornar um articulador cultural da maior importância. Antes da Elenco, ele já vinha fazendo isso na Odeon, com o João Gilberto. Tive a graça de poder lançar o meu melhor disco pela Elenco”, diz Sergio Ricardo sobre Um SR Talento, lançado em 1963.

Os cinco discos foram reunidos em uma caixa a R$ 349. Os álbuns tiveram o projeto gráfico original mantido. O que no caso da Elenco faz muita diferença, considerando-se a importância das capas da gravadora, com fotos de Chico Pereira e layout de Cesar Villela.

Relançados em vinil, os álbuns reafirmam o bom momento deste formato no mercado. Desde que retomou suas atividades, em 2010, a Polysom já vendeu cerca de 100 mil álbuns, sendo quase 60 mil no ano passado. Na lista, LPs de Jorge Benjor, Moacir Santos, João Donato, Antonio Adolfo e Ronnie Von.

Coincidência

“Não acredito que você me ligou para falar sobre isto. Neste momento eu estou exatamente no mesmo lugar onde começou a minha história aqui nos Estados Unidos”, diz Sergio Mendes, impressionado com a coincidência. Ao atender o telefonema da reportagem, está em um quarto do Fontainebleau Miami Beach.

O espanto do pianista e compositor tem explicação. Na década de 60, ele se apresentava no Bottle’s Bar, no Beco das Garrafas, em Copacabana, quando conheceu Nesuhi Ertegun. O turco, produtor da famosa gravadora americana Atlantic Records, gostou do som e disse: “Se você for aos Estados Unidos, eu gostaria de gravar um disco seu, me procure”.

Em 1964, surpreendido pelos militares que invadiram sua casa em Niterói para prendê-lo, Mendes se mandou para os EUA. Ao chegar, ligou para Ertegun do mesmo hotel onde está hospedado hoje, 50 anos depois. Com tudo acertado, Mendes partiu para Nova York, onde gravou seu primeiro disco nos Estados Unidos. O álbum, que projetou o brasileiro no exterior, teve participações de Tom Jobim (no violão) e de jazzistas como Phil Woods, Art Farmer e Hubert Laws.

Lançado como The Swinger from Rio, o disco saiu no Brasil em 1967 com título Bossa Nova York, pela Elenco. Agora, o álbum de estreia de Mendes nos EUA é relançado no País em vinil pela Polysom, em caixa que tem outros quatro LPs e chega às lojas em abril pela Polysom, mas já pode se comprada no site polysom.com.br. “O Nesuhi foi uma figura muito importante na minha vida, um grande amante do jazz e de pintura surrealista, foi uma espécie de mentor”, diz Mendes.

A trajetória do produtor e diretor artístico Aloysio de Oliveira já era longa até criar a Elenco, na virada de 1962 para 1963. Ele fizera parte do Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda pelos Estados Unidos, e também trabalhara na Odeon e na Philips. Sem a liberdade que desejava para criar, decidiu montar sua pequena e própria gravadora, a Elenco.

Moacir Santos

Além do disco de Sergio Mendes, a caixa traz também álbuns importantes da gravadora que ficaria conhecida como “a casa da bossa nova”. Entre eles, Vinicius & Odette Lara, lançado em 1963, com parcerias de Vinicius e Baden Powell e a atriz Odette Lara no vocal. O álbum tem canções como Berimbau, Labareda, Samba da Bênção, O Astronauta e Deixa, com arranjos do maestro Moacir Santos, que fora parceiro de Vinicius e professor de Baden. “Esse disco devia se chamar Vinicius, Baden e Odette Lara. Como eram modernos os arranjos do Moacir para sopros e cordas, a concepção dele é muito forte. O Baden era como um afilhado, o Moacir o considerava seu melhor aluno”, diz o violonista e arranjador Mario Adnet, autor de discos sobre a obra de Moacir, como Ouro Negro e Choros e Alegria.

Uma das sacadas de marketing de Aloysio era a promoção de encontros entre artistas que estrelariam os álbuns. Na mesma linha de Vinicius & Odette Lara, o produtor bolou casamentos musicais entre Roberto Menescal, Sylvia Telles e Lúcio Alves, Edu Lobo e Tamba Trio, Baden Powell e Jimmy Pratt, entre outros.

Da série de encontros da Elenco, dois envolviam Dorival Caymmi, e são relançados agora. Um é Caymmi Visita Tom, de 1964, com composições de Dorival, Jobim e jovens da época como Roberto Menescal, Durval Ferreira, Mauricio Einhorn e Bebeto Castilho. “A Elenco percebeu, por meio do Aloysio, que tinha um movimento surgindo”, comenta Menescal, também autor de discos clássicos pela gravadora.

Caymmi Visita Tom marcou o primeiro trabalho em disco de Dori (violão), Nana (voz) e Danilo Caymmi (flauta) com o pai, Dorival. No repertório, canções como Inútil Paisagem, de Jobim e Aloysio, Das Rosas, Saudade da Bahia e Canção da Noiva, de Caymmi, que contou com a voz de Stella Caymmi, esposa de Dorival.

“Foi o primeiro trabalho de disco que fizemos juntos com o velho, um clima muito familiar. Ficou muito marcante no trabalho da Elenco naquela época. O Aloysio inventava muito, foi um início importante na minha vida”, conta Dori Caymmi.

O outro álbum relançado e que traz também um encontro de Dorival é Vinicius/Caymmi no Zum Zum. Lançado em 1966, o disco teve outro insight de Aloysio: a gravação de um show. O espetáculo, que ficou mais de um ano em cartaz no bar Zum Zum, mostrava o encontro de Vinicius e Dorival acompanhados pelas jovens cantoras do Quarteto em Cy e pelo conjunto do violonista, guitarrista e arranjador Oscar Castro Neves. A tecnologia, precária na época, não permitia que o show fosse gravado ao vivo com qualidade. Assim, o produtor levou os artistas para o estúdio e reproduziu o roteiro e o ambiente espontâneo do espetáculo. O repertório dispensava maiores apresentações: Berimbau e Formosa (Baden e Vinicius), Minha Namorada (Carlos Lyra e Vinicius), História de Pescadores (Caymmi), entre outras. “O Aloysio e a Elenco foram um passo à frente na discografia brasileira, só lançavam grandes nomes. Esse disco é de suma importância na nossa carreira, é como se fosse Antes do Zum Zum e Depois do Zum Zum”, lembra Cynara, do Quarteto em Cy.

Dos cinco relançamentos da Elenco feitos pela Polysom, o de maior destaque talvez seja Nara, levando-se em conta que o disco de 1964 marcou a estreia fonográfica de Nara Leão. Um ano antes, na boate Au Bom Gourmet, a cantora estreava nos palcos com o show Pobre Menina Rica, de Carlos Lyra e Vinicius. E foi o próprio Lyra quem a apresentou nomes como Zé Kéti, Cartola, Nelson Cavaquinho e Elton Medeiros.

“Esses caras se reuniam na minha casa, ficávamos tomando cachaça até de manhã. E eu com o meu gravador, registrando as composições. Estava pensando em fazer um disco com eles, mas pensei que seria melhor chamar aquela menina de zona sul, classe média, para cantar os compositores do morro”, diz Lyra. Segundo o compositor e violonista, a primeira reação de Nara não foi das melhores. Ela achava que eles “soavam ruins”. Lyra então pegou o violão e mostrou aqueles sambas interpretados como bossa nova. Nara mudou de ideia.

Tempos depois, ele se encontrou com a cantora, que já estava com o disco praticamente todo gravado. No repertório, canções de Lyra, como A Marcha da Quarta-Feira de Cinzas (com Vinicius), Nanã (Moacir Santos, autor e arranjador da música), Canção da Terra (Edu Lobo e Ruy Guerra), além de sambas dos compositores do morro, como Sol Nascerá (A Sorrir), de Cartola e Elton Medeiros, e Luz Negra, de Nelson Cavaquinho e Amâncio Costa.

Lyra só sentiu falta de uma canção, que, segundo Nara, Aloysio de Oliveira e Lindolfo Gaya (arranjador do álbum) não tinham gostado. Era simplesmente Diz Que Fui Por Aí, samba de Zé Kéti e Hortênsio Rocha que, por insistência de Lyra, entraria no disco e se tornaria um clássico na voz de Nara. “Eu disse a ela: Nara, tira qualquer música minha do disco e coloca Diz Que Fui Por Aí. Esses produtores são uns bestas, não entendem nada. Ela me ouviu e deu no que deu”, completa Lyra.

Mais conteúdo sobre:
Música

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.