Discos de Mariza e António Zambujo trazem a força do canto português

Discos de Mariza e António Zambujo trazem a força do canto português

A fadista Mariza e o músico António Zambujo acabam de lançar seus belos álbuns, com os quais fazem show no Brasil

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 03h00

Artistas contemporâneos, os cantores António Zambujo e Mariza são hoje grandes nomes da música portuguesa, com projeção internacional. As turnês deles rodam o mundo e, não raro, passam pelo Brasil. Ambos bebem na fonte do fado, mas se enveredam pelo tradicional estilo musical português de forma diversa. Mariza é uma fadista de corpo e alma, com todos os sentidos voltados ao gênero. Zambujo tem o fado ocupando espaço especial em seu repertório, mas o músico tem ampliado, cada vez mais, o leque de sonoridades em sua obra.

Nascida em Moçambique e criada em Portugal, Mariza está lançando seu 7.º álbum de estúdio, Mariza, que, no Brasil, chega pela Warner Music. É um trabalho bonito, delicado, em que a cantora mostra a força de seu canto a serviço do fado. No repertório, ela reúne diversas gerações de compositores, fazendo um mosaico de tempos e estilos diferentes.

“Acho que as escolhas não são feitas. Tal como na vida, a música acontece. Eu tenho muitos amigos: alguns são ligados ao fado tradicional, outros não tem nada a ver com o fado, mas sim com a minha forma de gostar de música (que é o caso Matias Damásio, compositor de Quem Me Dera). O que eu fiz foi juntar todos esses amigos e eles refletem o momento em que eu estou na minha vida”, explica Mariza.

Para ela, cada disco fala de um momento da sua vida. “Esse reflete quem eu sou agora, o que quero expressar quando canto. Nada melhor do que essa mistura para traduzir a fase em que estou, a alegria que eu vivo, a fase do amor, por que eu canto o amor.” Estão ali o lamento, a tristeza, a dor de amor, mas também a felicidade, como em Amor Perfeito (de Heber Marques). “Você tem no samba a resposta. No samba, você pode contar os momentos mais melancólicos e mais tristes da vida com um sorriso na cara. O fado também faz isso.”

Em Semente Viva (de Flávio Gil e Mário Pacheco), Mariza conta com a participação de Jaques Morelenbaum. Os dois já haviam trabalhado juntos em outro disco dela, Transparente (2005), produzido pelo músico e arranjador brasileiro. “Sou fã de carteirinha do Jaques. Desde o disco que a gente fez, o Transparente, que até gravei no Rio, Jaques fez-me ter uma visão sobre a música completamente diferente, a ter um respeito maior, e a descobrir o meu lugar como intérprete, a melhor forma de estar dentro da música.”

Mariza se apresenta no Brasil, e passa por São Paulo, nesta sexta, 24, no Tom Brasil. Esse show antecipa as comemorações dos 20 anos de sua carreira, a serem completados no ano que vem. “Eu diria que é uma viagem entre todos os meus discos”, diz ela, que afirma ser apaixonada por artistas da música brasileira como Elis, Clara Nunes e Chico Buarque.

António Zambujo lança 'Do Avesso', com compositores brasileiros no repertório

A atual agenda de shows de António Zambujo também inclui o País. No dia 8 de junho, ele participa do Festival de Fado, na Cidade das Artes, no Rio, e, no dia 10 de junho, no mesmo festival, que será realizado no Teatro Opus, em São Paulo. Assim como Mariza, Zambujo reverencia nomes consagrados da MPB, mas se aproximou da obra de compositores brasileiros de outras gerações. No novo disco, Do Avesso (MP,B Discos/Som Livre), ele traz Fruta Boa, de Milton Nascimento e Fernando Brant, e ainda Do Avesso, de Rodrigo Maranhão, e a bela Até o Fim, de Cézar Mendes e Arnaldo Antunes.

E faz uma incursão pelo cancioneiro português, do tradicional ao novo. “Em todos meus discos, sempre tiveram alguns autores jovens, com coisas mais antigas”, diz Zambujo. “Para mim, não tem diferença de Portugal e Brasil. É a língua portuguesa.” O disco Até Pensei Que Fosse Minha, de 2016, com releituras de canções de Chico Buarque, foi um trabalho fora da curva. “Foi uma coisa diferente de tudo”, admite. Mas o olhar dele para a música continua panorâmica, ampla. 

A canção Do Avesso, que dá nome ao disco, foi enviada para ele diretamente por Rodrigo Maranhão. “É um autor que gosto muito.” Até o Fim já havia sido gravada pelo cantor português no disco de Cézar Mendes, lançado no ano passado, o Depois Enfim, que reuniu diversos intérpretes. Zambujo quis trazê-la também para seu trabalho. “No disco do Cézar, era voz e violão. Aqui é com orquestra (a Sinfonietta de Lisboa)”, compara.

“Todas essas canções surgem de encontros.” Foi assim também com Madera de Deriva, do uruguaio Jorge Drexler, que surgiu depois que eles se encontraram em Madri, no ano passado. Dos autores da cena portuguesa, Zambujo trouxe representantes de diversas gerações e escolas, da fadista e compositora Aldina Duarte, em Retrato no Bolso, ao angolano Paulo Abreu Lima, em Amor de Antigamente. E Zambujo sempre com seu canto suave, preciso. “O disco tem essa coisa cinematográfica”, diz. “O critério para a escolha são as músicas que eu gosto.”

MARIZA

Tom Brasil.

Rua Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio. Hoje (24), às 22h. 

R$ 60/R$ 120. 

 

 

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