Disco traz canções baseadas em poemas de Pablo Neruda

Canções são defesa da poesia e da possibilidade do amor, de Peter Lieberson, cantadas por sua mulher

Lauro Machado Coelho,

05 de março de 2008 | 15h52

A meio-soprano Lorraine Hunt Lieberson morreu em 3 de julho de 2006, aos 52 anos, no auge de uma carreira que tinha feito dela uma grande intérprete de música barroca. Pouco antes de morrer, estreou as cinco Neruda Songs, ciclo de canções orquestrais baseadas em sonetos do grande poeta chileno, escritas para ela por seu marido, o compositor Peter Lieberson. A gravação ao vivo dessa estréia, feita pelo selo Nonesuch em 25 de novembro de 2005, com a Sinfônica de Boston regida por James Levine, é um dos volumes mais interessantes da série de discos que a Warner acaba de colocar no mercado brasileiro.   Ouça trecho de 'Ya Eres Mia'    Peter Lieberson - filho de Goddard Lieberson que, por muito tempo, dirigiu a gravadora Columbia - iniciou a carreira como um músico dodecafônico, aluno de Milton Babbit e Charles Wuorinen. Mas nunca foi um vanguardista radical, como o demonstrou a sua ópera Ashoka’s Dream, estreada com grande sucesso em Santa Fé em 1997. De cromatismo muito móvel, e influenciada pela adesão de Lieberson ao budismo tibetano, a partitura coloca as técnicas seriais lado a lado com as formas tradicionais e, nessa construção híbrida, há momentos muito eficientes de música diatônica. Foi nessa ocasião que Lieberson se apaixonou por Lorraine Hunt - intérprete de Trirashka, uma das mulheres do rei indiano Ashoka - e casou-se com ela.   A música que Lieberson escreveu para a sua mulher, usando os inflamados versos de Pablo Neruda, é uma declaração de amor de assumido tonalismo. A orquestra grande é usada com freqüentes texturas camerísticas, de grande variedade nas combinações timbrísticas, e a mistura de sensualidade e profunda melancolia dessas peças, compostas para a mulher que ele ama e sabe que vai perder, já se sente desde a lânguida frase para cordas graves, harpa e madeiras que abre a primeira canção, "Si no fuera porque tus ojos tienen color de luna".   Peter Lieberson evita o pitoresco meramente decorativo nas três primeiras canções. Mas introduz um voluptuoso ritmo de flamenco em Ya Eres Mía, que tem um tórrido interlúdio para cordas, pontuado por acordes do piano. Depois dessa aberta declaração de amor, o poeta empresta seus versos ao compositor para se despedir da companheira, dizendo-lhe: "Si mueres y yo no muero, no demos al dolor más territorio."   Nesta dolorida afirmação da eterna verdade de que o amor pode sobreviver à morte, é profundamente emocionante ouvir Lorraine cantar a doce melodia de "este amor no ha terminado y, así como no tuvo nacimiento, no tiene muerte, es como un largo río, sólo cambia de tierras y de labios". E a palavra "amor", repetida insistentemente, vai-se dissolvendo e sumindo na distância, como se fosse o "ewig, ewig" do Abschied mahleriano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.