Azevedo Lobo
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Disco solo de Teago Oliveira, do Maglore, explora temas intimistas

Vocalista da banda baiana lança ‘Boa Sorte’ em São Paulo e comenta referências, da MPB ao indie

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 18h52

Não é incomum: após anos de estrada com uma banda, fazendo shows pelo Brasil e acumulando lançamentos e destaque na imprensa, um dos membros decide investir numa empreitada solo. É o caso, agora, de Teago Oliveira, vocalista e guitarrista do Maglore. Em setembro, ele lançou o primeiro disco com seu próprio nome, Boa Sorte, e nesta sexta-feira, 18, o músico apresenta as novas canções em São Paulo, no Auditório Ibirapuera. O show ocorre às 21h e os ingressos custam R$ 30.

Também não é incomum que os discos solo explorem temas mais intimistas, reflexivos: o caminho também é trilhado pelo músico baiano, que tocou a maior parte dos instrumentos do álbum. “A obra solo não tem como não ser mais pessoal do que o trabalho em grupo”, diz Oliveira, por telefone. “A banda é uma construção supercoletiva. A Maglore foi criando, ao longo de todos esses anos, uma unidade, um organismo.”

A banda criada em Salvador tem dez anos de atividade e não entra em nenhum tipo de hiato para a empreitada solo, segundo o vocalista – setembro e outubro foram meses agitados para o quarteto, inclusive com um show no Rock in Rio, em um palco alternativo do festival. São cinco álbuns lançados e Todas as Bandeiras (2017), o mais recente no estúdio, já dava sinais de uma busca interna mais atenta, com uma estética concentrada.

“O último disco já tem muita coisa pessoal, então resolvi manter essa linha no álbum solo, levar para uma reflexão de outra forma”, explica Oliveira. Ele concorda que o trabalho coletivo de uma banda pode deixar tudo menos pessoal.

Se o Maglore caminha como poucos entre o mainstream e o underground, com um rock acessível de traços indie, no disco solo Teago usa suas influências e mistura Caetano Veloso, Jorge Ben e Belchior com Jeff Tweedy (do Wilco) e Jeff Buckley, falando de amores e da saudade que tem da sua Bahia natal.

“Sempre tive isso na Maglore, e aqui decidi escancarar”, fala, sobre o senso de deslocamento que permeia parte do disco. “Sou um ‘soteropaulistano’, já considero São Paulo uma casa. Para cada paulista preconceituoso que trombei no caminho, outros dez me ajudaram e me deram a mão. A cidade transformou a minha vida. Mas ela não é Salvador”, diz, rindo. “Eu cresci lá, existe um sentimento nostálgico, mas também não vivo mais a cidade, o povo, isso sempre me dá saudades.” Longe da Bahia, a canção que trata mais diretamente disso, busca em Dorival Caymmi a inspiração e incorpora ao ambiente nostálgico arranjos de violino.

Sobre as influências, o músico diz acreditar que qualquer canção parte de uma referência. “O próprio Dorival tinha referências, que talvez não fossem tão difundidas. A criação parte de uma referência, sem necessariamente passar por uma imitação ou uma tentativa de plágio”, comenta. No disco, os modelos brasileiros saltam aos olhos. “Para mim, a referência é o próprio jeito de lidar com o seu trabalho”, diz o músico.

“Sem querer me comparar, Caetano é um dos mais autênticos e inventivos músicos brasileiros, mas ao mesmo tempo completamente inspirado na forma de João Gilberto, e também em Dorival. O lance é partir das influências e criar uma linguagem própria. A árvore da música brasileira começa em Dorival, João e Luiz Gonzaga. É impossível ouvir Gil e não sacar Gonzaga. Outra pessoa que me inspira é Devendra Banhart (cantor e compositor americano). A sonoridade dele, que também gosta dessa coisa lo-fi e uma pessoa que também se liga em Caetano Veloso.”

Para o show – que teve apenas uma outra data anterior em Salvador – Teago conta que prepara dois momentos: um com dois amigos, que fazem programação e bateria e percussão e baixo, e outro com apenas ele no palco, compartilhando a história das canções e fazendo uma versão de Lilac Wine, eternizada nas vozes de Nina Simone e Jeff Buckley.

Compositor com canções já gravadas por Gal Costa, Erasmo Carlos e Pitty, o frontman do Maglore chega aos 33 anos em um lugar favorável da nova música popular brasileira, mas diz não escrever pensando em outros artistas. “O processo de composição nunca é muito cerebral para mim, mas sempre fui sentindo como necessidade artística de algumas músicas ter uma vibe diferente da Maglore. Sair para fazer um disco solo é aprender a trabalhar de outra forma. No Boa Sorte, eu decidi criar os arranjos, junto apenas com o produtor mineiro Leonardo Marques, gravar quase todos os instrumentos. Isso me levou para outro lugar, com um olhar mais atento que acredito levar a um autoconhecimento.” 

TEAGO OLIVEIRA – BOA SORTE

AUDITÓRIO IBIRAPUERA. AV. PEDRO ALVARES CABRAL, S/N – PORTÃO 2 DO PARQUE DO IBIRAPUERA, TEL. 3629-1075. SEXTA-FEIRA, 18/10. 21H. INGRESSOS: R$ 30 (INTEIRA) E R$ 15 (MEIA-ENTRADA)

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