Arnaud Julien Pallière- Coleção Brasiliana do Itaú
Arnaud Julien Pallière- Coleção Brasiliana do Itaú

Disco resgata música e hábitos de quem vivia em São Paulo no século 19

‘São Paulo: Paisagens Sonoras’ reúne cantigas de festa, o barulho das ruas e a história política da “cidade de tropeiros”

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2019 | 07h00

“Comendo içá, comendo cambuquira, vive a afamada gente paulistana / E as tais que chamam caipira, que não parecem ser da raça humana…”

O trecho do poema apresentado pelo estudante Francisco José Pinheiro Guimarães não foi muito bem recebido pelos ouvintes em um sarau, na São Paulo de 1830.

Nessa época, a cidade era alvo de piada por baianos e cariocas, que caçoavam os moradores pela alimentação baseada em içá, a fêmea da formiga saúva, ou tanajura, com brotos de flor de abóbora.

Os hábitos, a vida e a transformação da capital paulista naquela época pode ser descoberta no CD-livro São Paulo: Paisagens Sonoras (Sesc), organizado por Anna Maria Kiefer, lançado nesta sexta, 25, no Sesc Vila Mariana, em comemoração ao aniversário da cidade.

O disco, organizado em seis partes, apresenta detalhes sobre a dieta de formiga e cumbuquira em Vozes das Ruas, descrita em Pregões e Cantos de Trabalho, no seguinte trecho: Olha a banana amarelinha, pintadinha! Quem quer tremoços ! Içá, içá, cambuquira."

Anna Maria explica que a alimentação é uma pistas de como as pessoas viviam naquela época. “Essas comidas eram oferecidas nas feiras, vendidas por mulheres. Junto com a formiga e da cambuquira, havia peixe, mas do rio, porque os de Santos ainda não chegavam por aqui.”

Na primeira parte do CD, intitulada A Cidade, o ouvinte acompanha a narrativa dos principais pontos da chamada Imperial Cidade de São Paulo, mapeada na primeira planta de Capitão de Engenheiros Rfino J. Felizardo e Costa, criada em 1810.

O mapa tem como primeiro ponto a Rua de São José, hoje chamada de Líbero Badaró. Em seguida, a Ladeira do Acú, que inspirou a Cantiga do Acu. “Havia partículas na água que a tornavam venenosa.” No verso, a cantiga diz que “quem bebeu morreu.”

Dali, é caminha-se até o tanque do Arouche, cheio de sapos. A Praça da República, antes chamada de Campo dos Curros apontava para o Beco do Mata Fome, hoje Rua Epitácio Pessoa. “É ali que ouviam-se o ruído de mulas utilizadas pelas tropas vindas de Sorocaba, pela antiga Estrada dos Pinheiros, atual Rua da Consolação”, explica Anna Maria.

O próximo ponto é a Ladeira de São Francisco, com o antigo Curso Jurídico. Uma música da época revelava, com ironia, a dura rotina dos estudantes. Anna Maria conta que a melodia de Vida do Estudante é semelhante à Vida do Marujo, canção entoada pelos marinheiros. “Era uma cantiga que acompanhava o duro trabalho dos marinheiros responsáveis pela limpeza do navio.”

Do Curso, segue-se até o antigo Largo da Forca, atual Praça da Liberdade, passando pelo Cemitério e Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, próximo ao beco da Rua dos Estudantes. A tradição conta que ali se rezava à Virgem pelas almas dos enforcados. “A música Salve Rainha faz especial referência a esse local e aos mortos por enforcamento”, lembra Anna Maria.

Não muito longe, há a Ladeira do Carmo, que ligava a rua de mesmo nome (hoje Roberto Simonsen) à saída para o Rio de Janeiro. Ali, praticava-se o miudinho, uma dança famosa desde a Independência. Conta-se que o primeiro impedador compões uma série de variações, hoje perdidas. A última parada no mapa é no Beco das Sete Voltas, seguindo pela margem do Tamanduateí, em direção ao Guaré, hoje conhecido como Luz. O nome do Beco faz referência com o rio sinuoso, antes de sua retificação, que deu origem à região da Rua 25 de Março.

O disco também resgata saraus e serenatas, que revelam em seus versos, o hábito dos moradores e a precariedade da cidade. Em Noite Saudosa, de Fagundes Varela, a natureza é louvada e a presença da Lua, com seu luar. “São Paulo era muito mal iluminada”, conta Anna Maria. “Já havia óleo de baleia como combustível, mas os postes eram muitos distantes, entre si. As noites de lua cheia eram saudadas pelos jovens e músicos, que saíam com o violão e navegar pelo rio, cantando.” Na parte  Abolicionistas e Republicanos, o disco retoma trovas de Luis Gama, conhecido como o patrono da Abolicação da Escravidão do Brasil. Nascido em Salvador, viveu em São Paulo e atuou como jornalista e escritor. “Ele foi vendido como escravo e até os 17 anos era analfabeto”, lembra Anna Maria.  Há um busto do abolicionista no Largo do Arouche. “Luis chegou a fazer o curso jurídico mas nunca recebeu a autorização para praticar a profissão.”

Como forma de mitigar a antiga decisão, em 2015 a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) concedeu o título de advogado em homenagem a atuação de Gama.

Por último, a seção Os Levy retoma a importante família que renovou a cena musical na São Paulo daquela época. Anna conta que eles foram responsáveis por organizar encontros musicais mais clássicos. “Havia muitos saraus e serenatas, algo mais espontâneo. Os Levy faziam o trabalho de imprimir partituras e organizar os primeiros concertos aqui. No disco, a Quadrilha, entoada pelo músico Luís Levy, relembra os bailes nas casas. “Era semelhante às quadrilhas juninas”, conta Anna Maria. “Mas não eram feitas do lado de fora. Também havia o mestre que guiava os casais, com frases e expressões em francês, como o famoso 'balancé!'”

Anna Maria avalia que o disco é uma oportunidade de viajar no tempo para a principal capital do País. “É interessante ver como uma cidade de tropeiros alcançou tamanho desenvolvimento. Com a chegada de imigrantes, da Alemanha, da Itália, em 50 anos, São Paulo já não seria a mesma.”

 

Serviço: Espetáculo: A música e os ruídos da cidade de São Paulo em meados do século XIX. Sesc Vila Mariana, rua Pelotas, 141. Tel.: 5080-3000. 6ª, às 18h. R$ 17.

Disco: São Paulo: paisagens sonoras (1830-1880). R$20,00. Disponível nas lojas da rede Sesc e livrarias parceiras, ou no link, sescsp.org.br/loja

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