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Novo disco recupera gravações antigas de Cássia Eller

Família lança 'O Espírito do Som', 1º CD de uma trilogia que vai trazer material inédito da cantora que morreu em dezembro de 2001

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2015 | 21h00

RIO - O baú de Cássia Eller (1962-2001) é vasto e amoroso. Dele já saiu material para o disco póstumo Do Lado do Avesso (2012), para o documentário sobre a cantora dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e lançado ano passado, para o CD O Espírito do Som, com dez faixas gravadas por ela ao violão aos 21 anos, e que chega às lojas e ao iTunes hoje, e ainda para outros dois CDs, com registros de espetáculos teatrais e shows que a cantora fez em Brasília e no Rio, estes em fase de planejamento. 

O Espírito do Som, que a Coqueiro Verde lança como volume um, tem covers de Cássia em português, inglês, espanhol e francês. O caráter amador foi mantido. “Eram músicas de que ela gostava muito e que apresentava em shows em Brasília. Quando encontrei a fita, mal dava para ouvir, de tão sujo”, conta a jornalista Elisa de Alencar, que cedeu o cassete à família da cantora, que morreu em razão de um enfarto do miocárdio repentino, no final de 2001. 

Oito anos mais velha, ela foi o primeiro namoro firme de Cássia e aparece na foto do encarte com a cabeça em seu colo. A gravação foi feita no 3-em-1 da casa do Lago Sul que ela dividia com amigos, na qual Cássia era assídua. A cantora plugou o microfone, cantou cerca de 20 músicas e entregou o resultado a Elisa para que ela entregasse de presente a seu irmão, que morava em Olinda. 

Material intacto. Trinta anos e algumas mudanças de imóvel depois, o material foi encontrado, limpo e, agora, apresentado aos fãs de Cássia na condição de relíquia. A seleção já mostra o ecletismo que marcaria sua trajetória artística. Em Segredo (Luiz Melodia), ouve-se a Cássia visceral, que canta os versos “eu quero mais/muito mais/ser um calado coração trancado” como quem os sente fundo; já em Ausência (Ednardo) e Sua Estupidez (Roberto/Erasmo), a voz é quase infantil. 

For No One (Lennon/McCartney) é doçura e lirismo; Ne Me Quitte Pas tem a mesma carga dramática da versão que ela faria no Acústico MTV, lançado em março de 2001, nove meses antes de sua morte. O CD tem ainda uma música de Cássia com a amiga Simone Saback, Flor do Sol (a intérprete só deixou seis composições, pelo que se sabe até agora).

“Foi incrível quando ouvi. Descobrir o timbre daquela época, a voz limpa, a Cássia já buscando um repertório e aquela maneira só dela de cantar”, diz Rodrigo Garcia, que tocou com ela de 1997 a 2001 e, a pedido da mulher de Cássia, Maria Eugenia Vieira Martins, e do filho, Francisco, vem trabalhando em seu acervo. 

Eles são sócios do selo Porangareté (palavra indígena extraída de Flor do Sol), pelo qual está saindo o CD. “Tem muito material inédito, estamos sempre garimpando. Mas nem tudo vale a pena lançar, do ponto de vista artístico.”

No caso do volume um, Garcia explica que a produção “é muito mais sentimental do que técnica”. 

Próximos projetos. O dois próximos CDs que planeja deve ter registros de espetáculos teatrais em que Cássia cantava e atuava, como o cabaré Gigolôs, que dividiu com o ator Marcelo Saback na mesma época. No repertório, de Surabaiya Johnny, de Kurt Weil e Brecht, a Tem Francesa no Morro, de Assis Valente, passando por Gershwin e Lamartine Babo.

O volume três deve se concentrar em shows. Não há pressa para lançá-los. “Quando ouvi, fiquei muito emocionada. Acho que as pessoas que gostavam muito dela devem sentir essa emoção também. Não tenho pudor de lançar porque não é para vender horrores, é para os fãs”, justifica Eugenia. 

Em casa, ela tem um armário inteiro de fitas com material bruto, entre ensaios caseiros e brincadeiras de Cássia com amigos músicos.

Para o cineasta Paulo Henrique Fontenelle, que pesquisou por quatro anos para fazer o documentário lançado no ano passado, os fãs ainda têm bastante a ganhar. “Tem muito áudio e muita imagem de Brasília e do Rio guardados. E cartas que dariam um ótimo livro, mostrariam a visão de mundo da Cássia”, disse o cineasta. 

Numa delas, incluída na arte do CD, a Cássia jovenzinha já dizia: “É bonito, quando eu canto e estou satisfeita. É doído, quando canto e estou angustiada. Eu cantando sei mais de mim.”

O Espírito do Som 

Coqueiro Verde

R$ 19,90

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