Mark Selinger
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Disco de Diana Krall e Tony Bennett reverencia Gershwin

No refinado ‘Love Is Here to Stay’, reina a emoção de revisitar canções atemporais dos irmãos George (música) e Ira (letra) Gershwin

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

22 Novembro 2018 | 20h12

Aos 92 anos, completados em 3 de agosto passado, Tony Bennett é um sujeito raro. Apesar de mais grave, sua voz encantadoramente ‘suja’ permanece atraente e cheia de sutilezas. O tempo parece não lhe pesar sobre as cordas vocais. Continua em plena atividade e acaba de lançar o CD Love Is Here to Stay tendo como parceira a cantora e pianista canadense Diana Krall, de 53 anos. É uma proeza e tanto. Os dois navegam com intensidade e afeto por aquele que seguramente é o mais revisitado songbook do mundo, George Gershwin (1898-1937). Em gesto extra de carinho, Bennett fez questão que o CD fosse lançado no dia 26 de setembro de 2018, dia em que Gershwin completaria 120 anos. 

O terceiro diferencial é que Diana Krall, excelente pianista, não toca. Apenas canta. E parece até mais solta, por causa dessa condição. E também, claro, devido ao charme de Bennett. Ela já participou de outras gravações dele, logo depois que surgiu, em 1996, como um cometa na cena musical internacional com um sensacional CD, All for You (a dedication to the Nat King Cole Trio), no qual combinou seu piano atrevido com a voz de timbre quente e afinação impecável. Com Bennett, ela fez duos em Playin’ With My Friends – Bennett Sings the Blues (2001) e Duets – An American Classic (2006).

O quarto ingrediente que torna essa gravação fonte de prazer sempre renovado é a participação do trio do pianista Bill Charlap, nova-iorquino de 52 anos, filho de Moose Charlap, compositor da Broadway nos anos 1950. Seu piano não é exatamente inovador. É vintage puro; você se sente em Manhattan, como se passeasse junto com Woody Allen pelos points da cidade. E ele se cerca de dois parceiros supercompetentes: o contrabaixista Peter e o baterista Kenny Washington. Apesar do sobrenome igual, Peter é de Los Angeles, onde tocou por bom tempo com uma lenda do piano, Tommy Flanagan; e Kenny é de Nova York (aliás, Kenny tem um irmão, Reggie, que também é contrabaixista). 

Hoje em dia, não se ouve mais um CD inteiro, mas apenas capturam-se músicas para playlists pessoais. Pois bem. Vá direto à faixa 10 e coloque imediatamente na sua playlist. É Fascinating Rhythm, clássico dos clássicos dos irmãos George (música) e Ira (letra) Gershwin, de 1924. Foi com essa música que Anthony Dominick Benedetto estreou em disco em 1949 – com seu primeiro nome artístico, Joe Bari. O piano começa sozinho e instaura o swing com seis acordes; no sétimo entram bateria e contrabaixo e a voz inconfundível de Bennett nos seduz com esse ritmo fascinantemente elegante, ao qual a voz límpida de Diana acrescenta pitada extra de sofisticação. Um improviso do piano sobre o walking bass de Peter e o duo de luxo alterna-se em frases curtas. Puro encantamento. 

Ao todo, são 12 faixas, todas presentes no inconsciente coletivo de várias gerações mundo afora. Em dez delas, eles cantam juntos, com direito a pérolas como I Got Rhythm, Do It Again e Nice Work If You Can Get It. A ideia de Danny Bennett, filho de Tony e atual presidente da Verve, gravadora pela qual o CD está sendo lançado, passa longe de outras parcerias surpreendentes – e excelentes, diga-se – que ele fez nos últimos anos com k. d. lang em 2002 (A Wonderful World), Lady Gaga em 2014 revelando-se uma cantora de enormes qualidades até então insuspeitadas (Cheek to Cheek), gravação em que Amy Winehouse também brilha muito. 

Aqui reina a emoção de revisitar canções atemporais, gemas eternas, com um pé no jazz. Ambos tiveram, em momentos diferentes de suas carreiras, parcerias jazzísticas memoráveis que os marcaram para sempre: Tony com o pianista Bill Evans em 1975 (Together) e 1977 (Together Again); e Diana no tributo a Nat King Cole.

Bônus finais nesse refinado banquete musical: ele canta a swingada Who Cares?, do musical Off Thee I Sing, de 1931; ela a lírica But Not For Me, do antológico musical Crazy Girl, de 1930, acompanhada apenas pelo piano de Bill Charlap. É praticamente um “lied”, na melhor tradição de Schumann e Schubert.

SERVIÇO

DIANA KRALL & TONY BENNETT

‘LOVE IS HERE TO STAY’

VERVE; PLATAFORMAS DIGITAIS R$ 19,90

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