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Diretora fala o caminho na criação do cenário e da luz do espetáculo de Maria Bethânia

Bia Lessa, que dirige 'Abraçar e Agradecer', escreve sobre o processo de composição do show da cantora, que chega a SP

Bia Lessa, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 03h00

Homenagear os 50 anos de uma cantora não é uma tarefa simples, embora pareça. O risco é imenso: enfileirar sucessos que possam representar uma trajetória e que juntos componham uma vida. No caso de Bethânia, essa vida que se compõe não pode ser uma vida regressa, necessita ser uma vida que construa uma ponte com o futuro e uma relação profunda com o presente. A ideia de uma retrospectiva só faria sentido se pensada como uma trajetória que constrói a Maria Bethânia de hoje. Porque a Bethânia é feita de hojes. Não estamos falando de uma artista que mantém uma vitalidade e um desejo de início de carreira – como ela mesma diz “eu estou ‘só’ começando”...

Por essa razão descartamos logo as imagens e as formas que fizessem alusão ao passado – pela literalidade. Mesmo o passado deveria ser muitíssimo presente – no sentido da atualidade e na valorização do instante imediato. Tínhamos um desafio - o dialogo entre esses dois polos aparentemente antagônicos - o que foi e o que é. Passar o tempo diante dos olhos do espectador: uma tela seria a resposta óbvia, mas torná-lo vivo e transformado.

Mas a tela criaria uma presença constante no palco – constância que não é uma boa metáfora para a vida – tão preenchida de sentimentos e acontecimentos diversos. Aparecer e desaparecer a tela por sua vez explicitaria uma espetacularidade de subir e descer de cenário que não nos parecia oportuno. O foco desse show seria revelar ainda mais a artista e não o espetáculo em si.

Decidimos colocar a tela no chão e não onde convencionalmente é utilizada. Não criaríamos um cenário, mas, de certa forma, uma ausência de cenário. Em vez de um décor criaríamos uma geografia – a estrada por onde a artista caminha – o seu chão - um conceito singelo – mas firme. Esse chão teria a forma de pequena rampa, por onde a artista caminharia durante todo o show. Não poderia ser um chão nivelado ao palco, por que a vida não se apresenta assim – plana, reta e fácil. Necessitaria criar algum relevo, situações de altos e baixos – e assim foi. Uma rampa sutil que nos remetesse a subidas, descidas, abismos e até a planos – que pudesse ser apreendida de diferentes formas dos diferentes lugares do teatro – afinal cada ângulo que utilizamos para observar uma vida, uma trajetória, nos remete a um ponto de vista – e a vida é infinitamente múltipla. Queríamos criar um show que pudesse ser visto de diferentes ângulos, complementares entre si, e que essa possibilidade fosse explícita. Foi o que tentamos realizar.

A utilização do LED nos traria uma modernidade/atualidade que nos pareceu interessante – usar tecnologia de ponta para dialogar com a trajetória da artista. Dois polos: passado e presente juntos. A utilização do LED é sempre muito delicada, por que, ao mesmo tempo em que é uma mídia mágica (reproduz qualquer imagem, grafismos, etc.), é também uma mídia fria, por reproduzir com facilidade o que quer que seja e por trabalhar unicamente com simulacros.

O que está projetado é apenas a ideia de um real e, no caso de Bethânia que é uma artista que concretiza as canções, a utilização do LED teve que ser muito pontual. Não queríamos estabelecer um festival de maravilhas, já que a vida cantada pela artista é uma vida complexa, cheia de nuances, com uma relação epidérmica com a natureza, uma relação dramática com as relações humanas e com uma relação rigorosa com a questão social, política e humana. O espaço, no caso desse show de Bethânia, precisaria ser um espaço que acolhesse essas dimensões de sua relação com a vida, abrindo mão de uma beleza extravagante e cenográfica.

Por isso utilizamos o LED com economia. Muitas vezes há mais força na ausência total de cenário do que num cenário constante. A cenografia aparece como tal - de forma contundente - apenas em alguns momentos para que possa contribuir com a dramaticidade e potencializar o “estado de poesia”. No mais, Bethânia se encontra só, num espaço vazio, acolhida apenas pelos seus músicos, que estão colocados em sua volta dando suporte à sua criação e banhada pela luz composta de ar, forma e cor.

A luz foi pensada no sentido de desenhar espaços, e não apenas de iluminá-la. A iluminação, muitas vezes nesse show, faz o papel da cenografia, criando ambientes e imagens – com uma função dupla: iluminar a artista e revelar... Como se a materialidade da vida se concretizasse a partir de um artifício “abstrato”, o ar e a luz. Por essa razão decidi assinar a criação da luz – cenário e luz nesse show são uma coisa só – e convidei Binho Schaefer para dividir comigo essa tarefa.

Foi uma parceria generosa onde somamos sua experiência como iluminador e seu conhecimento técnico com o desejo de criarmos uma iluminação cenográfica. Dirigir Maria Bethânia é apoiá-la em sua criação, dando suporte aos seus próprios voos, sugerindo pequenos ajustes que deixam mais nítidas as suas próprias intenções. O caminho para a criação de um show é um caminho longo, árduo e muito prazeroso quando temos como parceira uma artista de sua grandeza.

BIA LESSA É ATRIZ E DIRETORA

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