Diretora Ana Carolina redescobre o Brasil

Cineasta exibe em Lisboa filme inspirado em tela de Victor Meirelles

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2013 | 18h45

Ana Carolina tem sido uma diretora bissexta. Em quase 40 anos de carreira, iniciada com Getúlio Vargas em 1974, ela não fez uma dezena de filmes. E não foi por opção, mas pela própria descontinuidade do sistema de produção e distribuição no País. Mas Ana nunca demorou tanto para realizar um filme quanto agora. O encanto quebra-se na noite de quinta, mas bem distante do Brasil, em Portugal. Passaram-se quase dez anos desde O Boca do Inferno, sobre Gregório de Mattos.

Ela tentou levantar fundos no País para fazer A Primeira Missa. Conseguiu um pouco de dinheiro e uma parceria no exterior, com a Ibermédia e o produtor português José Fonseca e Costa. Seu contrato estipula que A Primeira Missa tem de ser mostrado ainda este ano, e ela o faz pela primeira vez, hoje à noite, em Lisboa, numa sala que pertence à cadeia de Paulo Branco, o ex-produtor de Manoel de Oliveira. Será uma sessão fechada, como a que Ana Carolina vai realizar no sábado, em Santarém, convidada pela prefeitura da cidade em que nasceu e está enterrado o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.

Tem tudo a ver com A Primeira Missa, que se inspira no quadro de Victor Meirelles. Ana Carolina filmou com atores portugueses, Rui Unas, Marcantonio Del Carlo, etc. Encantou-se com eles. O elenco brasileiro inclui Dagoberto Feliz, Alessandra Maestrini, Fernanda Montenegro, Rita Lee, Arrigo Barnabé. “Me acostumei com os nossos atores, que são grandes, mas a capacidade de invenção dos portugueses me deixou louca. Eles são de um profissionalismo extraordinário e, ao mesmo tempo, respondem aos estímulos e embarcam na viagem da gente.” Sobre a dificuldade para concretizar o filme, resume – “Precisei me reinventar.” Mas acrescenta: “O filme tem aquela minha natureza que você sabe”.

Desde Getúlio, com seu subtítulo, Trabalhadores do Brasil, Ana Carolina tem feito filmes para entender o mundo e a si própria. A trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa, entre 1977 e 87, discute a mulher e a família na sociedade sob o jugo da ditadura militar. A psicanálise sempre foi uma ferramenta integrada à sua pesquisa de linguagem. Com Amélia e O Boca do Inferno (Gregório de Mattos), sem abrir mão do discurso essencial de sua obra, ela o ampliou. Amélia aborda as relações entre colonizadores e colonizados. Gregório, O Boca do Inferno, sobre o poeta, leva a contestação e a provocação ao limite. A própria presença do poeta Waly Salomão no papel realçava a transgressão. O trágico é que O Boca do Inferno é de 2002 e Salomão morreu no ano seguinte.

Tendo chegado tão longe, Ana Carolina resolveu voltar ao princípio. E o Brasil começa com a oficialização da posse, quando Pedro Álvares Cabral faz rezar a primeira missa, que inscreve a terra, recém-descoberta, na tradição ocidental cristã. Essa integração carrega uma conotação cultural e outra econômica. Vai criar uma dependência – do índio, da terra ocupada. O quadro de Victor Meirelles chama-se A Primeira Missa no Brasil e foi pintado em 1860, mais de três séculos depois do evento real. A par de sua qualidade (perfeição?) técnica e estética, comporta uma riqueza muito grande de símbolos. A cruz domina a composição, situando-se ao centro do quadro. Os portugueses, que chegam pelo mar, ocupam a direita. São os conquistadores. Os índios ficam à esquerda, são os conquistados. Não são reverentes, mas sua postura sugere um tanto de curiosidade e outro de aceitação. É uma coisa assim, “meio Mário de Andrade”, define a diretora, referindo-se ao escritor modernista.

Quase 100 anos depois, em 1948, Cândido Portinari criou a sua versão da Primeira Missa. Ela difere radicalmente da de Victor Meirelles, mas ambas adotam o partido da desvalorização da cultura indígena, que Meirelles suaviza (ou atenua) e Portinari radicaliza. No fundo, o que as telas, e a de Victor Meirelles, a que mais interessa a Ana Carolina, propõem é uma reflexão sobre o próprio conceito de nação, e isso tem estado na obra recente da diretora – na obra dela como um todo. Ela só lamenta que, ao se reinventar, e reinventar seu filme – o roteiro foi todo modificado –, terminou tendo de adequar, ao dinheiro que tinha, uma reflexão que era, como define, ‘mais corpulenta’.

Flerte com o mundo da música

Quando Ana Carolina elogia os atores portugueses de seu novo filme, ela não subestima o que os brasileiros lhe trazem. A grande Fernanda Montenegro é sempre um assombro, mas o que dizer de certas presenças que podem parecer insólitas em A Primeira Missa? Ana Carolina, que já integrou o poeta e músico Waly Salomão ao elenco de O Boca do Inferno, agora recorre a Arrigo Barnabé e Rita Lee.

Vale lembrar que Waly Salomão integrou o movimento tropicalista – na poesia e na música. Rita Lee, então, nem se fala. Com os Mutantes, ele já era imortal em Domingo no Parque, de Gilberto Gil. Arrigo obteve reconhecimento de público de cara, logo no primeiro disco. Clara Crocodilo, de 1980, foi recebido pela imprensa, na época, como a maior novidade na música brasileira desde a Tropicália.

Seis anos mais tarde, Arrigo Barnabé interpretou e coescreveu (com o diretor Chico Botelho) Cidade Oculta. O filme de 1986 pertence à tendência chamada de néon realismo, quando o cinema brasileiro flertou com a pós-modernidade. Um marginal, o Anjo, volta ao mundo depois de sete anos de cadeia. E cai nos braços de Shirley. Barnabé fez a trilha, claro, e a Shirley de Carla Camurati fez furor por sua voltagem erótica, com aquela roupa sadomasô de couro preto.

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