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Diretor e DJ Don Letts chega a São Paulo para o festival In-Edit Brasil

Letts, um arquivo ambulante de histórias do rock, conversou com o 'Estado'

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

04 de junho de 2012 | 13h52

Quando se trata de punk rock, Don Letts é o cara. O diretor e DJ, que chega a São Paulo para o festival In-Edit Brasil esta semana, viveu e filmou a ascensão do punk, influenciou nomes de peso na cena com suas discotecagens de reggae e foi amigo de Bob Marley. Seja em seu clássico Punk Rock Movie, ou em títulos recentes como The Clash: Westway To The World e Punk: Attitude, todos em cartaz durante esta semana na mostra de documentários musicais, a efervescência do movimento é retratada com o mesmo vigor da música. Letts, um arquivo ambulante de histórias do rock, conversou com o Estado por telefone.

Você discotecava reggae no famoso Roxy durante a eclosão do punk. Como foi que os punks se identificaram com o som?

Já havia uma espécie de tradição no Reino Unido, em que jovens brancos de classe média ouviam música negra. Antes do punk, isso era basicamente r&b e Motown. Mas era música de uma cultura distante. Os Beatles e os Stones ouviam o r&b que vinha dos Estados Unidos. Quando surgiu o movimento punk, uma população afro-caribenha já havia se estabelecido no Reino Unido, e essa geração cresceu junto com ela. Era quase como uma segunda língua: os Sex Pistols e o Clash ouviam o reggae que se tocava na casa do vizinho. Mas, além do apelo musical, da força dos graves da música jamaicana, eles também se identificavam com a atitude rebelde da música.

Curioso que uma cultura aparentemente distante tivesse, ao mesmo tempo, tantas semelhanças...

Na Jamaica, este tipo de música politizada surgiu no final dos anos 60. Até então, eles tocavam ska, que era a versão deles de r&b. Isso progrediu e virou reggae depois que a ilha se tornou independente. O ska era muito mais otimista. Refletia a esperança de um país que acreditava que as coisas mudariam, que cada um receberia o que merecia com a independência. Depois de 62, isto não aconteceu, e a música ficou muito mais lenta, politizada, militante. Os punks se identificaram com a pegada antiestablishment. Havia um foco de reportagem nas letras. Os títulos das músicas eram, por exemplo, Money in My Pocket, Chant Down Babylon ou I Need a Roof Over My Head. Eram temas que falavam à juventude punk.

Você foi próximo de Bob Marley na época em que ele morou em Londres, E já chegou a dizer que ele teve uma aversão inicial ao punk. Como foi que ele se tornou receptivo?

A resposta simples é através da convivência. O que ele sabia - e o que a maioria das pessoas sabiam sobre o punk - era o que tinha lido nos tabloides. A mídia tinha uma visão errada do movimento. Para as massas, era uma coisa niilista. Mas a verdade é que o punk era sobre otimismo, individualidade, voz ativa. O Bob morou aqui por um ano depois que foi vítima de um atentado na Jamaica. O punk estava no ar. Você teria de ser cego e surdo para não captá-lo.

E nessa época você estava fazendo o seu primeiro filme, o Punk Rock Movie. Como surgiu a ideia?

O punk explodia em volta de todos nós. Era muita energia. Mas era uma energia que nos dava vontade de participar, não dava para ficar parado apenas assistindo ao que acontecia. Havia a ideia do ‘do it yourself’ (faça você mesmo). Enquanto os meus amigos brancos formavam bandas, eu decidi fazer filmes. Mas era difícil. Não era algo que um jovem negro podia fazer nos anos 70. Então peguei uma super 8 e comecei a filmar bandas que achava interessantes. Não muito depois, peguei uma cópia da revista NME e li uma nota: ‘Don Letts está fazendo um filme sobre o punk.’ Aí pensei: ‘Que boa ideia. É isso mesmo que vou fazer.’ (risos)

Você acha possível que um movimento com a força e foco social do punk, ou do hip hop dos anos 80, aconteça hoje em dia?

Acabo de fazer um documentário sobre contracultura, que analisa a progressão do underground no Reino Unido desde os anos 50. Há uma linhagem de movimentos: teddy boys, mods, skin heads, punks, até o início do britpop. Mas, no final do século 20, esses movimentos desaparecem. Não há mais nichos identificáveis de contracultura. Falo do Reino Unido mas isso se aplica ao resto do mundo. Com a ascensão da internet, o mistério do mundo parece ter sumido. Movimentos de contracultura se formavam porque faltava algo no mainstream e as pessoas procuravam isto no underground. Agora, não há nada que não possa ser encontrado. Não há nada abaixo do radar. A internet acomoda todos os gostos e tendências. É um fato. Temos que analisar os benefícios disso.

E quais são?

As pessoas têm se juntado por questões políticas e econômicas. Isso é bom. Talvez seja melhor que as pessoas não se juntem apenas por causa de moda ou música.

 

Como você aprimorou o foco como cineasta durante todos esses anos, fazendo filmes sobre artistas, como Sun Ra, George Clinton e Gil Scott-Heron?

O foco nunca mudou. Não faço documentários para enaltecer os artistas. Tudo o que crio precisa justificar seu lugar no mundo. Cresci ouvindo Marley, Dylan, Chuck D, Gil Scott-Heron. Hoje, a música ocidental parece ser a trilha sonora de um consumismo passivo. Este tipo de coisa já era ruim antigamente. Hoje, as pessoas não usam música para estabelecer um diálogo social. Não estou dizendo que você tem de subir no banquinho e pregar o dia todo. Mas, eventualmente, as pessoas terão de sair e enfrentar a realidade. O mundo está um pouco doido. No Reino Unido e nos EUA os jovens são muito conservadores. Na época do punk, a gente dizia que não confiávamos em ninguém com mais de 30 anos. Atualmente, digo que não confio em ninguém com menos.

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