Rodrigo Marroni
Rodrigo Marroni

Dingo Bells encara as mudanças vindas com os 30 anos de queixo erguido

Com 'Todo Mundo Vai Mudar', o segundo álbum, lançado nesta semana, a maturidade está em como encarar as mudanças, inevitáveis ou conscientes

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 06h00

Havia uma tentativa, ali, de entender o tempo que teimava em correr. Em Maravilhas da Vida Moderna, o primeiro disco do trio gaúcho Dingo Bells, lançado em 2015, a beirada dos temidos 30 anos de idade se deixava mostrar pelo tecido transparente e revelador do pop vestido por Rodrigo Fuschmann (bateria), Diogo Brochmann (guitarra) e Felipe Kautz (baixo) – os três ainda revezam-se ao microfone. A virada de década de vida chegou, passou, ficou para trás. Com Todo Mundo Vai Mudar, o segundo álbum, lançado nesta semana, a maturidade está em como encarar as mudanças, inevitáveis ou conscientes. 

Três anos, só, separam um disco do outro. Pouco? Muito? Para os Dingo Bells, foi o tempo para girar o País pela primeira vez, mesmo que a banda tenha pelo menos uns 16 anos de existência, criada ainda nos tempos de colégio. Para o trabalho de estreia, eles reuniram as canções criadas até ali. No segundo disco, partiram praticamente do zero. Única canção que não brotou no processo de criação de Todo Mundo Vai Mudar é Na Carona, penúltima do álbum, “mas, da versão original dela, restou somente uma estrofe”, conta Kautz

Foram também anos de definição, quando a banda enfim tomou conta da vida dos três rapazes – e do músico Fabricio Gambogi, que é quase um integrante do grupo, porque participa de todo o processo criativo e das turnês, só não tem as obrigações burocráticas. Além disso, dois deles se formaram – “em um processo que já estava demorando demais”, conta o baixista e vocalista –, separações vieram, novos relacionamentos nasceram. 

O tempo e a observação sobre a passagem dele estiveram sempre entre as inquietações criativas da Dingo Bells, mesmo que tantas vezes escondidos debaixo de outras questões mais escancaradas. A diferença, desta vez, é a forma como a banda olha a mudança nos olhos e, sem desviar o olhar, diz “Um dia todo mundo vai mudar, jogo as certezas no fogo e deixo queimar”, como diz o verso da música que dá nome ao segundo disco do grupo. É assim, sem medo, no maior estilo Muhammad Ali, de guarda baixa, que os Dingo Bells recebem as mudanças agora. 

Realizado com o auxílio do edital da Natura Musical, Todo Mundo Vai Mudar também nasceu de um processo de internação e novamente foi produzido por Marcelo Fruet. Para o primeiro álbum, eles rumaram a um sítio em Viamão (a 25 quilômetros a oeste de Porto Alegre). Desta vez, decidiram por se isolar dentro de Porto Alegre, mas distante o suficiente para não serem distraídos pelo agito. Juntos, os Dingo Bells compuseram cada uma das 10 canções do disco, em um processo realmente coletivo, de escrita a oito mãos (os três integrantes e de Fabricio Gambogi). 

O pop transparente do grupo ganhou densidade aqui, encorpado por um desejo de se afundar no groove. Encontraram um ponto em comum entre o soul brasileiro, as inventividades de Caetano Veloso, passando por diferentes fases de David Bowie. Escondida na leveza de harmonias vocais “fora da caixinha” para os padrões nacionais, as questões mais sombrias dos Dingo Bells são amansadas.

As mudanças vieram, como sempre vêm, e são bem-vindas. “Como diz a última música do nosso disco”, afirma Kautz, ao falar de A Sua Sorte, “Ainda é cedo para não tentar”

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.