JF Diorio/ Estadão
JF Diorio/ Estadão

Diana Ross canta para 1,8 mil pessoas em São Paulo

Diva da black music se apresentou no Espaço das Américas, em jornada de soul, disco, funk e até de jazz

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

26 de junho de 2013 | 18h05

Em vez de decupar a sua arte, refiná-la, amadurecê-la, Diana Ross a pulverizou com excessos ao longo das últimas décadas. Ela parece sempre estar cantando aquelas canções adocicadas da Disney, e não clássicos do R&B e da soul music. Parece estar sempre vestida para um baile do filme ... E o Vento Levou, e não para um tour por um período de ouro da black music.

Quando ela cantou Don’t Explain, canção de extremada dor e abandono feminino de Billie Holiday, parecia que estava cantando numa loja de doces para uma festa de escoteiros, e a música ficou despida de todo o seu sentido. Foi assim, nesse ambiente cafona e reducionista, que Diana Ross reencontrou 1,8 mil fãs em São Paulo, na noite de terça, no Espaço das Américas, na Barra Funda.

Mas estamos falando de Diana Ross, uma das heroínas do pop, a mulher que transmutou uma herança dos girls groups dos anos 1960 em eletricidade e vibração, tensão moderna. Por isso, qualquer condescendência com a diva pode ser perdoada – e mesmo alguma dose de futilidade, exibidas ao finalzinho, antes do bis, com I Will Survive, cover de Gloria Gaynor que levantou o público e o tirou das cadeiras definitivamente.

Foi uma noite no mínimo generosa. Diana abriu com I’m Coming Out, single da Motown que ela lançou em 1980, composta pelos gênios do pop Nile Rodgers e Bernard Edwards. A música, um coquetel funk turbinado com metais e baixo, foi um sucesso absurdo em sua época – Rodgers e Edwards a compuseram como um tributo à comunidade gay, e a ideia veio após terem visto três drag queens vestidas como Diana Ross em um clube de Nova York chamado GG Barnum Room.

Ontem, Diana Ross tinha atrás de si uma banda com 8 músicos (bateria, baixo, guitarra, baixo e quatro metais), além de três backing vocals. Sua voz parece ainda de garotinha, está em plena forma – embora fique claro que ela a poupa o tempo todo, mostrando raras vezes o limite de sua extensão. O timing de seu grupo é de cassino: embora preciso e competente, não tem maiores voos individuais. Seus solos funcionam como "ponte" para que Diana retorne às coxias, troque de roupa e reapareça com outro vestido que lembra um bolo de aniversário.

Para não dar margem a reclamações, ela cantou 6 canções de seu repertório com um dos maiores grupos vocais da história, The Supremes: My World Is Empty Without You, Where Did Our Love Go, Baby Love, Stop! In the Name of Love, You Can’t Hurry Love e Love Child.

Ela trocou de roupa cinco vezes até o bis. Mãe de 5 filhos, 69 anos, surpreende sua forma estupenda, a agilidade, o sorriso permanente. Sua jovialidade em Stop! In the Name of Love continua inspirando até suas antigas seguidoras, como Wanderléa, que estava na plateia (e que fazia coreografia idêntica à de Stop! In the name of Love na Jovem Guarda, com as mãozinhas para a frente como guarda de trânsito, cantando Pare o Casamento).

Os melhores momentos foram nos clássicos. Ain’t no Mountain High Enough (composição de 1966 de Nickolas Ashford e Valerie Simpson) foi uma aula de R&B. Pontuada de elementos gospel no coro de apoio, uma melancolia festiva que vira euforia, uma vibe messiânica que explode em festa, é um passaporte para a pista. Em Ease on Down the Road, ela lembrou discretamente seu dueto com Michael Jackson para o filme musical de 1978, O Mágico de Oz (que teve a luxuosa produção de Quincy Jones).

Há um lote de baladas que parece fazer pouco sentido para a maioria das pessoas hoje em dia, como Do You Know Where You’re Going To (tema do filme Mahogany, de 1975). Mas foi um hit supremo nas garagens dos anos 1970, nos bailinhos, e torna-se aquele momento em que os sabiás idosos da plateia ajeitam a cabeça no ombro da patroa.

Diana Ross domina o tal trânsito desimpedido entre os gêneros. Difícil escapar da sua pulsão colorida de disco music quando ela canta Upside Down (1980), música que mostrou o ápice de um gênero (o pot-pourri dessa seção musical tem ainda The Boss, Take me Higher, Love Hangover e outras). O Espaço das Américas ainda inibia o público nas mesas de sair para dançar, mas isso não duraria muito.

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