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Dez anos sem a voz do ‘rouxinol do Brasil’, Bidu Sayão

Soprano reaparece em cena do filme Milk – A Voz da Igualdade; em gravações, seu legado está bem preservado

João Luiz Sampaio, de O Estado de S.Paulo,

12 de março de 2009 | 21h15

É bem possível que a referência tenha passado batida na maior parte do público brasileiro mas, em Milk – A Voz da Igualdade, o personagem de Sean Penn comenta a certa altura a experiência única de, na noite anterior, ter assistido em São Francisco a uma récita de Tosca ao lado de uma grande soprano. Seu nome? Balduína de Oliveira Sayão, ou simplesmente Bidu Sayão, grande estrela do canto lírico brasileiro, durante mais de uma década soprano principal do estelar Metropolitan Opera House de Nova York, que morreu há dez anos, em uma clínica do Maine, onde se recuperava de uma pneumonia.

 

linkOuça trechos da obra de Bidu Sayão, com comentários de João Luiz Sampaio especial  

Para os fãs de ópera, claro, a citação soou como homenagem, exaltada em blogs e sites especializados. Um equívoco de tradução, no entanto, dá margem à interpretação de que Bidu havia sido a estrela daquela Tosca dos anos 70. Não foi – primeiro porque abandonou os palcos no fim dos anos 50 e, segundo, porque jamais cantou o papel, que exige voz pesada, dramática, oposto daquilo que fez dela ídolo em sua época e na imaginação de fãs de gerações seguintes. E lhe deu o apelido de “rouxinol do Brasil”. Bidu tinha um timbre leve, doce, encantador. Seus detratores, em especial no Brasil, diziam que sua voz era “pequena demais”. A reposta viria pela pena do crítico americano George Movshon. “Ninguém nunca teve problema para ouvi-la. Ela sabe projetar muito bem seu instrumento puro e de excepcional clareza.”

Seus grandes papéis foram as jovens inocentes e apaixonadas, Gilda, Violetta, Manon, “camareirinhas infelizes, sofredoras, meninotas e frágeis”, como ela descreveria em uma entrevista dos anos 70. Mas a personalidade forte, fora dos palcos, não combinava, uma vez em cena, com o tipo de voz de Bidu. A dramática Tosca era um de seus sonhos. Mas sabia que não o realizaria. Ouça, no entanto, a malícia com que ela interpreta Susanna, nas Bodas de Fígaro, e vai ficar claro que de algum modo ela conseguiu redefinir os papéis que resolvia encarar.

Sua relação com o Brasil foi conturbada. Após estrear em Nova York, esteve no Rio para um Pelleas e Melisande, de Debussy. Foi vaiada – e hoje se sabe que a desaprovação foi arquitetada pelos fãs da meio-soprano Gabriela Besanzoni Lage, estrela do Municipal da época. A ópera lembra às vezes as apaixonadas torcidas futebolísticas. Mas, enfim, essa é outra história. Fato é que, mesmo sem cantar muito por aqui, jamais deixou de se considerar uma “cantora brasileira”. Em 1938, recebeu a oferta do presidente Roosevelt, em plena Casa Branca, da cidadania americana. Recusou. Seus últimos anos foram marcados pela morte do segundo marido e por um incêndio, que destruiu sua casa (após reconstruída, foi assaltada). Homenageada pela Beija-Flor no carnaval de 1995, voltou pela última vez ao Brasil para participar do desfile.

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