Dez anos depois, o mito de Kurt Cobain resiste

Um único tiro de revólver calibre 38 nunca havia sido tão devastador. A mesma força que teve para perfurar o crânio do jovem de espírito inquieto que acionou o gatilho foi suficiente para desequilibrar mais de dez milhões de cabeças pelo mundo. A história de Kurt Donald Cobain não teve fim com o suicídio da manhã de 5 de abril de 1994. Os dez anos seguintes serviriam para que, baixada a poeira que a única revolução do rock-and-roll levantou nos anos 90, se instalasse a condição de mito. O único tiro de Cobain acertou a cabeça e o pé. Na cabeça, o matou por não suportar a idéia de se tornar um dos roqueiros embrulhados-para-presente que combatia no início da carreira. No pé, o fez imortal exatamente como o roqueiro embrulhado-para-presente de uma rebeldia juvenil de lucros.O Cobain vivo não se deu bem no cargo de mito porque mitos não vivem no underground. Eles vendem milhões de discos, são patrulhados por revistas, não podem cheirar cocaína em público, não devem quebrar guitarra na cabeça das pessoas e têm de estar dispostos a aparecer dia após dia para serem consumidos pelas massas. Era regra demais para alguém que propunha a derrubada de todas elas e que já vinha de um sério histórico de garoto "maníaco-depressivo com fortes tendências suicidas" que se concentrava para escrever parágrafos como "Deus, me ajude, me ajude por favor. Eu quero ser aceito. Eu só preciso de uma turma, um público, uma razão para sorrir. Não vou sufocá-los. Visto qualquer tipo de roupa que vocês quiserem! Estou muito cansado de chorar e sonhar. Estou tão sozinho. Não tem ninguém aí? Por favor, se tem alguém, me ajude."O Cobain morto deu seqüência ao ciclone que o vivo começou a formar em 1987, quando se juntou ao amigo Krist Novoselic para colocar o trem do Nirvana nos trilhos. Bleach, o primeiro disco do grupo bancado por justos US$ 606,17 saiu em junho de 1989 para vender consideráveis 35 mil cópias e virar peça de colecionador. Nevermind, a obra prima da banda, estaria bem paga se no ano de seu lançamento, 1991, vendesse 100 mil cópias. Vendeu 10 milhões.No início dos anos 90 havia duas rodas que giravam em direções opostas. Uma levava o Nirvana ao topo e o reconhecia como a rachadura que o mundo do rock-and-roll precisava provocar para isolar bandas cheias de pose e vazias de idéias como Bon Jovi, Poison e Skid Row. Outra afundava Cobain na escuridão das drogas e da anormalidade mental sempre que o roqueiro via seu rosto reproduzido em larga escala para vender camisetas, pôsteres, chaveiros. No Rock in Rio de 93, ele se masturba diante das câmeras. No Hollywood Rock, dá uma guitarrada na cabeça de um segurança.Uma terceira via, a do coração, era para ser a salvação de Cobain, mas tornou-se seu martírio. Courtney Love, com quem teve um filho, seria a mulher ideal - vocalista de uma banda de rock, subversiva, atraente. O tempo passou e a "Yoko Ono do Nirvana" acabou se revelando por vezes maquiavélica. No controverso documentário Kurt & Courtney, do inglês Nick Broomfield, o próprio pai da roqueira traça um perfil sob um ângulo impiedoso da filha: "Courtney sempre foi uma oportunista. Casou com Kurt Cobain, tirou o dinheiro dele, ficou famosa e agora anda com a elite de Hollywood." O filme deixa claro que Kurt Cobain também não foi nenhum anjo.A idolatria ao roqueiro está ligada, mais do que à música, à atitude. O homem que perdeu o controle da própria imagem e que só queria virar ícone de quem entendesse sua mensagem não precisaria dar um tiro na cabeça. Morreria de enfarte se lesse a oração que um fã brasileiro fez em sua homenagem e disponibilizou na Internet: "Grunge nosso que está em Seattle, santificado seja o vosso som. Venha a nós o vosso reino, aqui ou em qualquer lugar. O solo nosso de cada show nos ensurdeça hoje e detonai os pagodeiros assim como nós detonamos o Backstreet Boys e todos os boys. Não escutai aquela música eletrônica e nos livrai do maldito axé, amém."

Agencia Estado,

05 de abril de 2004 | 09h38

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