Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

'Deus Negro' recontado

Em rara entrevista, Toni Tornado lembra histórico de resistência durante a ditadura

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2013 | 02h19

Aviãozinho do tráfico e cafetão no Harlem, colega de exército de Silvio Santos, lavador de carros, engraxate, motorista de Carlos Imperial. Uma vida parecia pouca para Toni Tornado antes mesmo que ele se tornasse cantor, antes que, sem querer, metesse medo nos militares no período do regime de exceção. Tornado parece ter estado em todos os lugares ao mesmo tempo entre o final dos anos 50 e o início dos 80. Sua história transborda a biografia de um artista para invadir um período inteiro, ainda mal contado nos livros de época.

De jeito manso, careta de drogas e bebidas desde sempre, Tornado está na estrada ainda aos 82 anos, devidamente protegido pelo filho Lincoln Tornado, que hoje canta com ele. Hoje à noite, a partir das 18h, e amanhã, às 14h, a Praça das Artes, no Centro da Cidade recebe Toni e outros pesos pesados de uma cena conhecida como black music brasileira para shows que celebram o Dia Nacional da Consciência Negra. Toni, Banda Black Rio, Hyldon, Lady Zu, Gerson King Combo e outros artistas se reúnem em um momento raro no evento é assinado pela Boia Fria produções.

Toni Tornado falou à reportagem do Estado na manhã de ontem, em um hotel no Largo Santa Ifigênia, em São Paulo. Anda com certa dificuldade por um problema na perna direita e diz estar cada vez mais recluso por ter entraves históricos com a imprensa, que o crucificou em momentos difíceis de sua vida. Sem querer, Toni foi visto como um ativista perigoso pela ditadura, que o levou preso dezenas de vezes para fazê-lo dançar diante do delegado por 12 horas seguidas BR-3, o sucesso que o lançou em 1970, quando venceu com ele o 5.º Festival Internacional da Canção.

Antes de entrar na mira dos militares, sendo fichado e vigiado por seus gestos semelhantes aos feitos pelos integrantes dos Black Panters dos EUA (Panteras Negras), não agiu como santo. Em uma temporada nos EUA, envolveu-se com gente da pesada, traficantes do Harlem que o usavam em negociações internas. E chegou a tomar conta de 20 mulheres pelas ruas do bairro periférico de Nova York. Um chefão no Harlem? "Não, eu era um cafetão mesmo." Toni tem hoje uma visão bem particular sobre as questões raciais no Brasil. "Diferente dos EUA, o problema aqui são os mulatos que se declaram brancos. Esses são os mais perigosos."

Autorizada ou não, biografia alguma narraria melhor a história de Toni Tornado do que o próprio. Às vésperas de se apresentar na Praça das Artes, em São Paulo, pelo Dia da Consciência Negra, Toni arriscou-se diante de um jornalista, algo que faz cada vez menos, para esclarecer, reparar e contar episódios de uma resistência racial que a ditadura tentou eliminar.

É impressão ou os militares se preocuparam com você mais do que deveriam?

O negócio deles era psicológico. Quando me prendiam por eu cantar letras de afirmação ou fazer o gesto dos Panteras Negras (o braço estendido com a mão fechada), diziam: "Ah, você é o cara da BR-3? E então, como é que você faz aquele giro mesmo? Dança aí, dança." E nesse dança eu começava a dançar às 10h30 e só parava às 22h30. Era para esculachar mesmo. Cantei muito BR-3 assim.

E você ainda canta esta música numa boa?

Canto, mas isso sempre me vem à lembrança. Eles foram de uma crueldade muito grande.

Por que está ficando difícil entrevistar você?

Eu tenho minhas razões para ser arredio com a imprensa. Um dia, fui a um festival de verão em Vitória do Espírito Santo. O Erasmo ia cantar mas não pode, e então me chamaram. Para ele, era um palco pequeno, porque o Erasmo, mesmo com todo aquele tamanho, só mexia o olho. Então eu me empolguei e comecei a dançar. Foi o meu grande erro. Dei uma rodada, saí voando lá de cima e despenquei sobre uma mulher. A dona teve uma fissura na terceira vértebra, que depois eu ia descobrir que era um torcicolo. Mas, na época, o advogado dela pediu para engessarem a mulher. E aí veio a imprensa: "Tornado atropela mulher na BR-3".

Antes disso, sua passagem pelos EUA havia sido barra pesada...

Eu morei na Rua 142 do Harlem e tive que me inscrever no tráfico de drogas. Era uma espécie de aviãozinho dos caras. Eu era careta, precisando de trabalho, de sobreviver. Fui trabalhar como lavador de carro também, que era para ter o 'espelho' para a imigração, mas eu tinhas as mulheres na rua.

Mulheres? Você virou um chefão no Harlem?

É, mais conhecido como cafetão mesmo. Era minha sobrevivência. Eu cuidava de umas 20 mulheres que queriam proteção. Tinha cliente que não queria pagar e eu chegava junto. Comprei um Cadillac, a vida melhorou. Quando os policiais chegavam, eu trocava de roupa e ia lavar carros.

E como pegaram você?

Foi alguém que caguetou. O bairro ficou mal no dia da minha prisão. Um policial me chamou: "Seu Antonio Vieira Gomes!" Eu não ouvia aquele nome havia dez anos. Pensei: "É fria." O cara disse, "vai andando, não deixa ninguém notar." E eu fui, mas todo mundo percebeu porque eu nunca andava a pé ali. Me levaram para o centro de Nova York e disseram: "São 10 h. Às 12 h, você vai para o aeroporto." Eu vim no avião do malote, larguei tudo lá.

E o que fez quando retornou?

Eu fui um dos comandantes do movimento chamado Black Rio, no Rio de Janeiro. Ele não tinha conotação racista, juro por Deus que não. Era só uma conscientização de massa, do poder negro. Mas a música que fazíamos tinha uma maior concentração de negros mesmo. Já era James Brown, Wilson Pickett, Rufus Thomas. Iam mais negros, mas havia branco também. E a intenção era esta: já que eles nos barram nos clubes brancos, vamos fazer uma sociedade nossa, vamos fazer uma aglutinação nossa, mas da qual eles também poderiam participar. Eram clubes em Madureira, Nova Iguaçu, Queimados. Foi um grande movimento porque botávamos 10 mil pessoas para dançar.

Não havia protesto político?

Sim, nos intervalos. O som parava e a gente injetava. Era um discurso duro: "Olha, esse cabelo, cara, não é só estética, não. Isso aqui é afirmação. Nosso cabelo é melhor do que o deles, e é por isso que enrola, é porque é muito fino." E nisso os olheiros todos lá, só fotografando. Ficou nesse movimento Black Rio uns 5 ou 6 anos. Aí foi só juntar os cabeças.

Tim Maia estava nessa?

Sebastião? Sebastião eu conheci no Harlem, estava preso. As meninas falaram, olha, tem um brasileiro preso aqui. Fui lá, me apresentei, e ele disse: "Pois é, cara, me meti numa fria." E eu: "Deixa que eu dou um jeito." Fui lá, me apresentei aos policiais. Lá você pagava uma propina, mas não era assim descarada. Havia uma lista que você tinha de entrar para ajudar os policiais nas melhorias.

Por que você incomodou tanto quando voltou dos EUA?

Os militares pensavam: esse cara está com experiência internacional, esse cara viveu lá. Eles levantaram tudo da minha vida. "O que o senhor quer? Revolucionar esse País?", me perguntavam. E eu: "Não, não é nada disso." Eles não me bateram porque eu já estava classificado para o Festival Internacional da Canção, de 1970. Aí veio o casamento com a (atriz) Arlete Salles e a coisa ficou mais feia.

Por quê?

Ninguém estava acostumado com aquilo. Hoje, toda loira tem o seu negão, mas naquela época, não.

A Bossa Nova, anterior a vocês, já havia sido branca. A Jovem Guarda também. Como ficava o seu pessoal nessa?

O pessoal do soul era marginalizado, éramos vistos como os vendidos aos norte-americanos. Só tínhamos nós mesmos com essa grande aglutinação. Isso incomodou muito, nossa como incomodou. Wilson Simonal pagou caro, Erlon Chaves pagou caro também.

E não poderia ter acontecido o mesmo com você, terem acabado com sua carreira?

Mas, de certa forma, acabaram. Depois dessas prisões todas, me deram uns cala boca que foi danado. E era uma coisa dantesca. Agentes da censura entravam nas lojas e quebravam os meus discos. Quebravam os meus discos nas lojas! E eu ainda fui e gravei uma música chamada Deus Negro, aí danou-se.

Você não tinha a intenção de provocar?

Eu não tinha essa intenção, mas eu sabia que provocava porque volta e meia eu era travado. Fui preso logo depois de cantar Deus Negro em um programa de TV . Mais uma vez, fui para a Praça 15, onde ficava o Dops.

Isso tem a ver com o fato de ter migrado para a televisão?

O que me levou a ser ator foi isso, mas eu não tenho ódio. Eu tiro isso de letra, vi isso de perto. Aqui no Brasil é preconceito, não é racismo.

E qual a diferença?

Nos EUA, eles não querem igualdade de raça, eles querem superioridade de raça. Aqui, onde não entra o negro duro também não entra o branco duro. É diferente. Lá, às vezes, o negrão tem grana e não consegue entrar mesmo assim.

Estamos em 2013. Nada mudou com relação a isso?

Temos que acabar com um mito. O problema do negro não está entre brancos e negros, mas entre pretos e mulatos.

Como assim?

Mulato, na hora de se declarar em pesquisas, ele escolhe a opção 'branco', não escolhe 'preto'. Ele não quer ser preto. Esse é o problema. Aquele do meio é que é o perigo, porque socialmente ele acha que vai ficar melhor como branco. Em hora nenhuma passa por sua cabeça que se for negrão, assumir-se assim, vai ser melhor. Mas não, ele prefere ser branco. E veja, sem nenhum julgamento, ser negro é ótimo, dura mais, o dente demora a cair e não fica careca.

MESTRES DA SOUL MUSIC

Praça da Artes. Avenida

São João, 281, Centro, 3311-0194.

3ª, a partir das 18 h; 4ª, a partir das 14 h. Grátis.

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