Detonator lança disco nacionalista em que exalta o populismo

Ex-vocalista do Massacration faz rock 'n' roll com humor

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2014 | 03h00

Mesmo os deuses do rock morrem. E, quando perecem, nascem deles novas lendas - quase como aqueles monstrinhos que saem do ventre das pessoas no filme Alien.

Com a desaparição da banda Massacration, o seu vocalista, Detonator, está iniciando carreira solo com o disco Metal Folclore - The Zoeira Never Ends. Sem gravadora, sem loja, à própria custa, o negócio já é um sucesso: vendeu 1,7 mil cópias em dois meses. Também se mantém entre os mais vendidos do serviço de música digital Spotify. Detalhe: Detonator é um personagem de humor criado há 12 anos pelo falsete mais escrachado do comediante Bruno Sutter, do grupo Hermes & Renato. 

É um disco de zoeira (aparentemente, feito no embalo da Copa do Mundo de Futebol) que, paradoxalmente, é bem tocado e bem feito pela banda thrash As Musas do Metal (Paulitchas Carregosa, guitarra; Isa Nielsen, guitarra; Juliana Farias, baixo; e Iza Molinari, bateria). É piada, mas é de alto nível. Metal Folclore tira sarro dos extremistas do nacionalismo (as músicas têm nomes como Curupira, Boitatá, Mula Sem Cabeça, Boto, Saci Pererê, etc. e tal).

Detonator, também conhecido como Filhinho do Deus Metal, não ficou famoso pela modéstia - para ele, isso é coisa dos seres terrenos. Ele credita esse princípio do sucesso de sua estreia solo a uma única pessoa: “Atribuo a mim, obviamente. As gravadoras não quiseram o disco porque sabiam que eu poderia desmascará-las. Elas estão enganando a população por mais de 70 anos dizendo que os discos são álbuns. Isso é ridículo. Me mostrem onde estão as figurinhas. Cadê as figurinhas nos discos do Roberto Carlos? Se não tem figurinhas, não é álbum”, vocifera.

Sua ambição não conhece limites. Com Metal Folclore, ele quer construir nada menos que um império. Ele inicia em novembro a excursão Rumo ao Topinho Tour 2014/2015. Mas, em troca, o que o seu metal nacionalista pode dar ao País? Ele não titubeia na resposta: “Pode dar a mesma coisa que Getúlio Vargas deu ao Brasil: o populismo e a Petrobrás. E esse é apenas o começo. Meu objetivo é descobrir e explorar aqui no Brasil a região do Pré-Metal, que fica a 5 km do Pré-Sal e criar a Metalbras. O lema será ‘O metal é nosso!’”.

Ele convocou o ator Alexandre Frota para narrar a epopeia que se desenrola entre uma faixa e outra do seu novo disco. Frota já fez filmes pornô e declarou recentemente que havia namorado o deputado Marco Feliciano (foi um blefe), mas Detonator não quer confusão. “Não sabia que o Frota tinha declarado isso. Talvez, de uma certa forma, agora faça sentido quando ele disse pra mim assim que ele chegou: ‘Você tá forte... Você tá malhando, Detonator?’”.

Além dos personagens do folclore tradicional, surge no disco um personagem inédito, o Saquito - que parece uma resposta ao mascote da Copa do Mundo do Brasil, o Fuleco. “Na verdade, o Saquito é pai do Fuleco. A mãe é uma jovem senhora chamada Bucetilde”, debocha o cantor.

O disco barbariza no escracho, em versos como este: “Antes eu era como um carpinteiro/vivia cercado de paus/agora eu sou levado da breca/gosto de perereca”. Detonator, que já chegou a se declarar um vocalista castrato (comparou-se a Rob Halford e André Matos), explica a conversão hétero da letra. “Sou castrato, porém tenho uma prótese de titânio, um dos metais mais duros do mundo.”

Bruno Sutter, o Detonator, tornou sua sátira do metal um negócio tão bem feito e divertido que até ídolos do gênero o prestigiavam no tempo em que manteve um talk-show muito inspirado na MTV, o Rocka Rolla. “Sim, aquilo acabou. Assim como a MTV”, vaticina. A cara de mau característica do Detonator, explica, não é o que parece. “Na verdade, sempre estou sorrindo nas fotos. O problema é que fiz um procedimento de botox muito malsucedido com um tal Dr. Rey e fiquei com esta cara de b...”

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