FOTO: WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Despedida de Nelson Freire teve flauta e violino

Músicos da orquestra do Theatro Municipal do Rio homenagearam o pianista; amiga lembra 'som maravilhoso’ da última vez em que o ouviu tocar

Marcio Dolzan, RIO

02 de novembro de 2021 | 14h10
Atualizado 02 de novembro de 2021 | 16h58

Nelson Freire, um dos maiores pianistas do mundo morto na segunda-feira, 1º, fez no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2018, sua última apresentação ao lado de uma orquestra. Foi para  lá, onde seu corpo foi velado nesta terça, 2, que familiares, amigos e fãs se dirigiram para as últimas homenagens ao artista. Elas incluíram uma apresentação de integrantes da orquestra do Municipal com violino e flauta, além de recordações sobre os últimos momentos do músico.

Amiga de infância e presidente do Instituto Dell'Arte, Myrian Dauelsberg esteve com Nelson Freire no domingo.

"Ele estava me esperando em pé na porta, o que me deixou espantada. Das últimas vezes que estive lá (na casa de Nelson), ele nem levantava da cama, muitas vezes nem o via", contou.

O músico estava sem esperança. Em 2019, Nelson fraturou um braço após sofrer uma queda, e então veio a pandemia. 

"Ele começou a falar que era horrível o que ele estava sentindo, que ele nunca mais ia poder tocar piano. Eu disse: 'É lógico que vai tocar, você não pode largar assim o piano, porque você tem um compromisso com seu público do mundo inteiro. Vamos lá para o piano que eu quero ouvir você'. Eu tinha certeza que ele não iria, mas ele foi!", disse.

Myrian lembrou com emoção a última vez em que viu amigo tocar.

"Eu sentei ao lado dele e ele começou a tocar Barcarolle, do Chopin, com um som maravilhoso", narrou. Depois disso, os dois combinaram que passariam o feriado desta terça-feira na casa dela, em Petrópolis. "Foi muito triste receber a notícia da morte dele."

Também amigo de longa data, o pianista Miguel Proença classificou Nelson Freire como "nosso maior pianista e maior intérprete de todos os tempos".

"Desde o início da carreira ele foi verdadeiro. Sempre falou a verdade. Ele mostrava se estava inspirado, se estava triste, ele tinha a verdade dentro dele. É isso que o público gosta de receber: através do som, a verdade", afirmou Proença. "Tínhamos uma amizade, uma intimidade muito gostosa. Sempre foi fiel. Tenho uma tristeza profunda, porque foram duas grandes perdas na minha vida. Eu perdi minha esposa, que morreu este ano depois de 53 anos de casados, e agora ele. Eu espero que minha esposa o esteja recebendo lá. Esse é meu consolo."

O velório de Nelson Freire foi aberto ao público e, após as homenagens, o corpo foi trasladado para sua terra natal, Boa Esperança, no interior de Minas Gerais, onde será sepultado no mausoléu da família.

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