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Descobrindo a bela obra de Peteris Vasks

Flautista Michael Faust lança um CD dedicado ao compositor letão, com regência do francês Patrick Gallois

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2014 | 02h08

A primeira vez que ouvi falar do compositor letão Peteris Vasks foi no extra de um concerto da violoncelista argentina Sol Gabetta ao lado da Orquestra de Câmara de Basel, quatro anos atrás. De repente, a transfiguração aconteceu quando Sol tocou uma peça solo desconhecida como bis, que depois anunciou como "dolcissimo" (de fato, a segunda parte de "Gramata Cellam").

Alguns poucos minutos de uma bela melodia que parecia improvisada - e o inesperado, quando Sol soltou sua voz de soprano e cantou em uníssono com o instrumento, embalando e embalada pelo cello. Iluminados sete minutos que deixaram o público em transe.

Que música era aquela, capaz de surpreender uma plateia já saciada de música convencionalmente bem tocada? É música tonal, mas nem por isso banal. Tem a chama do talento e fatura consistente do ponto de vista técnico.

Uma impressão que se confirma neste início de 2014, quando a Naxos lança um CD do flautista alemão Michael Faust dedicado a obras de Vasks.

Ele nasceu em 1946 em Aizpute, fez sua formação musical em Riga, capital da Letônia, onde estudou contrabaixo e composição. Sobreviveu como músico de orquestras locais até 1974, quando passou a se dedicar à composição. Graças a Gidon Kremer e músicos como Faust e Gabetta, seu nome circulou mais no circuito europeu a partir dos anos 90.

Na peça mais ambiciosa da gravação, o concerto para flauta, encomenda de Faust e por ele estreada em 2009, o solista é acompanhado pela Sinfonia Finlandia Jyvaskyla, regida por outro flautista famoso, o francês Patrick Gallois.

A estrutura é convencional: três movimentos, com um rápido emoldurado por dois adágios. Dois cantabiles e uma "Quasi una burlesca". O mote de Vasks é a relação do homem com a natureza.

É música que flui harmoniosa - e ultrapassa o status de satisfazer apenas aos ouvidos. Mas não reproduz a chama que me atraiu a Vasks em 2010. Isso acontece nas duas peças-solo: na sonata para flauta-solo, de 1992, Faust toca a flauta-padrão em dó no segundo movimento, mas a substitui pela flauta-alto em sol no primeiro e terceiro.

E em Ainava Ar Putniem (paisagem com pássaros), a respiração circular, as técnicas expandidas usadas com inteligência e uma luminosidade intensa fazem delas o centro artístico e razão de ser do CD.

Duas peças de caráter pedagógico com piano - uma ária pensativa e uma deliciosa dança giocosa - mostram seu lado mais divertido, cheio de graça e leveza.

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