FOTO: SUKITA
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Depois do Stooges, Iggy Pop volta com tudo e vem a São Paulo

Lenda do rock n' roll mundial volta ao Brasil para show único na cidade; em entrevista exclusiva ao 'Estado', ele comenta seu dia a dia, as lembranças do Brasil e a expectativa para o show

Entrevista com

Iggy Pop

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2015 | 05h00

São dez da manhã em Miami, a atual morada do ícone do rock Iggy Pop, e ele segue em direção à praia, de carro. Ele está em um “bom dia”, como diz, em entrevista exclusiva ao Estado, por telefone. “Há alguns anos, era difícil acreditar que eu estaria acordado cedo assim?”, diverte-se com o estigma de roqueiro desajuizado que foi deixado para trás. “Talvez. Mas, hoje, estou com os olhos bem abertos. Então, acho que sim.” 

Sim, Iggy Pop, padrinho daquilo que hoje se conhece como punk, vanguardista do rock, ícone fashion que incrivelmente se recusa a vestir uma camiseta, está feliz. “Esses são os dias que eu gosto”, diz ele, sobre a agenda do momento, que incluía apenas uma entrevista e algumas boas horas de sol à beira mar. “Gosto de chegar à praia às 11h”, conta, sem muita preocupação com a incidência dos raios solares na pele. “Se estou num bom dia, passo pelo menos uma hora ali. Fico com uma energia mais positiva. E então vou fazer o que precisa ser feito”. E um dia ruim? “Bom, daí estaria em Beverly Hills (na Califórnia), em alguma piscina.” 

O Senhor Pop, aos poucos, volta ao seu hábitat. Por mais que outras formas de arte estejam sempre presentes – ele, recentemente, participou de um longa ainda não lançado chamado Gutterdämmerung, conhecido como “o mais barulhento filme mudo da história” –, Iggy sentia falta da música. Foram 20 meses sem shows, até o fim de junho, quando iniciou uma nova turnê europeia bastante elogiada. Em uma semana, ele deixa a breve pausa em Miami para fazer uma incursão única pela América Latina. 

Iggy é a atração da nova edição do Popload Festival, realizado entre 16 e 17 deste mês. Encerra a primeira noite, às 0h30 – veja aqui a programação com os horários do festival, também em primeira mão pelo Estado. “Estou planejando uma turnê maior pela América Latina. Esse show é como se fosse um teste. Algo especial”, diz. 

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“Gosto da ideia de tocar de forma mais próxima das pessoas. Quero aproveitar isso antes que eu morra”, ri, por longos segundos. A ideia, conta o padrinho do punk, é voltar ao continente no próximo ano, mas a proximidade com os fãs desta apresentação da próxima semana, realizada na casa de shows Audio Club, o levará em uma máquina do tempo diretamente ao primeiro show realizado na cidade, em 1988, na já extinta casa de shows Projeto SP.

“Havia umas 700 pessoas”, lembra. Na Audio, serão 3 mil. “Mas lembro que o produtor era maluco e tinha um cachorro com sarna e desnutrido. Ele me colocou em um hotel horrível e falei: ‘Não vou ficar aqui’. E saí andando. Ele mandou um paparazzi atrás de mim”, diverte-se. 

Iggy tem ótimas lembranças do País. “Certa vez, estava caminhando no Leblon e vi dois garotos vindo até mim com um livro. Eles estavam lendo Mate-Me Por Favor (escrito por Larry McNeil e Gilliam McCain), e eles ficaram felizes em me ver. Mas aquele livro só falava porcarias de mim. Desejei que eles voltassem seguros para casa. O Leblon poderia ser perigoso naquela época.”

Em 2005, com o Stooges, banda com a qual ele definiu a ideia de um rock sujo, visceral e performático, passou por São Paulo e Rio. “Acho que, entre 2004 e 2007, tocamos na melhor forma possível.” Eles voltaram à capital paulista em 2009. 

O Stooges traz lembranças amargas para Iggy Pop. Scott Asheton, baterista da banda, morreu no ano passado – o irmão, Ron, havia morrido cinco anos antes –, e o músico se afastou dos palcos. “Aquele foi um ano ruim”, diz ele. “Mas, de certa forma, foi positivo. Eu senti muita falta de estar no palco, tocar com uma banda, mas foi algo necessário para mim. Fazer o que eu faço é muito intoxicante. E, às vezes, você precisa se desintoxicar. É como se fosse heroína, sexo, cocaína, álcool, qualquer coisa. Se você abusar, vai morrer. É preciso saber a hora de parar. Então, por mais que minha alma sentisse falta do palco, meu corpo precisava desse tempo.” 

“Sabe, eu tive bastante tempo para planejar essa volta”, conclui. É sob o comando do guitarrista britânico Kevin Armstrong que a “banda inglesa”, como Iggy a chama, virá ao Brasil. Ele tem um “projeto ultra secreto”, sobre o qual nada quis revelar na última visita ao País, em abril, em uma ação promocional durante o São Paulo Fashion Week. Na nova tentativa, meses depois, o segredo permanece. “Não posso dizer, mas é grande. Envolve músicas inéditas”. 

A entrevista, marcada para ter 20 minutos, durou 45. “Até eu chegar à praia e mandar você e o mundo para os infernos”, brincou ele. Iggy não esconde que não gosta de falar com jornalistas, como ele mesmo diz: “Marquei cedo para me livrar logo”, brincou – ou não. A contravenção talvez esteja tão intrínseca, contudo, que ele não consegue fugir desse ciclo criado para si. No mesmo papo, faz o tipo rockstar: “Faço o que me dá na telha”. E, surpreendentemente, também é humano. “Sabe, não sou diferente. Sei lavar louça. Faço isso para me manter com os pés no chão. Não sempre, mas faço.” Ele ri. Sob o sol de Miami, se despede simpático. “Gostei de falar com você de novo. Tenha um ótimo dia”. Para ele, este certamente será um dos bons.

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POPLOAD FESTIVAL 

Audio. Av. Francisco Matarazzo, 694, Barra Funda. Dias 16 e 17, a partir das 20h. R$ 320 (2º lote, por dia) ou R$ 520 (dois dias). 

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