Depois do dilúvio, música domina cenário em Santa Catarina

Pacata cidade de Jaraguá do Sul recomeça vida com clássicos no Festival de Música de Santa Catarina (Femusc)

Pedro Henrique França, de O Estado de S. Paulo,

06 de fevereiro de 2009 | 16h08

Os termômetros estão acima de 30º. Sozinho, em um canto de um dos três andares de um prédio em Jaraguá do Sul, o paraibano André Araujo, 22, ensaia notas ao violino sem sequer notar o repórter que o observa. Em um outro canto, as paulistanas Talita Martins, 24, e Angela Duarte, 20, ensaiam horas a fio uma obra de Carlos Salzedo. De frente para a parede, a australiana Amelia Murray-Iing, 21, sopra, concentrada, o instrumento. A cena se repete em outros cantos e salas do Centro Cultural da Sociedade de Cultura Artística. E, diante de um passado recente da cidade, é fácil lembrar da clássica cena de Titanic, em que os músicos tocam enquanto o navio naufraga.   Como se nada tivesse acontecido ao redor, cerca de 500 estudantes se entregaram exaustivamente à música clássica durante duas semanas no Festival de Música de Santa Catarina (Femusc), que termina domingo (7). Superando, assim, a tragédia que abateu sobre a pequena cidade catarinense, a 60km de Joinville, há pouco mais de dois meses. Ali, seus cerca de 160 mil habitantes viveram um fim de semana em novembro sob chuvas, que resultou na morte de 14 pessoas - 9 de uma mesma família. Tragédia que se alastrou sobre outras cidades da região e fez com que todas as regiões do país se desdobrassem em colaborar na recuperação do Estado.   Mas essa história é passado. Ainda que para qualquer habitante da região, o relato sobre aqueles três dias consecutivos de chuva venha na ponta da língua: "aquilo foi horrível". Agora, em Jaraguá do Sul, o que se respira desde 25 de janeiro é música. Na pequena cidade, que concentra fortes empresas industriais e é considerada uma das três mais importantes para a economia catarinense, acontece um importante evento de música clássica. Ali, durante todo o dia, das 9h às 18h, os alunos têm aulas com nomes como a baiana radicada na Alemanha, Fany Solter, o regente assistente da Orquestra Petrobras Sinfônica, Carlos Prazeres, e o violoncelista Antonio del Claro.   Em paralelo acontecem os concertos sociais, que culmina com o Grande Concerto à noite, em que alunos e professores se misturam. E não termina por aí. Logo após, geralmente se dirigem ao bar do próprio teatro ou à lanchonete Quick Dog para esticar a noite. "Em nenhum outro festival eu vi um clima de confraternização como aqui. Eu já fui em vários festivais, mas essa relação entre aluno e professor que existe aqui não há em nenhum outro lugar. É um trabalho árduo, porque você pega às vezes meninos que estão começando. Mas vale a pena", diz o maestro Prazeres. A veterana Fany Solter corrobora: "É impressionante ver que isso acontece aqui, com toda essa estrutura e condições para estudo e trabalho. Já viu esse teatro? É lindo...".   O evento tem caráter sócio-educativo. E por isso mesmo passou a ser chamado de festival-escola por seus organizadores. Justamente por isso, talvez, o Femusc não tem o seu devido reconhecimento. Afinal, o foco não é reunir grandes nomes do gênero para suntuosas apresentações, como o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que também tem seu braço educativo. Ainda que seu diretor artístico, o oboísta Alex Klein, discorde quando a relação é feita. "Nós temos aqui músicos, como o violinista Shmuel Ashkenasi, reconhecidos no mundo inteiro", diz, enrubescido. A verdade é que o Femusc abre espaço para todos - do nível básico ao profissional -, o que é um dos pontos altos para os estudantes, que veem no evento uma oportunidade rara, se comparada a outros festivais. Ali "ninguém é mais do que ninguém", diz Klein. O próprio diretor circula o dia todo pelo teatro, vestido de maneira sempre informal, e ele mesmo, muitas vezes, ajuda na montagem de palco, além de resolver grande parte de eventuais pepinos. "A minha realização é essa confraternização, quando vejo todo eles ali no Quick Dog".   O Femusc, que termina este domingo, está em sua quarta edição. E Klein já planeja, desde novembro passado, a programação do ano que vem. Explica-se: 2010 tem sabor especial, já que será a primeira data comemorativa do projeto, com 5 anos na ativa. Inaugurado por Klein em 2006, após ele abandonar o festival de Curitiba, devido à redução de verba proposta pelo prefeito Beto Richa (PSDB), acontece graças ao orçamento de R$ 1,3 milhão capitaneado pela prefeitura e governo do Estado em parceria com empresas fortes da indústria, como Weg e Duas Rodas Industrial. O diretor artístico afirma que o festival gera R$ 4 milhões. E lembrou que, por conta disso, mesmo com a tragédia das chuvas em novembro "nunca" se cogitou seu cancelamento. O que ganhou força diante da crise financeira. "Ver que deu tudo certo me deixa muito feliz. E estou seguro com relação a 2010".   Klein, que mora em Ohio, aproveita para lembrar que diante do que ele vê nos Estados Unidos a crise nem chegou por aqui. "Lá, sim, a coisa está feia. Para você ter uma ideia eu nem tenho passagem para voltar. Minha agente de turismo baixou as portas". O importante, diz Klein, é "empurrar os sonhos" dessa juventude. "Eles me dizem que querem ser músicos. O que eu vou falar para eles? Que eles façam medicina? Não, nós temos que ajudar". André, Talita, Angela, Amelia e outros 496 estudantes agradecem.   O repórter viajou a convite do festival

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