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Depois de polêmica com Putin, Metropolitan Opera House lança ‘Eugene Onegin’

Montagem gravada em Nova York envolveu questões políticas

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2015 | 21h30

A Metropolitan Opera House de Nova York decidiu inaugurar sua temporada 2013/2014 com uma nova montagem de Eugene Onegin, de Tchaikovsky. E o elenco estelar, encabeçado pela soprano Anna Netrebko e o maestro Valery Gergiev, parecia a garantia certeira de sucesso. Mas a produção acabou provocando enorme polêmica – graças ao governo russo. 

Pouco antes da estreia da montagem, o presidente Vladimir Putin promulgou um conjunto de leis banindo o que chamou de “propaganda” homossexual; e o ministro da Cultura russo, Vladimir Medinsky, resolveu banir referências à homossexualidade de Tchaikovsky em um filme sobre o compositor, que estava sendo produzido com dinheiro estatal.

Movimentos que lutam pela causa LGBT ficaram enfurecidos – e não por acaso. Tanto Netrebko quanto Gergiev haviam manifestado publicamente seu apoio à eleição de Putin e, no caso do maestro, o alinhamento se estendia a outras questões, como a defesa da intervenção de Moscou na Ucrânia. Passaram, então, a cobrar uma posição do Metropolitan sobre a questão, pedindo que a noite de estreia fosse dedicada aos cidadãos russos gays.

O Met precisou encarar um pesadelo de relações públicas. Colocou-se contra qualquer abuso aos direitos humanos, mas deixou claro que não acreditava ser papel de um teatro “lutar contra injustiças sociais”. “Deixamos que nossos artistas incorporem as suas crenças sociais e políticas em seus trabalhos, sobre o palco”, escreveu Peter Gelb, diretor do Met. Netrebko e Gergiev permaneceram em silêncio. E, na estreia, manifestantes ocuparam o Lincoln Center, enquanto, dentro do teatro, grupos gritavam contra Vladimir Putin e a legislação recém-aprovada.

Música e política devem se misturar? O que acontece fora do palco deve determinar o modo como entendemos a produção de um artista? São questões colocadas há tempos, sem que se chegue satisfatoriamente a uma resposta capaz de abarcar toda a problemática abordada. Mas, ainda que a posição – ou omissão política – de Netrebko e Gergiev possa provocar desconforto, parece claro que os dois são símbolos de uma geração que tem reinventado o repertório russo. E a montagem de Eugene Onegin, que agora é lançada em DVD e Blu-Ray, é prova disso. 

Gergiev, desde que assumiu o Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, reapresentou ao Ocidente todo o grande repertório operístico russo, em leituras de exceção. Há alguns anos, foi lançada em DVD uma integral das sinfonias de Tchaikovsky que, pela riqueza quase vertiginosa de contrastes, já é referência. E a mesma preocupação dramática, a pegada teatral, mas em momento algum banal ou melodramática, é reproduzida no Onegin – e levada a um novo patamar. E o tempo – ou a urgência do sentimento humano em comparação aos ciclos mais longos da natureza – parece fundamental na concepção musical, assim como na montagem sensível, assinada pela inglesa Deborah Warner, de corte bastante tradicional.

Na ópera, Tatiana ama Onegin, que não ama ninguém além de si mesmo. Lensky, por sua vez, ama Olga, e é capaz de matar – ou morrer – para defender este sentimento. O fascinante no texto original de Aleksander Pushkin é que, ao mesmo tempo em que cada personagem demarca uma postura clara perante a paixão, elas também se misturam em um jogo de espelhos e projeções. O amor, afinal, até mesmo na sua negação, torna-se o eixo incontornável da existência – ainda que possa significar morte. 

Nessa dinâmica, pela atuação cênica ou pelo desempenho musical, fica difícil imaginar elenco mais convincente, com destaque não apenas para Netrebko e Mariusz Kwiecien (Onegin), mas também para o Lensky de Piotr Beczala. Até mesmo nas polêmicas que suscitou, esse é um Eugene Onegin de referência para nosso tempo.

EUGENE ONEGIN

Gravadora: Deutsche Grammophon

Preços: DVD (R$ 110)/Blu-Ray (R$ 189)

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