Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Depois de Grammy e show, Paulinho da Viola começa a falar sobre o seu álbum de inéditas

Sambista está em um momento de festejar vida, carreira e o prêmio com apresentação em SP e ainda prepara disco

Matheus Mans, Especial para o Estadão

04 de dezembro de 2021 | 05h00

Paulinho da Viola atendeu ao telefone, para falar com a reportagem do Estadão, com uma espécie de celebração. “É muito bom falar com você. Depois desse tempo todo, a gente sente falta de falar com a imprensa”, afirma o músico de 79 anos. A saudade não é à toa: Paulinho, desde o começo da pandemia, conta que saiu pouco de sua casa no Rio de Janeiro. Respeitou a quarentena, esperou a vacinação caminhar. Agora, aos poucos, começa a retomar parte de sua rotina de viagens e gravações. Mas sempre com a calma característica e o pensamento ordenado.

No final de 2020, Paulinho saiu pela primeira vez de seu refúgio - ainda que nem tanto. Ele lançou o disco Sempre se Pode Sonhar, gravação de um show que fez no Teatro Fecap, em 2006. “Quando terminou o show, fiquei com a gravação. Guardei durante anos. Até que veio essa ideia”, diz. Depois, em novembro deste ano, consagração máxima: Sempre se Pode Sonhar venceu o Grammy Latino na categoria de melhor álbum de samba. “É uma forma de incentivo”, celebra o sambista. “A gente sabe que nosso trabalho é reconhecido até fora daqui.”

Agora, como que para fechar um ciclo, o carioca sai de sua casa no Rio para uma apresentação em São Paulo do disco Sempre se Pode Sonhar. No palco do Tom Brasil neste sábado, 4, o compositor e cantor vai se reencontrar com o público dois anos após seu último show antes da pandemia. No repertório, mistura de músicas do disco com clássicos indispensáveis. “É um reencontro”, define Paulinho. “Nunca fiquei tanto tempo assim sem contato com as pessoas, com o público. Não sei dizer o que estou sentindo.” 

Inéditas

É persistente, e até um pouco chato, fazer aquela pergunta de sempre para Paulinho da Viola: “E o disco de inéditas?”. Esse assunto já virou lenda, mito, talvez até superstição. O último foi o já clássico Bebadosamba, de 1996. Desde então, mais nada. No entanto, quando se volta ao tema se está vindo alguma novidade por aí, surge a calma de Paulinho. A serenidade. “Eu sou muito questionado sobre isso. Até parentes me colocam na parede”, diz ele, rindo dessa sina, ao ser questionado pelo Estadão. “Mas sempre fui assim. Nunca fui de compor muita música, não.”

Os fãs de Paulinho podem se alegrar: tem coisa nova a caminho. “Nesse período, comecei a ter ideias com composições de violão. Também tive ideias de alguns sambas que preciso trabalhar mais um pouco. Tenho uns quatro sambas prontos e algumas melodias, muita letra começada. Também comecei a ver coisas que já escrevi há algum tempo. Tudo isso faz parte da minha vida hoje”, conta. No entanto, para esse disco de inéditas sair, ainda há dois obstáculos para Paulinho: o esmero com cada gravação e a tranquilidade para sair de casa.

“Primeiramente, falando sério, eu ainda estou um pouco assustado (com a pandemia). Estou esperando melhorar, com um pouco mais de segurança para entrar em um estúdio e fazer gravações. São várias pessoas em um mesmo lugar, sempre falando. Algo complicado neste momento. Por isso (o disco de inéditas), deve ficar para o ano que vem”, explica. “E eu também tenho uma coisa de sempre mudar a letra, a melodia, sabe? Não é recomendável, mas já mudei muita música minha em estúdio. É o meu jeito de trabalhar.”

Sobre isso, ele conta, com certa tristeza, a história de uma música que seguiu por esse caminho: Meu Novo Sapato - que foi censurada durante a ditadura militar, quando tinha o título de Meu Sapato. Ele conta que precisou mexer na letra e não reparou que uma palavra foi mal-empregada. “As pessoas veem um significado ali que não tem absolutamente nada a ver”, observa ele, chateado. “Nunca mais consegui cantar essa música.”

Processo

Paulinho também não é daquelas pessoas que sentam, pegam o violão e vão escrevendo versos, refrões e melodias. O carioca diz que a música, para ele, nasce no dia a dia, do nada, quando menos se espera.

“Nunca tive essa coisa da disciplina com a composição. Isso de acordar, tomar um café e começar a fazer música. Já tive muita ideia quando estava acordando, sabe? E eu nem sabia se estava acordado ou não. E vinha aquilo na cabeça. Quando estava dirigindo, tarde da noite, vinha de Copacabana pra cá, entrava no túnel e algumas vezes, eu não sei por qual razão, me dava conta que estava fazendo a melodia de uma música. Não tinha gravador, estava dirigindo. Quando me dava conta que tinha a melodia, era uma coisa engraçada. Ela estava presente na minha cabeça, mas, ao mesmo tempo queria fixar, repetir. O que acontecia? Ela mudava. E nunca mudava para melhor”, lembra ele, aos risos. 

Com isso, fica no ar: quando vai surgir mais inspiração para Paulinho? Quem já o conhece, sabe que isso pode ficar para depois por conta da necessidade de mexer em uma letra aqui, uma nota ali, um som de cavaquinho acolá. Ele, aliás, nem vê o tempo passar. “É engraçado, a gente fica em casa sem fazer nada, mas parece que o tempo passa cada vez mais rápido”, acrescenta. “Às vezes, nem sabia em que dia da semana a gente estava direito. No final, o tempo passa depressa e a gente não percebe isso.” 

Sambista se reencontra com seu violão

A quarentena de Paulinho da Viola foi, sem dúvida, regada a muita música. No entanto, não exatamente como as pessoas podem esperar. De um lado, o sambista carioca conta que se reencontrou com o violão, parceiro antigo - daí vêm as composições para e com o instrumento. “Eu fazia o show e tinha o meu filho tocando violão. Então comecei a tocar mais cavaquinho”, conta ele. “Agora, recolhido, acabei reencontrando o instrumento, sabe?”

Restauro

A marcenaria, ofício aprendido quando era criança e que Paulinho faz com tanto carinho em sua casa reparando instrumentos e coisas do tipo, teve de ficar um pouco de lado - o carioca conta que ficou complicado “resgatar” instrumentos para passar pelo seu processo de restauro. “Isso é importante demais pra mim. Não é um ‘hobby’, é um exercício de concentração”, explica. “É ótimo conversar com um luthier, sobre como algo foi construído.”

Além disso, Paulinho diz que conversou com amigos por telefone, leu muito para diminuir a pilha de leituras pendentes que tem em casa. “Depois de um certo tempo, você se vê cercado de uma quantidade de livros que não tem mais como dar conta. É exatamente como um amigo meu dizia: ‘Cheguei a uma conclusão que, na idade em que estou, já separei os livros que vou ler. O resto, infelizmente, já não sei mais se vou dar conta’.”

No entanto, o que mais lhe tomou tempo além do violão, das leituras e do telefone foi o cupim. Paulinho tem uma discoteca com mais de cinco mil LPs que, de maneira devastadora, foi atacada pelo inseto. “Nunca tinha acontecido e, infelizmente, pegou uma parcela razoável. Perdi cento e poucas capas, inclusive coisa que é impossível de achar novamente. Precisei rearrumar tudo, lavei todos os discos, encomendei capas brancas para aqueles discos que não foram comprometidos. Isso levou um tempo considerável.”

E será que Paulinho é outra pessoa agora, depois desse período? “Ainda não posso dizer isso, mas alguma coisa vai mudar”, garante ele, se referindo ao mundo como um todo. “Saúde, política, economia, cultura. Não só o Brasil, mas o mundo está passando por um momento sensível. Espero que, ao sairmos disso, a gente possa aprender com essas lições todas.” 

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