Denise Andrade/AE
Denise Andrade/AE

Depoimento de Nando Reis sobre Cássia Eller

'Ela foi embora para não sumir jamais'

09 de dezembro de 2011 | 21h30

Havia decidido não escrever nada sobre a Cássia, especialmente sobre a Cássia e eu, nesse momento de sentimento ambíguo de comemoração que lembra a perda. Achava que o lançamento da primeira-metade (explico mais tarde) desse Relicário diria tudo. No entanto, bateu uma saudade e me deu vontade de falar dela.

Por coincidência me pediram esse artigo na mesma tarde, quase no mesmo instante que eu abria o disco novo da Gal, Recanto, só com músicas que o Caetano escreveu pra ela. E sem vergonha nenhuma, muito pelo contrário, digo que a minha transa com a Cássia tem tudo a ver com a Gal e o Caetano.

Não há nada mais lindo do que a voz de uma mulher, e essa noção construí ouvindo a voz de minha mãe. E o que eu sempre quis mesmo é ficar nesse lugar, de ouvinte, ser o receptáculo, um espectador - com recato nesse meu modesto canto, recantado. Componho pra dar forma ao caos que trago, engasgo, trafego e naufrago - é assim que dele posso me aproximar sem também sumir de mim. Alto míope inverso, quase cego, não enxergo mesmo é o que está mais perto.

Com a Cássia encontrei essa via, essa viagem, esse dia. Sim, o Segundo Sol é o nosso marco. Zero muito. Inferno múltiplo. E segundo sol que quebra a ideia de que há verdade absoluta. Por um segundo o sol isola a própria identidade, desenhando na calçada a imagem de nossa pessoa em contorno, como a estátua da face escura: CÁSSIA. Sua voz é a voz que grita o meu muitíssimo-mutismo silêncio-surdo, aquele que no peito dos desafinados também bate (feroz e veloz) um coração.

Nos tornamos amigos, muitos anos depois do nosso primeiro encontro, quando identicamente detestamos ter que falar um com o outro, estranhos que éramos por natureza e por delimitação protetora do perímetro de nosso íntimo sítio. Ela disse 'oi', ouviu as músicas que eu queria mostrar, e depois… "tchau". Foi-se embora na hora certa que só o jeito de quem não sabe como se despedir vai embora pra não sumir jamais.

Reunir as músicas minhas que ela gravou num mesmo disco reedita de certa forma esse estranho encontro. Muito estranho encontro. Estranho como se o repertório do Com Você - O Meu Mundo Ficaria Completo tivesse só músicas minhas, como ela queria naquele momento (quando estávamos apaixonados pela tranquilidade que o reconhecimento de que nossa alma-gêmea-mútua-dessemelhante-por-esquisitice trouxe às nossas vidas) eu, por sábia percepção, disse não.

Propor, realizar e lançar esse disco é expor o ápice dessa aproximação. É a minha paradoxal confirmação na forma expressa e desastrada que contém toda declaração de amor.

Aqui digo e divido o que sinto sobre sua importância: minha admiração, minha paixão, minha dependência, minha síndrome de abstinência, minha vaidade, minha timidez, minha limitação descomunal exibida e revertida na grandeza de sua voz-tamanha. E que eu, como um comum, ouso e digo por nós.

Pra não fugir ao que disse no princípio do artigo, esse disco é a primeira-metade do Relicário-imenso-desse-amor. A segunda virá na forma livro-disco cujo conteúdo será: as cartas que mandei pra ela, as demos, tais daquelas conversas, e a história de cada uma dessas músicas. E o retrato da multidão que fez de nós, eu e ela, capazes de fugir da timidez e explicitar o barato do riso de encontrar finalmente um par para não sobrar com o mico-preto.

O que eu mais gosto do que diz esse disco é justamente pisar de novo no chão onde o rastro dos meus riscos está devidamente encadernado por todos os outros que estiveram em ação. E assim, resumido, dar nessa data os "parabéns!, de quem aprendeu que um 'tchau' pode ser o 'oi' eterno." Com saudades.

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