Depeche Mode faz da melancolia dançante um alerta sobre o fim do mundo em São Paulo

Depeche Mode faz da melancolia dançante um alerta sobre o fim do mundo em São Paulo

Banda britânica se apresentou na noite desta terça-feira, 27, no Allianz Parque 

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 00h02

Com versos sobre o hoje, o Depeche Mode estabelece a conexão entre presente e passado. A primeira canção escolhida para a volta do grupo inglês a São Paulo, 24 anos depois da última passagem, trata do hoje. “We are not there yet / We have not evolved / We have no respect / We have lost control / We're going backwards” (em tradução livre: “Não chegamos lá ainda / Não evoluímos / Não temos respeito / Perdemos o controle / Estamos seguindo para o passado”).

São versos de quem viveu o ontem, percebe o presente tão (ou mais) sombrio do que aqueles anos 1980, quando surgiram. Dave Gahan, aos 55 anos, está preocupado. Quando o momento atual repete o que ele já viveu, algo está muito errado. Assim, com a música Going Backwards, ele se expressa, com o disco Spirit, o mais recente do Depeche Mode, lançado no ano passado. E, desta forma, o grupo inicia seu alerta. Soa sombrio, soa funeralesco, embriagado pelos sintetizadores e beats. O fim do mundo, para eles, não é ensolarado. E está próximo. 

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Aos poucos - bem aos poucos - Gahan e companhia tratam de acrescentar fervência ao show. Numa progressão, como uma chaleira ao fogo, o trio, que no palco vira um quinteto, reestabelece a euforia oitentista, sem medo de soar datado. Afinal, o mundo segue na contramão, segundo os próprios. 

Martin Gore canta como o mundo precisa de amor, com Insight, mas o centro das atenções no palco é mesmo de Gahan. Com uma porção de diferentes coletes, o vocalista do Depeche Mode enriquece a performance com sua entrega no palco bastante particular. Estabelece uma conexão ágil com seus braços para o ar, suas caras e bocas e passos de dança. Ocupa o palco, sem que haja a necessidade de firulas extras. 

E, com isso, o Depeche Mode revê sua história, que poderia ser trágica. Pouco depois da passagem pelo Brasil, em 1994, Gahan se afundou no vício de heroína e cocaína, teve uma overdose, e esteve morto por dois minutos, antes de ser ressuscitado e seguir para um tratamento de desintoxicação. 

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Por isso, a conexão entre presente e passado se faz de forma fácil no palco. Com dias sombrios deixados para trás, o Depeche Mode transita no tempo e espaço, ainda que permaneça no nosso presente, no Allianz Parque. E, nesse 2018, suas canções mais atuais, como Where’s the Revolution?, também do disco mais recente, soa como um grito por mudanças, enquanto a safra antiga, convida à dança. Nunca solar, o Depeche Mode reside na melancolia. Estaciona seu furgão num estacionamento vazio e capenga, sem luz, e dança frente aos faróis ligados, transformando as sombras em ilusões gigantes. 

É claro, os hits chegam, já na segunda metade da apresentação. O disco Ultra, de 1997, que retrata o reerguimento de uma banda em frangalhos, é o mais lembrado. Une luz e sombra. Destemido, esfolam os sintetizadores e as batidas. Enjoy the Silence e Never Let me Down Again encerram a apresentação. Uma versão acústica de Strangelove, no bis, pede pela reflexão, enquanto Walking In My Shoes, A Question of Time e Personal Jesus ligam os sapatos de dança dos 25 mil presentes no estádio. 

O funeral, ao fim, vira pista de dança. Se o fim do mundo vier, afinal, que ele chegue enquanto dançamos. 

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