Paulo Vitor/Estadão
Paulo Vitor/Estadão

Delcio Carvalho: o sorriso e o talento de bamba de um parceiro discreto

Dona Ivone Lara foi sua parceira mais frequente e com quem produziu clássicos como Sonho Meu, Acreditar, Alvorecer, Candeeiro da Vovó e tantas outras. Mas Delcio Carvalho foi muito mais do que isso. Dividiu sua inspiração com alguns de outros grandes mestres do samba, entre eles, Elton Medeiros, Zé Ketti, Wilson das Neves, Cláudio Jorge e o seminal mangueirense Carlos Cachaça. Dono de uma elegância não só para compor, como também para cantar, Delcio dominava o ambiente ao chegar em uma roda de samba, lugar onde, em vida, era considerado rei e, agora, certamente, será reverenciado, como o são os maiores compositores do gênero. Sorriso fácil, afável, conversador, podia ser visto em qualquer bar que reunisse sambistas, profissionalmente ou não. E uma coisa era certa: a chance de soltar a voz em uma “canja”, cantando seus maiores sucessos ou composições lindíssimas menos conhecidas, era praticamente certa.

Fernando Paulino Neto, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2013 | 20h04

O jeito de marcar o tempo forte da melodia, estalando o dedo, o balanço e a simpatia faziam dele sucesso certo, seja em rodas, seja em shows. Sua discografia é pequena, como a de um grande número de sambistas que não tiveram muitas oportunidades de gravar. A primeira música registrada foi Pingo de Felicidade, de 1968. Seu primeiro disco, Canto de um Povo, só veio 11 anos depois. Seus melhores trabalhos gravados são do final do século passado, Afinal, de 1966, e A Lua e Conhaque, do ano 2000. Em Afinal, entre grandes sucessos, como Sonho Meu e Acreditar, está Religião, em parceria com Zé Ketti, em que canta que “o samba é religião/um ritual, que sempre arrasta multidão/é alegria, poesia, luz e cor”. Uma ode ao ritmo que levava nas veias. Neste mesmo disco, em parceria com o elegantíssimo violonista Claudio Jorge, presentearam os sambistas com uma música pouco executada, Coisas da Mangueira, em que recuperam a tradição da verde e rosa de produzir sambas em forma de crônica, estilo consagrado por Geraldo Pereira e Padeirinho.

Este samba-crônica se junta aos outros motivos de inspiração do poeta. São letras que falam de amor, das dificuldades da vida, do dia a dia de um compositor de hábitos simples.

Homem de compleição forte era um doce quando conversava com os amigos ou quando pegava o microfone para cantar. Nos últimos tempos, já não mostrava a força de outrora. Mesmo mais magro e com presença menos frequente nas rodas dos amigos, Delcio continuava firme na batalha de cantar, compor, se apresentar. Enfim, estar presente no mundo do samba. Ainda este ano, lançou um CD independente, Dois Compassos, e chegou a fazer dois shows no Rio para divulgar o novo trabalho. Mas seu legado para a cultura popular já estava produzido. Sem as características de um ídolo de alta exposição, deixando quase sempre para os parceiros a primazia do sucesso de suas composições, Delcio vai “para o andar de cima”, como gostam de dizer carinhosamente os sambistas sobre as pessoas queridas que partem. Mas ficarão por aqui seus sambas, não só lindos, como gostosos de cantar e dançar, especialmente nos terreiros, quadras, bares ou em qualquer lugar em que se juntarem um pandeiro, um cavaco e um violão para o simples prazer de executar as composições que fazem da roda de samba um lugar mágico para se conviver.

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