Délcio Carvalho lança novo álbum

Délcio Carvalho lança, no início de setembro, seu quarto disco. A Lua e o Conhaque. O título vem do samba que escreveu com Afonso Machado e Luiz Moura. Afonso Machado, bandolinista do conjunto Galo Preto, assina a direção musical. A Lua e o Conhaque sai com selo da gravadora CPC-Umes. São seis regravações e dez músicas inéditas. Uma preciosidade, como ouvirão.O lançamento comemora os 40 anos de carreira do autor de Sonho Meu e Alvorecer - para mencionar duas de suas inúmeras parcerias de sucesso com Dona Ivone Lara, das quais existem poucos registros na voz de barítono seresteiro do co-autor. Corrigindo a falha, Délcio apresenta, pela primeira vez, sua versão integral (chegou a incluir o samba num pot-pourri do disco de estréia, em 1976) de Sonho Meu. A gravação que todos conhecem, de 1978, foi feita a duas vozes por Maria Bethânia e Gal Costa. Délcio também gravou a duas vozes - com Zeca Pagodinho.Zeca é um dos convidados especiais de A Lua e o Conhaque. Participam também Hélio Delmiro, Célia Vaz, Sivuca, Áurea Martins, Zezé Gonzaga, que somam seus talentos ao elenco fixo - um verdadeiro quem é quem do grande samba: Paulão, Jorge Simas e Bartholomeu Wiese (violões de seis e sete cordas), Alceu Maia (cavaquinho), Trambique, Marcos Esguleba, Beloba, Celsinho Silva, Marcelinho, Ovídio e Gordinho (percussões), Wilson das Neves e Oscar Bolão (bateria), Dirceu Leitte (saxofone), Roberto Marques (trombone), Franklin da Flauta (flauta, naturalmente), Cristóvão Bastos e Marcos Souza (piano) - e assim por diante.Délcio Carvalho é um dos maiores compositores do samba carioca. Por timidez - principalmente por isso - esteve, desde o início da carreira, nos anos 60, o mais longe possível dos palcos. Conseqüentemente, dos discos. O que é um pecado: primeiro, porque Délcio canta maravilhosamente; segundo porque, no Brasil, compositor que não faz show não aparece. Tom Jobim não gostava de fazer shows; fazia-os para ganhar dinheiro; Chico Buarque também não é o maior dos amantes do palco e esforça-se para se expor; o mesmo com Edu Lobo - os exemplos são muitos e no mundo do samba a barra é ainda mais pesada.Mas tudo bem, Délcio não está reclamando. No disco mais recente, Zeca Pagodinho gravou, dele, o samba Pra Afastar a Solidão. Vendeu muitos discos, Délcio recebeu grana compensadora, juntou com o que pinga dos direitos de Sonho Meu e Acreditar, seus dois maiores sucessos, e resolveu bancar a produção de mais um CD.Inéditas - O anterior, Afinal, saiu há quatro anos, pela Leblon Records, gravadora - agora desativada - com notórios problemas de distribuição (entre muitos outros problemas, alguns de ordem legal). Quase ninguém soube de Afinal - que perdeu o Prêmio Sharp do ano para outro disco de que poucos souberam, O Som Sagrado de Wilson das Neves.Um dia, conversando, o parceiro Elton Medeiros cobrou: "E aí, Délcio, vai ficar naquele que ninguém viu?" - e outros deram força. Cristóvão Bastos insistiu, a direção da gravadora CPC-Umes também. "Tenho material para três discos", conta Délcio. "Este de agora é só uma retomada, por isso incluí algumas regravações." Os próximos, promete, virão só com novas.De qualquer forma, Délcio precisava mostrar algumas músicas nem tão novas assim, no entanto inéditas. É o caso do Samba do Coração, melodia composta por Maurício Tapajós. Pouco antes de morrer, em 1995, Maurício entregou a música para Délcio, que começou a escrever a letra - mas, com a morte do parceiro, achou que não faria sentido lançar o samba. No novo disco, o samba, em tom menor, impregnado daquela tristeza inerente às composições de Maurício, ganhou arranjo da maestrina Célia Vaz, que também toca o violão (magnífico) e canta.Dueto - Inédita também é Ao Amanhecer, parceria com Marcos Paiva (que já havia composto com Délcio o samba Garoto Maroto). Na verdade, Délcio ofereceu Ao Amanhecer para Zeca Pagodinho. Zeca disse que não: queria era gravar com o autor o dueto de Sonho Meu. Chegou ao estúdio acompanhado pelos dois filhos, levando, para distribuir para o pessoal, garrafas plásticas cheias de leite e cachos de banana, tudo produto de seu sítio na Baixada Fluminense: Zeca tem mais orgulho de vacas e bananeiras do que de qualquer samba que já tenha composto ou gravado. Enfim... Mas chegou feliz: "A vida inteira eu cantei Sonho Meu em todos os pagodes de que participei por aí", disse. "Agora está na hora de fazer em disco."De regravações, além de Sonho Meu e Acreditar ("Acreditar, eu não/ Recomeçar, jamais/ A vida foi em frente/ E você, simplesmente/ Não viu que ficou pra trás"), as duas com Dona Ivone, o novo disco tem ainda Vendaval da Vida, parceria com Noca da Portela, Quando Essa Paixão me Dominar, feita com Ivor Lancellotti e gravada por Beth Carvalho, Clarão, outra com Ivor, gravada por Alcione, Alfenim, em que a parceira é Carlota Marques. A gravação de Alfenim é quase totalmente desconhecida: saiu há mais de 20 anos num disco do cantor Marquinhos Moura, lançado por gravadora pequena, e quase não repercutiu.Em tempo: alfenim é massa fina de açúcar; usa-se o termo também, para definir pessoa delicada, de trato carinhoso - coisas de Délcio, encontrar palavras que em samba, normalmente, não se ouve. Se bem que aqui se trate de uma toada, lenta, carinhosa como - como um alfenim.Guarânia - Mais inéditas: um tango em parceria com Capiba - uma música que estava guardada havia muitos anos e ganhou letra. Na gravação, o arranjo e a sanfona são de Sivuca, que diz que se trata de uma guarânia. Délcio também acha que é uma guarânia, mas é tango. Em todo caso, é lindo. Duas novas têm música de Délcio com letras de parceiros, invertendo a equação mais habitual: os versos de Lembranças da Lapa são de Paulo Terezino, e os de Chorei, de Mário Lago Fiho.Melancolia tem versos de Délcio e melodia de Luís Moura. É a faixa que conta com a participação de Zezé Gonzaga; Lá Fora é parceria com Elton Medeiros, um amigo e companheiro de música de mais de 30 anos. Em Antiguidade os parceiros são Bebeto di São João e Davi Correa. Fechando o repertório está Velha Embarcação, música de Jorge Simas.Nascido em Campos, no interior do Estado do Rio, e criado nos subúrbios cariocas, Délcio Carvalho é um dos totens irredutíveis do samba moderno, formando ao lado dos mais velhos Elton Medeiros e Dona Ivone Lara e de Nei Lopes, todos seus parceiros, todos seus admiradores. O mundo do samba o reverencia - e ele, por timidez, por modéstia demais, ainda está um tanto escondido do grande público. A Lua e o Conhaque tem as qualidades para jogar sobre ele as luzes que a cultura brasileira lhe deve.

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