Fábio Motta / Estadão
Fábio Motta / Estadão

Deftones se posiciona entre o belo e o grotesco em disco 'Gore'

O álbum, o oitavo deles, banda californiana encerra período de quatro anos sem canções inéditas

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2016 | 04h00

Chino Moreno, vocalista do Deftones, sente que há “um demônio ateu dentro” de si. Há, também, anjos nele. Ambos, convivem nessa batalha dicotômica. O bem e o mal. O são e o insano. Nada disso, contudo, assusta o músico. É a constatação da dualidade que introduz Prayers / Triangles, faixa que abre o novo disco da banda da cidade de Sacramento, na Califórnia, Gore, lançado no Brasil pela Warner Music.

Perturbador, como de costume, o Deftones encerrou os quatro anos de silêncio naquele que é o primeiro disco após a morte do baixista Chi Cheng, ocorrida em abril de 2013. O músico, integrante do grupo desde 1990, sofreu um acidente automobilístico e entrou em estado de coma em 2008. O baixo, desde então, foi assumido por Sergio Vega, amigo do grupo desde 1995.

É Vega quem atende a reportagem do Estado, por telefone, para tratar de Gore, o terceiro álbum do Deftones do qual ele participa – a banda tem, no total, oito discos. “Algumas situações são sempre mais difíceis”, ele diz, sobre substituir o colega no grupo. “Mas, como sempre, fomos muito amigos, tudo ficou mais fácil. Já havia participado de outras turnês com eles. Então, estávamos acostumados uns com os outros.”

Gore é um disco que mantém o Deftones na mesma boa safra de discos iniciada com Diamond Eyes (2010), o disco da redenção do grupo após algumas derrapadas na década passada. Depois dele e antes de Gore veio Koi No Yokan, em 2012. O álbum era um dos discos de metal mais aguardados do ano – ao lado de outros nomões do gênero que prometeram entregar uma nova safra em 2016, caso de Metallica, Tool, Rob Zombie e Zakk Wylde – e faz justiça à expectativa gerada em cima dele.

Há mais vazios que o costume, com buracos e canções por vezes mais vagarosas, algo que acrescenta mais melodia às vozes de Moreno e de Stephen Carpenter, guitarrista que também se arrisca nos backing vocals mais destacados. Gore soa mais atmosférico e experimental do que seus antecessores mais recentes.

A banda, ao que parece e como foi mostrado no Rock in Rio do ano passado, quando se apresentaram no encerramento das atividades de um dos dias do Palco Sunset, nunca esteve tão em forma. No palco, sim, e também no estúdio.

A tensão entre as vozes de Moreno e Carpenter, que parece fazer sair faíscas dos fones de ouvido, é a mesma no estúdio. E é o que faz a banda soar tão agressiva, mesmo 28 anos depois da criação do grupo. A feitura de Gore foi coletiva desde o momento no qual Moreno encerrou a turnê do projeto paralelo dele Crosses. Enquanto o vocalista viajava, os outros quatro integrantes já se reuniam no estúdio para testar novas texturas e riffs que poderiam se tornar canções de Gore. Quando Moreno se juntou a eles, no estúdio de Los Angeles, o embate entre Moreno e Carpenter começou a moldar as canções.

“É importante para a gente que cheguemos ao estúdio para começar a testar novas canções”, explica o baixista. “Nos reunimos, começamos a improvisar, ver o que gostamos, o que podemos descartar. Isso transforma a criação em algo muito mais orgânico. Desta vez, tínhamos dias no estúdio e outros em casa. Foi interessante ver como as ideias evoluíam individualmente para depois voltar a crescer juntas. Não somos uma banda de um compositor só. Fazemos tudo juntos.”

Nos embates saudáveis no estúdio, o guitarrista, por exemplo, não gostou da quinta faixa do álbum, Hearts / Wires – uma das mais interessantes dentre as 11 do disco, aliás. Carpenter justificou que as primeiras versões da canção levavam sua imaginação até momentos perturbadores do filme O Silêncio dos Inocentes protagonizados pelo serial killer interpretado por Ted Levine nas telonas.

A versão final envolve o ouvinte em solos de guitarra vagarosos passeando por caminhos indicados pelos teclados, em princípio, até a conhecida explosão nas pontes e nos refrãos. Por fim, por mais macabra que seja a letra de Moreno – “cortado por um arame farpado, estou morto em seu coração até o meu fim”, canta ele em certo trecho –, trata-se de uma canção de amor profundo, no qual o protagonista está se afogando. Em contrapartida ao amor, a faixa (L)MIRL é uma canção de desprezo: “Eu não sinto a sua falta, eu não quero saber onde você está agora / Você é um fantasma para mim”, canta Moreno.

É nesse embate entre duas metades que ascende o Deftones em grande forma. Uma capa linda, com a imagem de flamingos voando, contrasta com o título, Gore, cujo significado não tem tradução literal, mas é ligado à violência extrema e sangue. Nada é mais coerente com o choque entre opostos proposto pelo Deftones do que a inspiração de Moreno para esse álbum tão carregado: os discos solos de Morrissey. E isso já diz muito.

 

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