Deftones, atração do Rock in Rio, traz funk metal alternativo

Entre os rapazes do pesado e multirracial quinteto californiano Deftones, atração da derradeira noite do Rock in Rio, há um cavalheiro de verdade. Trata-se do baixista Chi Cheng, de origem chinesa e ex-estudante de literatura. Chi Cheng, além de poeta, é também um militante dos direitos humanos."Estou tentando montar um projeto de assistência artística a jovens sem-teto de Sacramento", contou Cheng, em entrevista à Agência Estado na tarde de quinta-feira. "Vamos bater papo com eles, trocar idéias, trazer um monte de colegas para ensinar música - e isso não é duro para nós, músicos, é até muito fácil", pondera o baixista.O Deftones, banda que faz um som na mesma linha que Helmet, Pantera ou Soundgarden, misturando ferocidade punk com alguns climões mais elaborados, chega ao Rock in Rio a bordo de um novo disco, White Pony, lançado em junho nos Estados Unidos."O que os fãs podem esperar de nosso show no Rio é o de sempre: tocaremos com paixão, com sinceridade e energia", disse o músico. Entre as músicas do repertório de White Pony, há uma intitulada Feiticeira, que alguns chegaram a dizer que era uma homenagem ao potencial intelectual da modelo Joana Prado - apresentada aos Deftones por seus amigos do Sepultura ou do Soulfly. "Não é nada disso: apenas eu gostei da palavra, dos significados que ela traz, de mágica e mistério", disse Cheng.O baixista acaba de lançar também um disco no estilo spoken-words, declamando algumas das poesias que escreve desde os tempos do colégio. "Não, não sou muito ligado a Yeats, Keats ou William Blake", diz Cheng. "Estou mais próximo da poesia dos beats, de Kerouac, Ginsberg ou Ferlingetti". O disco-solo de Chi Cheng chama-se Bamboo Parachute e está disponível para venda no site oficial do grupo. Nele, Cheng empunha 25 poemas, incluindo The Inside of My Pocket Knife, The Small Black Box e Whiter Than God, escolhidos entre seis cadernos de poemas do baixista. "Diferentemente da música, que eu escolhi fazer, poesia é algo que eu tenho que fazer", explica Cheng.E como um sujeito que gosta de poesia e vê futuro para uma humanidade fraterna se torna baixista de uma banda de funk metal? A explicação é simples, diz Cheng. "Eu gosto de tocar, gosto de estar com uma banda no palco, é revitalizante e energético", afirma.Amigo tanto de Max quanto de Igor Cavalera, os irmãos dissidentes de Soulfly e Sepultura, ele diz que gosta dos dois grupos. Acha que Max mantém-se em busca de novas saídas para o seu rock, e sua inquietação é necessária e tocante. "Quanto ao Sepultura, eu continuo gostando deles", afirmou. "A primeira vez que os vi foi durante um show ao vivo, em 1997, ainda com o Max, e confesso que foi uma das coisas mais impressionantes que já vi num palco", lembra.Chi Cheng fica entusiasmado ao saber que o Sepultura está no programa do festival. "Está brincando?", diz ele. "Igor é um baterista fenomenal, eu tenho que vê-los", afirma.O som dos Deftones pode ser veloz, devastador, ruidoso e ao mesmo tempo ser sentimental e delicado. Essa mistura é que os tornou cult no circuito alternativo, uma história que começoua ser escrita ainda nos anos 80, quando os colegas de escola Chino Moreno e Abe Cunningham passaram a dividir a paixão pelo skate e pelo rock em um grupo. Tinham cerca de 15 anos cada um.Moreno chamou para juntar-se a eles um velho colega chamado Stephen Carpenter, que aprendera a tocar guitarra para se recuperar de um atropelamento - por sinal, incidente-chave na formação da banda, já que foi com o dinheiro da indenização judicial que Carpenter comprou guitarras, amplificadores e equipamento de gravação e transformou sua garagem num estúdio. Por fim, vieram Frank Delgado e Chi Cheng, o poeta do baixo.

Agencia Estado,

22 de dezembro de 2000 | 18h20

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