Sandra Ghiorzi/Divulgação
Sandra Ghiorzi/Divulgação

Debussy 'reconstrói a noção de tempo', diz Vladimir Safatle

Palestra de filósofo na Sala São Paulo faz parte do projeto 'Música na Cabeça', parceria Estado e Osesp

João Marcos Coelho, Especial para o 'Estado'

26 de agosto de 2010 | 19h35

Claude Debussy dizia preferir sair para fumar quando iniciava-se um dos habituais longos desenvolvimentos das sinfonias de Beethoven. Visava mostrar como a linguagem musical tonal evolui segundo processos arqui- conhecidos dos ouvintes, que conseguem prever sem esforço seus movimentos posteriores. Charles Rosen, o notável pianista e pensador musical atual, comprova isso com uma recordação pessoal: "Aos 17 anos, ouvi pela primeira vez o quarteto no. 5 de Bela Bartók, e isso me deu um mal-estar físico, até um início de náusea". A razão era a "falta de familiaridade" com o estilo desta obra. "Todas as minhas expectativas musicais frustraram-se". Hoje, completa Rosen, "este quarteto é fonte de prazer - mas minha familiaridade grande demais com a obra e seu estilo misturam-se com uma ligeira decepção: ela não solicita mais a minha atenção". Por isso Debussy ousava dizer que saía para fumar nos desenvolvimentos de Beethoven.

 

No início do século 20, os ouvintes se lambuzavam nesta zona de conforto, enquanto os compositores sentiam-se incomodados com o esgotamento da tonalidade. Este foi o tema central de "Debussy e o nascimento da modernidade", palestra de Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, realizada na última quarta-feira (25/8) na Sala São Paulo, dentro da série Música na Cabeça, iniciativa conjunta do Estado e da Osesp. Safatle começou reclamando do modo oficial de se contar este parto da modernidade: Debussy foi tão decisivo no processo de superação da tonalidade quanto seus contemporâneos Arnold Schoenberg e Igor Stravinsky. Remete-se habitualmente ao embate de dois polos opostos - Schoenberg, sua recusa da tonalidade e consequente proposta de uma nova maneira de "organizar o som em movimento" (a música serial); e Stravinsky, que "apela a um retorno à origem, a fim de liberar no passado aquilo que teria força de romper com o presente (...) compõe com as ruínas da linguagem tonal".

 

Desse jeito, Claude Debussy fica espremido numa postura conservadora, reclama Safatle. Ele é talvez o mais sutil neste combate, pois corrói a tonalidade por dentro. Ou, nas palavras de Safatle, "reconstrói a noção de tempo", "desmonta a fórmula rememoração-expectativa", "pratica a harmonia não-funcional" (isto é, deixa nossos ouvidos sem saberem para onde a música se encaminhará). "A idéia é parar o tempo", disse Safatle. "Debussy libera o tempo musical da narratividade (necessidade de contar uma história) tonal". Ele, afinal, "opera a progressiva desarticulação da narratividade". E pendura-se nos estímulos visuais e/ou poéticos como fios condutores.

 

Debussy praticou sobretudo o que Safatle chama de estética da subtração. A idéia era esvaziar a linguagem tonal de todos os seus significados e expressividades. Aqui passa perto de Rosen, ao revelar que a estranheza que Bartók lhe causou não era por causa da novidade, e sim devido à ausência de elementos reconhecíveis. Rosen cita o crítico Leo Steinberg, que atribui a resistência aos grandes pintores modernos do início do século 20 não por causa do que pintavam, mas pelo que não colocavam na tela.

 

Safatle exemplificou ao piano, com trechos da Balada em sol menor de Chopin e do prelúdio "Passos Sobre a Neve", de Debussy. Ficou, no excelente público presente, a sensação de que se falou demais de Schoenberg e Stravinsky - e menos do que se deveria de Debussy. Todos gostariam de ter partilhado mais das agudas e interessantíssimas reflexões de Safatle sobre o autor de "Jeux", que a Osesp interpreta nos três concertos deste fim de semana.

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