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Debussy na interpretação do Trio Apaches

Em sua segunda edição, Festival Internacional de Música de Câmara traz sete grupos internacionais no Sesc São Paulo

João Marcos Coelho, Especial, para O Estado

28 Novembro 2016 | 21h16


Os maiores diferenciais do 2.º Festival Internacional de Música de Câmara do Sesc são o cuidado na construção do repertório e a excelência artística de cada um dos concertos dos sete grupos internacionais participantes. O concerto do Trio Apaches, na sexta-feira, no Sesc Vila Mariana, comprova esse círculo virtuoso, acrescentando uma terceira qualidade muito bem-vinda: foi construído só com obras do século 20. É isso que o grupo britânico leva para apresentações no interior do Estado. 

Estupenda a “recriação” da compositora norte-americana Sally Beamish, de 60 anos, para La Mer, obra-prima orquestral de Debussy de 1905. Atraente e imediatamente capturável por qualquer tipo de ouvido, por causa da utilização da música folclórica armênia, o trio de Arno Babajanian (1921-1983), amigo de Shostakovich, fez par com uma das obras-primas deste último: o trio n.º 2, de 1944, réquiem ao amigo e confidente Ivan Sollertinsky, morto aos 41 anos.

Há alguns arranjos na praça de La Mer. Os que conheço são insatisfatórios, pois descartam o essencial nesta música, a paixão pelos timbres. Como o de Carlo Maria Griguoli, feito para o Festival de Lugano de 2013: os três pianos soterram o refinamento da linguagem tão característica de Debussy. Sally Beamish sabiamente segue a máxima debussysta: “Precisei criar luz e sombra, sutilezas de cor. Isso significa explorar o que as cordas e o piano podem fazer em termos de textura”. Usa várias vezes uníssonos para “criar novos ‘instrumentos’ – como misturar azul e vermelho para obter o verde”.

Desse modo, a partitura que preserva o essencial da música de Debussy e especialmente dessa obra, que o dublê de filósofo e musicólogo Vladimir Jankelevitch chama de “sinfonia de murmúrios. Os rumores que sentimos do mar compõem-se de uma infinidade de murmúrios que não percebemos – em Debussy, essas inumeráveis gotinhas minúsculas, das quais nascem esses inumeráveis murmúrios, são”, milagrosamente, completo eu, “convertidos em música”. O derradeiro vértice virtuoso desse círculo foi a performance do Trio Apaches: Matthews Trusler sabe que seu violino mais se integra do que sola; o piano de Ashley Wass é ideal em seu desejo de se integrar sem abrir mão do caleidoscópio sonoro de que seu instrumento é capaz; e o violoncelo de Thomas Carroll adquire naturalmente um papel proeminente nesta versão.

Na segunda parte, duas outras notáveis leituras do trio. De um lado, soou desequilibrado o trio de Babanajian, com uma cantilena central bonita, mas meio deslocada em relação aos movimentos extremos (excelente, sobretudo, o primeiro, um Largo.Allegro Espressivo vibrante). O segundo trio de Shostakovich é desafio constante para os músicos, principalmente no início em harmônicos, Himalaia que todo violoncelista enfrenta e raras vezes consegue fazê-lo sem desafinar. Carroll quase chegou lá. Estupenda a organicidade de interpretação do grupo, formado há pouco tempo, 2012, mas já plenamente amadurecido. No extra, um arranjo matador da cavalgada final da abertura de “Guilherme Tell”, de Rossini. 

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