Eleonora C. Collini
Eleonora C. Collini

Deap Vally vem a festival gratuito para mostrar a fúria calorenta do rock de guitarra

Dupla californiana é atração principal do Jägermeister Grounds, em São Paulo, realizado no domingo, 3

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 06h01

Lindsey Troy suspira, aliviada, ao telefone, quando ouve, do lado de cá, que a entrevista com o Estado iria fugir das perguntas padrões a respeito do fato do Deap Vally ser composto por garotas e comparações com outros duos do rock famosos, como White Stripes, Black Keys e Royal Blood.

“Ainda bem”, brinca a vocalista e guitarrista da dupla californiana. “A gente imaginava que esse tipo de tópico fosse esquecido depois do nosso segundo disco (Femejism, de 2016), porque o assunto ficaria velho. Mas isso ainda acontece, as pessoas ainda querem falar sobre o fato de sermos uma banda de mulheres, quando o que importa deveria ser a música que produzimos.”

O papo foi conduzido poucos dias antes do embarque dela e de Julie Edwards (bateria) para o São Paulo, onde elas farão sua estreia nos palcos do País. A Deap Vally é a atração principal do Festival Jägermeister Grounds 2017 – um projeto itinerante que passou por outras capitais do Brasil, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis. A versão paulistana tem entrada gratuita e ocorre no Espaço Pro Magno, na zona norte, a partir das 14h deste domingo, 3. 

O duo Deap Vally encerra as atividades do festival, com apresentação marcada para às 21h. Antes delas, apresentam-se as brasileiras Combover, Color for Shane, Sky Down, Devilish, The Last Station, Beach Combers, Lava Divers e Dead Fish. 

De modo geral, a curadoria do Jägermeister Grounds, assinada por Deborah Babilônia, a vocalista da ruidosa banda Deb and the Mentals,  buscou a guitarra como inspiração, como a força que leva as bandas selecionadas para frente. No caso da Deap Vally, isso é ainda mais pungente. Foi a fúria, aliada à química com Julie, que convenceu Lindsey voltar ao universo da música. 

É difícil de imaginar quando se testemunha tamanha euforia de Lindsey no palco, mas até 2010, a artista não se via dentro do music business mais uma vez. Tudo culpa de um trauma na infância. Quando tinha 15 anos, em 2002, Lindsey assinou um contrato com a gravadora Electra Records como integrante da banda The Troys, formada com a irmã, vocalista e guitarrista da então banda. “Mas eles queriam nos transformar em algo pop”, lembra. 

O disco do The Troys nunca chegou às prateleiras, mas segundo a artista a gravadora deve ter os fonogramas – ela, mesma, tem uma cópia do álbum produzido. Em 2006, Lindsey e a irmã Anna, lançaram suas tentativas de carreira solo, com um disco e um EP, respectivamente embora nenhuma delas tenha se destacou. “Quando conheci Julie, a música ainda era uma questão para mim. Pensava em qual seria o projeto que iria me pegar de jeito e me fazer mergulhar”, conta. “E assim que nós conversamos percebi que havia algo de especial. Era  uma alquimia.”

E o Deap Vally segue a cartilha dos principais fundamentos para ser uma dupla roqueira de sucesso. O principal é não tentar soar como mais de duas pessoas – somente o Royal Blood foi capaz de fazer isso de forma aceitável. A captação de som precisa ser lo-fi, para evidenciar as imperfeições e deixar a guitarra soar mais musculosa. Se o com  da guitarra e da bateria interferirem nos microfones alheios durante a captação, melhor ainda. Por fim, deixe a impetuosidade carregar a voz para paisagens áridas e quentes. 

Quando adolescente, por exemplo, Lindsey ouvia ao disco Californication, do Red Hot Chili Peppers sem parar – um disco sobre uma Califórnia em transformação. Hoje, ela é  a nova voz californiana: seu  discurso de poder do feminino  é fundamental e seu impacto vem como uma lufada de vento quente vindo do deserto. “Ser californiana também me influenciou.” 

PROGRAMAÇÃO

Combover

Um power trio raiz que busca manter a efervescência do gênero com riffs rápidos. Dedique uma atenção especial ao curioso vocalista Don Carlón. 

No palco das 14h45 às 15h15. 

Color for Shane

A distorção no talo marca um ponto a favor do quinteto paulistano que lançou, neste ano, o álbum Not an Embryo, um disco que parece ter saído de uma máquina do tempo, dos anos 1990 para 2017. 

No palco das 15h25 às 15h55. 

Sky Down 

O curso pelos anos 1990 segue com o trio Sky Down. É interessante perceber, contudo, como a a guitarra e baixo em ruído constante constrói uma via larga para a passagem da voz de Caio Felipe, surpreendentemente doce. 

No palco das 16h05 às 16h35. 

Devilish

O ritmo acelera aqui. Segue em ritmo de cavalgada, como uma trilha sonora para uma fuga desgovernada. Stoner rock que ameaça o ouvinte como cão bravo. No palco das 16h45 às 17h15.

The Last Station

O peso desce com o quarteto de Florianópolis. Parte-se para hardcore agressivo daqueles que a bateria é arisca e seca, a ponto de arrebentar. Os vocais, gritados, soam como grunhidos.  

No palco das 17h25 às 17h55.

Beach Combers

Um pouco surf music, outro tanto psicodélico. Tudo com algumas pirações nas distorções. Trata-se do trio instrumental que tocou com Zak Starkey, filho de Ringo Starr, dos Beatles, e baterista do The Who, na Praia de Ipanema. 

No palco das 18h05 às 18h35. 

Lava Divers

Não fosse pelo alto volume das guitarras, o Lave Divers se passaria por uma  banda de power pop. A distorção, contudo, coloca-os  em um interessante espaço sonoro de candura  e agressividade. 

No palco das 18h45 às  19h15.

Dead Fish

Das mais importantes e relevantes bandas de hardcore do País, o Dead Fish é sinônimo de entrega no palco, velocidade e um público tão suado quanto seus integrantes no palco.

No palco das 19h35 às 20h15.

Deap Vally

Principal atração da noite surgiu em 2011 como sensação mais quente da música. E o duo é, de fato, calor puro, suor e instrumentos espancados. 

No palco das 21h às 22h.

JÄGERMEISTER GROUNDS

Espaço Pro Magno. R. Samaritá, 230, Casa Verde. Domingo, 3, a partir das 14h. Entrada gratuita

 

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