Jamie James Medina/Divulgação
Jamie James Medina/Divulgação

De volta para o futuro: A lenda do soul Bobby Womack fala sobre sua carreira

Artista fala também sobre problemas de saúde que enfrenta

Jotabê Medeiros,

11 Fevereiro 2013 | 12h12

 Após um hiato de 18 anos sem gravar nenhuma canção, um dos últimos grandes cantores de soul do Olimpo do gênero, Bobby Womack, aos 68 anos, ressurgiu no cenário musical.  No ano passado, com o disco The Bravest Man in the Universe (Lab 344), produzido por Damon Albarn (da banda inglesa Blur), ele fez uma rentrée espetacular (e até um pouco controversa, já que é um disco que faz uso muito heterodoxo da eletrônica). Álbum do ano dos Q Awards, tem como convidados cantoras como Lana Del Rey e a participação de Gil Scott-Heron em uma das faixas.

Bobby Womack chocou a black music nos anos 1960 ao se casar com a viúva do seu padrinho artístico, Sam Cooke, três meses após a morte deste.  O mais terrível veio quando publicou sua autobiografia: Bobby tinha ido além: também manteve um relacionamento afetivo com a filha adolescente de Barbara e Sam Cooke, Linda, e estiveram na cama enquanto era casado. Tudo isso seria apenas combustível picante para o mundo das celebridades, não fosse Womack um homem marcado também pela tragédia.

Após enfrentar um câncer no intestino, há um ano, no mês passado o cantor sofreu outro baque: foi diagnosticado com Alzheimer, ainda incipiente. O irmão mais velho, Harry, foi assassinado por uma namorada ciumenta dentro do seu próprio apartamento. Um dos filhos de Bobby entrou em coma, quando ainda era um bebê, em um acidente doméstico. E, há 7 dias, Bobby também viu morrer seu irmão mais novo, Cecil. Bobby Womack falou ao Estado durante uma hora na tarde de quinta-feira.

Estou um tanto nervoso em falar com o sr. É como falar com uma lenda, não parece razoável.

Vou dizer a você uma coisa sobre lenda: a única coisa que sinto é que tenho andado por aí há algum tempo. Tenho presenciado muitas mudanças nesse negócio, rapaz. E, quando você vê coisas tão diversas, você muda a si mesmo também, às vezes de um jeito bom. O que eu tentei fazer foi me manter vivo, cantando coisas de forma satisfatória para mim mesmo. Acho que a coisa mais importante que a canção tem que ter é sentimento. Se não há sentimento, não tem significado. Vou lhe dar um exemplo: Teddy Pendergrass (cantor e compositor americano que integrou The Caddilacs e Harold Melvin & The Blue Notes e compôs hits famosos como ‘How Can You Mend a Broken Heart’). Ele foi um grande cantor. Mas fazia questão de gravar suas canções, e ele fez o certo, assim ele poderia viver mais e expressar mais. Para se tornar um artista completo, você tem de ir mais fundo. Quando eu era jovem, eu era natural sobre isso. Eu pensava que tudo tinha sua destinação, e estava feliz, e não sabia o que era felicidade de verdade. Sou abençoado por as pessoas terem prestado atenção e cuidado de mim nesses anos todos. Há muitas dores na vida. Acabo de perder meu irmão. Essas coisas não têm substituição. E você reage no mesmo patamar. Quando meu coração está ali, não sei como nem quando, isso é dividido com a plateia. Tudo é uma questão de relacionamentos.

Mas o sr. não se preocupa só com o sentimento, mas também com a forma. O seu último álbum, The Bravest Man in the Universe, é um disco muito experimental.

Acho que Damon (Albarn, do grupo inglês Blur) e Richard (Russell) fizeram mais esforços nesse sentido do que eu fiz. Eu só sabia que estivera fora durante anos, e de repente eu estava de volta ao estúdio. Sabia que tinha muito para dizer, acredite. Queria inovar, em vez de me repetir.

O senhor falava sobre seu último álbum, The Bravest Man in the Universe.

Eu só queria demonstrar como estava feliz 40 anos depois. É muito sério quando você tem a chance de mostrar o que está sentindo por meio de suas canções. Nesse exato instante, antes do que aconteceu com meu irmão Cecil, havia umas músicas nas quais eu estava trabalhando. Isso tudo me abalou muito, então eu vou esperar a hora certa, esperar minha verdade aparecer para colocar para fora. Quando eu falo sobre perder alguém dessa forma. Afeta muito o espírito do que você está fazendo. Te dou um exemplo: eu estava ouvindo pela primeira vez uma das novas canções do disco, no primeiro dia em que eu entrei no estúdio, acho que foi Damon quem me disse: minha mãe está muito doente. Eu respondi: quer saber? Acho que é o momento certo de gravarmos. E esse sentimento está naquela canção, do jeito que a gravamos. É o que a torna única, quando você escuta. E isso é algo irrepetível. Então, gravar uma canção embute esse momento, essa verdade que vivemos naquele momento, que faz a gente pensar sobre a vida. Meu pai, que era uma das pessoas que eu mais admirava, também morreu nesse processo, e eu dediquei o disco a ele. A música tem esse caráter de conexão com a realidade. Quando a gravadora me procura e me pede para gravar algo de encomenda, eu digo: não posso, tenho de esperar a hora certa. Entrar no estúdio é para mostrar o que está se passando com você naquele momento: a perda de membros da família, Marvin Gaye, Wilson Pickett, gente que era uma bênção estar no mesmo mundo que eles. A música se tornou extremamente comercial ao abandonar esse princípio.

Minha canção favorita no seu disco é Stupid, ouço o tempo todo. É paradoxal, porque é uma canção muito crítica sobre religião.

(Risos) Sim, mas também adquire muitos significados. Uma das coisas sobre a música, se é criativa, é que se você fala de sua vida, pode estar falando de muitas outras coisas. Quanto mais sentidos ela atinge, mais se torna universal.

Depois de um diagnóstico de câncer, um tratamento pesado – e agora a descoberta do Alzheimer. Como o sr. tem reagido a isso tudo?

Eu me dei conta de que havia algo errado quando eu iniciava uma canção e não conseguia me lembrar da segunda estrofe. O que é isso? Não entendia, mas sabia que era parte da vida. Estar por aí pode significar que a coisa vai correr de um jeito fácil ou vai ser do jeito difícil. Pensei: deixa para lá. Eu encaro da seguinte maneira: estou aqui por um motivo. Eu posso tocar as almas das pessoas. Há muitos artistas que conseguem tocar as almas das pessoas e, acredite ou não, nunca conseguem tocar a sua própria alma. Eles sempre se esquecem de si mesmos. Eu era assim também. Resolvi crescer. Uma coisa que eu não faço é tentar entender, porque senão fica muito complicado. Quando você expressa sua opinião sobre uma canção, sobre a melodia... Eu não costumo ensaiar muito. Minha voz ainda é a mesma. Você não pode mudar minha voz. Quando alguém reclama: mas você gravou um disco de eletrônica, eu digo: sim, mas o que sustenta aquela eletrônica é a minha grande boca.

O sr. se vê na mesma linhagem de Marvin Gaye, Otis Redding e Wilson Pickett? Como vê o seu próprio lugar na linha evolutiva da música negra?

Todo mundo manuseou algo diferente. Marvin foi uma grande pessoa, muito criativa. Não sei porque não está aqui agora. Mas nós dois fizemos o mesmo tipo de música, uma música que falava ao coração. Você pode aprender com eles, mas nenhum deles pode ser copiado. Um artista novo não pode chegar e dizer: eu vou ser como James Brown. Porque ninguém vai conseguir ser como James Brown. Há muita gente fazendo coisas inspiradas neles, porque eles eram autênticos. Trinta anos atrás, havia tanta coisa diferente sendo feita. Uma vez, Sam Cooke me ligou por volta da meia-noite e me disse: “Onde tem andado, andei procurando você por todo lugar? Venha até aqui”. Eu fui até a casa dele e ele pôs para que eu ouvisse A Change is Gonna Come. Ele me perguntou: e aí, o que achou? Eu fiquei pasmo, aquilo mudou minha vida para sempre. Era um manifesto de tudo o que eu pensava, de tudo que estava acontecendo com a gente. Sam Cooke era um piadista. Eu mesmo sou um piadista. E aconteceu que uma vez ele disse: “Bobby, eu não vou ver isso, mas nós teremos um presidente negro”. E a música acabou se tornando o hino da campanha de Obama. Era uma visão que imaginava um País em que todos faríamos tudo juntos. Nos anos 1920, havia muita gente negra talentosa que não tinha permissão de mostrar seu talento. Essa é a diferença de uma canção de verdade: as pessoas ainda a ouvem e choram. Anos atrás, era como uma canção das fazendas de algodão, o significado da escravidão estava dentro dela. A igualdade de tratamento é a melhor atitude que o homem pode tomar em relação aos seus semelhantes.

O sr. usa uma gravação do poeta e ativista Gil Scott-Heron em seu disco. Ele foi seu amigo?

Eu nunca encontrei Gil. Eu sempre amei a música dele. Ele sempre esteve muito à frente do seu tempo, fazia rap muito antes de o rap ser inventado. Fico triste por causa das drogas, acabaram encurtando a passagem dele. Eu me dei conta de quão triste é isso ao visitar meu irmão no hospital pouco antes de ele morrer. Houve um tempo em que competíamos muito. No processo para se chegar ao sucesso, muitas vezes há esse tipo de competição. Isso nos afastou muito. Não há grande lição na morte. Às vezes a gente se esquece do que há aí fora. Quando você quer muito, nunca esse muito é o suficiente.

Dizem que o senhor odeia o hip-hop.

Não, não odeio. Apenas não gosto daquele rap que é feito de coisas negativas. Não gosto de Snoop Dogg, por exemplo. Mas há outros artistas do rap que eu gosto. Amei quando Amy Winehouse apareceu. As pessoas comparam com as cantoras do passado, mas a gente têm de pensar o seguinte: a música de hoje, amanhã, será a música do passado. E os novos artistas vão continuar aparecendo. Temos de viver para o hoje, em contínua mudança. A química da música acontece em contato com o seu tempo.

Ouvi que o sr. está planejando uma primeira turnê pela América Latina. É verdade?

Damon (Albarn) está conversando com a gravadora a respeito de uma turnê. Quando vieram me perguntar, eu disse: Aqui estou, me sinto ótimo. Estou com 68 anos, faço 69 em março. E eles me disseram: que tal uma primeira vez em sua vida na América latina? Eu respondi: é sempre a primeira vez para mim em qualquer lugar. Sempre que subo ao palco, mesmo agora, há um sentimento elétrico, como se pudesse tocar a todos. A primeira vez é sempre gratificante, porque as pessoas esperam ouvir cada canção com o espírito aberto, sentir tudo de novo. É algo que não quero perder. Mas não está em minhas mãos ir até a América Latina. Mas é curioso, eu teria dificuldades para explicar para Sam Cooke ou Otis Redding o que está acontecendo agora. Não acreditariam. O mundo cresceu, as fronteiras se expandiram. Jimi Hendrix teria dificuldades para entender isso agora, a sua importância em todo lugar do mundo.

Como Michael Jackson, o sr. foi um cantor mirim em um grupo vocal com seus irmãos, The Valentinos, semelhante ao grupo Jackson Five.

Exatamente. Muitas pessoas não entendem direito aquelas circunstâncias. Especialmente o lugar de onde viemos. Dizem: “O pai de Michael era muito duro”. Não, o pai de Michael os amava, era uma pessoa afável, de boas maneiras. Ele lhes deu tudo, os manteve longe das drogas, da criminalidade. Mas vinha de um lugar difícil, de gente rude. Mas se você me desse a oportunidade de fazer tudo aquilo de novo quando eu estava crescendo, eu não iria querer crescer daquele jeito. Porque te impõem tudo. Seja lá o que você faça, não faça aquilo que querem que faça, faça o que represente você mesmo. E não tenha medo disso.

O sr. foi amigo de Jimi Hendrix?

Jimi Hendrix tocou guitarra com meus irmãos. Mas eu o conheci antes, conheci quando tocava com Gorgeous George, que ainda vive. Jimi era o guitarrista. Ele era diferente, era um indivíduo. Como os Beatles, ele vai ser influente geração após geração. Essas pessoas continuam vindo ao mundo, como Michael Jackson continua vindo. Não julgo ninguém pelo uso de drogas, eles buscavam apenas algum conforto. Daqui a muitos anos, você vai ouvir um jovem músico e alguém dizendo: ele lembra Little Richard. Mas creio que a coisa para mim não é apenas estar aqui testemunhando a história vindo e se repetindo, mas mantendo-me conectado com as coisas do meu tempo. Sou grato por ainda estar aqui e presenciando tudo. 

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