De volta, o Chico Buarque que canta

Não tem jeito: basta o cantor ecompositor Chico Buarque ficar uma longa temporada sem fazershows que, quando ele resolve retomar a estrada, vira essealvoroço para compra de ingressos. Filas em frente dospontos-de-venda, tentativas desesperadas de compra pela internet reza braba para conseguir um ingressinho de presente e por aívai. A temporada paulistana estréia nesta quarta para convidados,no Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo. Mesmo com osingressos esgotados, a procura continuou e, assim, foramanunciadas na noite ontem a realização de mais oito shows extras entre os dias 5 e 15 de outubro. Os ingressos começam a servendidos na sexta-feira, dia 1.º. Chico fez uma prévia do que será a temporada de shows donovo CD "Carioca" na semana passada, no Auditório Ibirapuera,diante de um público só de convidados da operadora de telefoniaTIM, patrocinadora da turnê. Grande parte da platéia era formadabasicamente por jovens. O cantor explica que foi uma situaçãoisolada, já que muitos dos convidados eram estudantes de músicae, por isso, o grande contingente juvenil. O que se vê nos showsde Chico é um público de todas as idades, inclusive esses maisjovens. Obviamente, eles não lhe têm a mesma devoção que aplatéia feminina, que suspira, se descabela e grita toda sortede elogios ao tímido músico. Como ele lida com o assédio dasmulheres e a exploração disso por parte da imprensa? "Não lidocom isso! Quando leio essas coisas, acho brincadeira daspessoas", respondeu Chico, durante um encontro com um pequenogrupo de jornalistas, no próprio Tom Brasil. "Não estou mais naidade de acreditar que sou sexy symbol. Quando falam ?lindo,tesão?, é uma piada. Não vou acreditar nisso." Uma questão demodéstia.Algo novo a dizer Para Chico, só faz sentido subir num palco quando se temalgo novo a dizer. Por isso, a demora às vezes é grande, como,por exemplo, a lacuna entre sua turnê "As Cidades", de 1999, e anova "Carioca". Lá se foram sete anos de espera. "Eu não tinhapor que fazer um show se eu não tivesse um disco novo. Atépoderia, mas não me anima a idéia de fazer um show de sucessos,the best of. Me animo a cantar quando estou no processo decriação de música. O que me move a fazer o espetáculo são asmúsicas novas. Claro que este show tem quase 30 canções, 12 donovo CD e 14, 15 que não são desse disco, mas que por um motivoou outro entram no roteiro. Você refaz seus arranjos e elasficam frescas." De fato, Chico não deixou nenhuma composição de seu"Carioca" de fora do show. Há de se escutar desde a bela "Odeaos Ratos", feita em parceria com Edu Lobo, para o musical"Cambaio", até a valsinha "Imagina", uma música antiga de TomJobim feita em parceria com Chico, que no disco foi cantada emduo com Mônica Salmaso. No show, sai Mônica e entra Bia PaesLeme, que dividirá com o cantor os vocais dessa canção ao longoda turnê. "Não haverá participação da Mônica, senão eu teria delevá-la pra cima e pra baixo. Nos anos 60, tinha muito essacoisa da canja, mas hoje em dia o show está sendo produzido deuma forma que quase é impossível você improvisar."Improviso no palco hoje soa falso Para ele, o improviso no palco, hoje, fica falso. "Osshows ficaram mais profissionais, perderam um pouco daespontaneidade. Era engraçada aquela época. Vinicius (de Moraes)com copo de uísque, imagine hoje. São outros tempos. Se eubebesse uísque, como bebia antigamente, talvez eu tomasse até nopalco. Hoje em dia, não bebo mais uísque... E cantar bêbado podeser engraçado uma vez ou outra, mas uma temporada inteira caindode bêbado, não dá, não há fígado que agüente." No roteiro da turnê, Chico Buarque optou, mesmo queinconscientemente, por canções menos óbvias de seu antigorepertório, para intercalar com o novo trabalho. Foram escolhasintuitivas, prefere definir. Músicas que simplesmente queriacantar, além de ter acatado alguns pedidos de gente próxima."Foi quase uma historinha, uma dramaturgia. Minha cabeça temisso, uma coisa puxa a outra." Ele tinha nas mãos, por exemplo,"Mil Perdões", blues que levava para "A História de Lily Braun",que em seguida chamou "A Bela e a Fera" e por aí foi. Condizente com o universo carioca que paira sobre o novoCD, Chico selecionou ainda antigas composições dentro desseespírito, como "Morro Dois Irmãos", "Futuros Amantes" e "Palavrade Mulher". No bis, a princípio, mantém "Deixa a Menina" e "SemCompromisso", mas estará aberto a outras sugestões.Mais música, menos política Como sempre, o cantor estará no palco, com dois ou trêsviolões aos seus pés. Ele admite se sentir confortável num show,desde que tenha condições técnicas para isso. Confessa também sesentir mais músico nos dias de hoje. Gosta de ser músico evaloriza um bom músico, tanto que programou a participação deseu baterista Wilson das Neves para "Grande Hotel" (parceria dosdois). No último mês, Chico esteve totalmente envolvido com osensaios de "Carioca". Por isso, afirmou não ter tempo paraacompanhar o horário político, nem de ter ido à reunião na casade Gilberto Gil, na semana passada, na qual representantes daclasse artística se encontraram com o presidente Lula. Sobre omalfadado encontro, Chico afirmou: "Acho que as coisas sãofaladas em reuniões no calor da hora, depois repensadas. Eumesmo falo bobagem e depois me arrependo." Sobre a declaração do músico Wagner Tiso na reunião - emque afirmou não se preocupar com a ética do PT, mas com jogo dopoder -, Chico disse entender o que seus colegas quiseram alegar "Não como uma posição pessoal deles, descartando a ética, mascomo a política é feita na realidade do Brasil. E essa é arealidade política. Tenho impressão de que é isso", observou ocompositor, que mantém seu voto em Lula. "Não estou aqui parajulgar. O Wagão é amigo meu."As montanhas do Rio, no cenário de contornos minimalistasA linha minimalista de uma esculturasuspensa por um eixo, no palco do show "Carioca", reproduz osmesmos contornos das montanhas do Rio. Numa segunda escultura,uma remissão a uma representação planetária, do Sol e da Lua. Oprojeto foi idealizado pelo cenógrafo Hélio Eichbauer, que dizter criado sua obra sob o efeito do contexto da pauta de músicasapresentada a ele pelo músico. Para complementar todo o clima,haverá a projeção de um desenho de autoria de Villa-Lobos eresgatado por Eichbauer. Carioca no repertório, carioca nocenário.Experiente em cenografias de shows e peças teatrais,Hélio Eichbauer trabalha há cerca de 20 anos com Maneco Quinderé que assina a iluminação do espetáculo. "É quase um cenáriocriado para a luz", descreve Quinderé, que usou basicamenteluzes preta e branca. "Como o show é quase um recital, diferentede um espetáculo pop, as luzes acompanham essa atmosfera maisintimista."Intervenção tira ui,ui,iá,iá, iá de Morena de AngolaPara o momento da canção "Morena deAngola" (composição de sua autoria, que ficou marcada na voz dacantora Clara Nunes) no show, Chico Buarque reservou uma singelasurpresa: a kalimba, um instrumento de origem africana. Naverdade, foi uma solução sonora encontrada por seupercussionista Chico Batera, em parceria com seu violonista LuizCláudio Ramos, que é diretor musical do CD "Carioca", além deassinar os arranjos tanto do disco quanto do show. "´Morena de Angola´ foi a última música a entrar no show E tinha um interlúdio nas gravações, que me faz lembrar muito aClara Nunes, com seus ?ui, ui?. Quando eu gravei essa canção, euestava com um coro, que fazia ?iá, iá, iá?", diverte-se ele, aocontar essa história. Mas Chico não queria nem fazer ui, ui nem iá, iá, iá. "Oque eu faço aí, Luiz Cláudio", apelou para o arranjador."Inventa alguma coisa instrumental para ocupar esse pedaço... Aísurgiu a idéia da kalimba. O Chico Batera, que toca marimba,sugeriu a entrada de uma kalimba em ´Morena de Angola´, que é uminstrumento africano e é fácil de tocar." Acabou soando como umadiscreta intervenção no meio da alegre música.Serviço - Chico Buarque. Tom Brasil (2.400 lug.). R. Bragança Paulista, 1.281, tel.: 2163-2000. 5.ª, 21h30; 6.ª e sáb. 22h; dom. 19h. R$ 80 a R$ 160. Até 15/10. Estréia nesta quarta, 21h30

Agencia Estado,

29 de agosto de 2006 | 20h57

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