Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

De Paralamas a Elton John, os 30 anos de Rock in Rio desenharam um nostálgico arco pop

Primeiro fim de semana do Palco Mundo trouxe ainda Rod Stewart e Seal

JOÃO PAULO CARVALHO, JULIO MARIA E PEDRO ANTUNES, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 01h20

RIO - O anúncio de Elton John e Rod Stewart na mesma noite é algo que não deve ser visto de novo tão cedo por aqui. E, mesmo no formato compacto para caberem em festivas como o Rock in Rio, o que eles fazem pode salvar as piores noites. Elton subiu com sua festa baile, sem ousadias. Quando quer se desafiar, ele usa os discos, não os shows. Sua voz ganhou o corpo da idade que lhe tirou das alturas, mas lhe deu um chão que nunca teve. E assim, valorizado pelo som das caixas cheio de brilho, cantou tudo o que um fã imagina, exatamente nesta ordem: The Bitch is Back, Bernie and the Jets, Candle in the Wind, Levon, Tiny Dancer, Philadelphia Freedom, Goodbye Yellow Brick Road. Antes de Rocket Man, elevou o suspense com um longo passeio pelo piano, solitário, até cair nos primeiros acordes reconhecíveis. Não fez nada do que não tenha feito nos últimos 30 anos e fez tudo.

Antes dele, Seal cantou quase que de forma decorativa para a grande parte do público, que aproveitava para circular, comer e ir ao banheiro. Mostrou músicas do disco novo, Seal 7, mas só ganhou atenção quando reviu canções já vitoriosas, como Kiss of the Rose.

Um show dos Paralamas do Sucesso em um palco do Rock in Rio para comemorar 30 anos tem um simbolismo gigante, que extrapola a efeméride. Algo que pode ter mais a dizer do que o próprio Queen com Adam Lambert ou do que diria o AC/DC se tivesse aceitado o convite do empresário Roberto Medina. As histórias de Paralamas e Rock in Rio, mais do que qualquer outra banda que já pisou nestas terras de Jacarepaguá, começam e caminham juntas, com vitórias e derrotas, desde a lama de 1985, quando Herbert Vianna e Rock in Rio eram ainda duas incógnitas.

Herbert não é mais o mesmo em muitos sentidos e, milagrosamente, o mesmo em outros. Seu solo de guitarra em Caleidoscópio segue com seu poder incendiário juvenil que, não raro, é abafado pela serenidade dos cinquentões. Sua voz em Meu Erro e em várias outras ganha um vibrato lento no grave. O homem que saía do anonimato diante das 250 mil pessoas em 1985 tinha peito para puxar as orelhas dos fãs que haviam acabado de vaiar amigos seus. O mesmo Herbert de agora, um sobrevivente que teve de se reconstruir por dentro e por fora depois de perder a mulher e parte de seus movimentos físicos em um acidente de helicóptero, em 2001. Noites como a deste domingo dizem a ele que tudo valeu a pena.

Sua primeira música, ao lado do baixista Bi Ribeiro e do baterista João Barone, foi Vital e Sua Moto, com o solo intacto e raivoso. Herbert tem o magnetismo que faz os fãs ficarem com ele até o fim. Escolheu depois fazer Inútil, do Ultraje a Rigor, talvez pelo grau de atualidade de sua letra. “A gente não sabemos escolher presidente...”, começa assim. A última música do show foi Que País é Este?. “Estamos aqui lutando por um País melhor. O Brasil pode dar certo. Vamos acreditar”, disse Barone, antes do sucesso da Legião Urbana. 

O primeiro final de semana de Rock in Rio desenhou um arco de trás para frente sobre uma história de 30 anos do rock pop no País. Ver o Queen sem Freddie Mercury na sexta foi o primeiro choque que dividiu seus fãs ao meio. Uma parte aceitava o jogo de memórias afetivas que o guitarrista Brian May propunha. A outra passou a atacar Lambert nas redes sociais como se ele fosse um impostor incapaz, usando para isso desde sua sexualidade sugestiva até sua impostação exacerbada. Lambert canta muito e tem uma luz natural, um carisma que não se produz em American Idols. E isso lhe trará sempre problemas. Os fãs da banda, mesmo os que não gostam dele, devem agradecê-lo por possibilitar que o Brasil veja no mínimo Brian May e o baterista Roger Taylor juntos, como em um sonho, quando estão ainda em plena forma.

O Rock in Rio tem de quinta a domingo para viver seus últimos flashback. E, em 2017, quando não houver mais a bandeira dos 30 anos? Vão trazer o Metallica de novo? Não, precisam de um tempo para se livrar do trauma.

Mais conteúdo sobre:
Rock in RioRod Stewart

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.