Jessica Lehrman/The New York Times
Jessica Lehrman/The New York Times

David Lee Roth está deixando sua arte falar

Desde abril, o cantor do Van Halen vem preenchendo seus dias com desenhos sobre a covid-19 – que ele chama de quadrinhos

Richard Bienstock, The New York Times

15 de julho de 2020 | 10h00

Normalmente, David Lee Roth passava seus dias, ou pelo menos suas noites, “vestido num spandex tático (um tipo de calça), se movendo a 134 batimentos por minuto”, como ele mesmo disse. Mas, agora, Roth, de 65 anos, cantor do Van Halen, está como todos nós: preso em casa e obcecado pela pandemia.



Mas os últimos meses em quarentena levaram Roth a uma busca antiga, com novo foco. Desde abril, ele vem preenchendo seus dias com desenhos sobre a covid-19 – que ele chama de quadrinhos. Depois, compartilha os trabalhos concluídos nos seus canais de rede social, um por semana. A arte, assim como a música e a disposição de Roth, é vibrante, extravagante e pouco convencional. Às vezes, expressa confronto. Vários desenhos apresentam seu próprio rosto. Muitos estão cheios de imagens de sapos.

 

O que disparou essa onda de expressão artística?

“Bom, eu perdi o emprego!”, Roth deu risada, falando por telefone de sua casa em Los Angeles, numa tarde do final de junho. Até março, Roth estava em turnê solo, abrindo shows para o Kiss em arenas dos Estados Unidos. Antes disso, Roth, que também trabalhou como paramédico em Nova York, havia enfrentado uma doença não especificada. “Não estou muito convencido de que não tive coronavírus”, disse ele. “Cara, eles me deram prednisona suficiente para viajar para a Lua! Deixamos um rastro de groupies, escombros e críticas incandescentes. Mas não quero voltar”.

Mesmo para os padrões de uma estrela do rock, a capacidade de Roth sugar toda a atenção de seu público é bem conhecida, esteja ele se lançando ao ar da plataforma da bateria ou dizendo à plateia que o Van Halen é “a banda de rock ‘n’ roll que vendeu a rumba de Ricky Ricardo para a nação do heavy metal”. Mas agora é sua arte que está falando. “Comentário social, é isso que eu faço”, disse ele. “É o que eu sempre fiz”.

Em seus trabalhos mais recentes, esse comentário social provocou uma forte reação. Num desenho, ele declara uma mudança de nome. “Diamond Dave, seguindo o exemplo de Lady Antebellum (agora Lady A), abandonará o Lee”, escreveu abaixo de um desenho que mostrava, naturalmente, um sapo. “A partir de agora, ele quer que todos o chamemos de David L. Roth ou simplesmente El Roth”. Para muitos, diminuiu o que os artistas brancos estão fazendo para corrigir o racismo.

“Humor – não piadas – humor, coisa boa mesmo, não é nada engraçado”, disse Roth, defendendo seu trabalho. “Minha versão é a verdade mergulhada no açúcar. Talvez um pouco de açúcar e um pouco de pimenta. Mas as coisas boas geram discussões”.

Estes são trechos editados da conversa. 



 

Por que sapos?

Eu vi uma história sobre Mark Twain – não era sua biografia, era uma peça ficcional, com atores. E, no final, o velho Sam, morre mas não vai para o céu. Ele está no quintal da casa onde nasceu, em Hannibal, Missouri. Aí chega uma garotinha e ele pergunta: “Quem é você?” E ela responde: “Sou Becky Thatcher e alguns amigos meus querem conhecer você”. E todos os personagens que ele criou aparecem para cumprimentá-lo. Então, comecei a fazer minha lista de convidados. E acho que o único desses companheiros que eu conseguia escrever, talvez desenhar, era o sapo do Condado de Calaveras [do conto O célebre sapo do Condado de Calaveras].

 

Muitos dos seus desenhos trazem uma referência que, pelo menos nesse contexto, entendi como uma brincadeira com a expressão “drenar o pântano”.

Se eu explicar, vira um adesivo de para-choque. Se eu deixar você explicar, vira arte. Mas você está muito perto da ideia exata.

 

Como é o seu processo artístico?

Minha abordagem tem o melhor de dois mundos: é vintage e superatômica digital. Mais ou menos como assistir Dragnet no seu iPad. Sabe, eu morei no Japão por mais de dois anos só para estudar a caligrafia Sumi-ê. Tinha aula quatro noites por semana e depois ainda fazia lição de casa. Meus Deus do céu, passei milhares de horas aprendendo a trabalhar com pincel de crina de cavalo num bloco de tinta que eu mesmo trituro. É a mesma receita há setecentos anos.

 

Por que você gosta de usar pincel e tinta como meio de expressão artística?

Calma aí. Não é expressão artística. É uma performance de terapia. Estou desabafando. Estou furioso. E não estou pedindo perdão. E é assim que eu faço.



 

As pessoas geralmente não pensam que o David Lee Roth seja um cara furioso...

É porque eu transcendi. É essa mágica secreta que acontece quando você pega uma coisa que é essencialmente triste e encontra nela humor, eloquência e, às vezes, iluminação.

 

Você pode falar um pouco mais sobre o desenho que parece ser uma resposta à mudança de nome do Lady Antebellum?

Tinha uma conotação política pessoal. Tentei me divertir um pouco às custas dos outros, mesmo respeitando a visão deles. Mas a suposta mudança de nome realmente causou ira, algumas pessoas de extrema-direita postaram: “Cai mais um esquerdista”. Ei, eu sou um hippie de combate – paz, amor e muitos caras e engrenagens para defender essas ideias. Você precisa de uma coisa para apoiar a outra.

 

Seria correto dizer que David Lee Roth é esquerdista?

Eu amo os direitos civis. Direitos iguais. Direitos das mulheres. Direitos das crianças. Direitos dos direitos. Beleza? A lista inteira. Por outro lado, estou preparado para raspar a cabeça, me juntar aos fuzileiros navais e sair para defender esses direitos. Não é exatamente uma declaração de esquerda. Ou não costumava ser quando eu era criança. Mas cresci numa época muito boa e num espaço muito bom, durante toda aquela integração dos anos 1960. Estudei em escolas que [os estudantes] eram 90% negras e espanholas, raspei a cabeça para defender as cores do regimento. Todo dia, às sete da manhã, a gente marchava para hastear a bandeira. E, à noite, a gente ia para a casa do irmão do Kenny Brower para fumar maconha e ouvir o disco novo do Doors. Hippie de combate! 

 

Você estava em turnê quando começou o lockdown. Depois de passar a vida toda nos palcos, foi difícil ser obrigado a deixar a estrada assim às pressas?

Toda revista de jiu-jitsu tem um cara de 28 anos que vai falar sobre os dois anos que ficou de molho por causa do cotovelo. Toda revista de kickboxing tem um instrutor de 32 anos que diz: “Bom, perdi esses três anos com o joelho esquerdo”. Acabei de me isolar. Porque eu mesmo sou de alto risco.

 

 Por quanto tempo veremos as novas obras de arte de David Lee Roth?

Como diz o tatuador: “até não sobrar mais nenhum amigo”! Até o meu Instagram ficar vazio! Posso continuar pintando para sempre. Não tinha imaginado que essa coisa iria muito longe. Mas eis que as pessoas estão demonstrando um verdadeiro fascínio. 

 

Diante desse fascínio, os desenhos serão colocados à venda?

Em termos do que realmente faço para viver, assim que a Lista B – Beyoncé, Bono e Bruce – disser que está tudo bem, voltarei para cantar, dançar e vender camisetas para vocês. Mas, nesse meio tempo, estou desenhando e pintando todas as noites. E o fato de existir uma audiência me dá umas cócegas. Então, vou disponibilizar, claro. Pode apostar. Não era uma coisa que estava no horizonte. Mas, como diz minha irmã, parece que sinto falta das coisas grandiosas. 


Tradução de Renato Prelorentzou 

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