David Gilmour, ex-Pink Floyd, se apresenta em São Paulo com dois shows já esgotados

Na primeira vez no Brasil, britânico encerra ano de grandes shows e apresenta clássicos da antiga banda e músicas do novo disco Rattle That Lock

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2015 | 06h00

O Pink Floyd não existe mais desde o ano passado. Vinte e nove anos antes do fim do grupo, ou seja, desde 1985, a presença física do baixista Roger Waters havia se tornado apenas um espectro falastrão e distante, com uma tumultuada saída dele do grupo. David Gilmour, pela primeira vez respondendo à perguntas em solo brasileiro, contudo, não conseguiu escapar completamente de questões que esbarrassem nos dois temas – que não foram proibidos pelo artista, diga-se de passagem, uma atitude elogiável por si só. Elegante, de blazer off-white sobre uma sóbria camiseta preta, o inglês de 69 anos não fugiu de nenhuma pergunta. Também não se alongou mais do que deveria. Curioso como Gilmour escolhe as palavras da mesma forma solene que percorre o braço de sua guitarra, selecionando apenas as notas necessárias. 

Durante pouco mais de 30 minutos, em um encontro com jornalistas, às vésperas da primeira turnê pela América Latina, com início no Brasil (com shows em São Paulo, hoje e amanhã, Curitiba, dia 14, e Porto Alegre, dia 16), Gilmour se mostrou feliz com a vida de artista solo, com o recém-lançado disco Rattle That Lock, e com a parceria musical que tem com a sua mulher, a escritora Polly Samson. Roger Waters e Pink Floyd ficaram para trás. 

Nunca sozinho. Em certo momento do encontro com jornalistas brasileiros e chilenos, dentro do Allianz Parque, estádio que receberá a primeira e segunda apresentações de David Gilmour em solo latino-americano, hoje e amanhã, o ex-guitarrista e líder do Pink Floyd deixa escapar a frase talvez mais pessoal entre todas as outras ditas por ele. “Sempre gostei de fazer parte de um grupo”, disse ele, olhando ligeiramente para o lado direito. Buscava, talvez, refúgio nos olhos da mulher, a escritora e letrista Polly Samson, com quem ele divide os créditos dessa mais nova empreitada musical, o disco Rattle That Lock (Sony Music), lançado recentemente e motivo responsável por colocar Gilmour de volta às estradas. 

O álbum solo, embora tenha grandes colaborações de Polly e do produtor Phil Manzanera (guitarrista do Roxy Music), interrompe um período de nove anos sem material inédito do músico. O último disco solo, o mais solar On an Island, saiu em 2006. Depois disso, Gilmour se dedicou ao trabalho final do Floyd, The Endless River, lançado o ano passado, encerrando assim a trajetória de uma das bandas mais importantes do rock mundial. 

A frase dita por Gilmour explicita o artista complexo, mas que não vive de urgências criativas ou coisas do tipo. A criação, o ato de compor, não é uma necessidade solitária ou qualquer outra das tantas justificativas dadas por outros músicos. Para Gilmour, criar o novo está diretamente ligado à colaboração. A duas ou mais cabeças pensando, juntas, na solução, na saída para alguns labirintos musicais. 

Sempre foi assim, na verdade. Mesmo quando enfrentava Roger Waters de frente, durante o tempo em que o baixista comandou o Floyd, o atrito entre as duas forças criativas, ainda auxiliadas por Nick Mason e Richard Wright, era o combustível para elaborar discos da fase áurea da banda, principalmente na década de 70, como The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979). 

Quando Waters deixou o Floyd, Gilmour tomou as rédeas da banda. Comemorou a saída com o disco sugestivamente chamado de A Momentary Lapse of Reason (1987) (“lapso momentâneo de razão”, em tradução literal), mas o fôlego já não era mais o mesmo. No papel principal, comandou o grupo em The Division Bell (1994) e no recente The Endless River (2014). 

Por mais que não diga, a saída de Waters colocou o processo de criação de Gilmour em marcha lenta. Até mesmo os trabalhos solo são raros. Foram quatro ao longo dessas mais de cinco décadas de atividade: David Gilmour (1978), About Face (1984), On an Island (2006) e Rattle That Lock (2015). 

Boa parte da história musical de Gilmour é escancarada nessa turnê do mais recente trabalho, com muita canção do Pink Floyd, para fã nenhum reclamar demais. Como é possível ver na lista acima, clássicos como Wish You Were Here, Money, Shine on You Crazy Diamond, Time, Breathe e Comfortably Numb devem estar presentes no show, que também é marcado pelos telões de alta definição e espetáculo visual. “É algo difícil conseguir criar um set list. Pensa: depois desses anos todos, muita música fica de fora”, diz um polido Gilmour. “Sinto muito se não tocar a sua música preferida.” 

A parceria de Gilmour, desde 1993, é com a mulher dele. Polly Samson ajuda o marido nas composições, nos versos, e aproveitou a vinda dele ao País para lançar seu livro Um Ato de Bondade (Record, R$ 39,90). O britânico até se arriscou a falar, em português, o título do trabalho da mulher, com algum talento. Ela retribuiu ao dizer que o momento mais especial de composição de uma faixa nova é quando o marido a canta pela primeira vez. “É incomparável”, diz. A parceria do casal é muito mais saudável e harmoniosa do que a de Gilmour e Waters. Não o empurra para frente, para o estúdio, para novos discos, mas, ao se perceber a troca de olhares, é fácil entender que essa parceria o faz feliz. “Acho importante fazer parte de algo”, diz. “É ótimo trabalhar dessa forma.” 

‘O histórico era dolorido’, diz Gilmour sobre Waters 

David Gilmour decidiu encerrar o Pink Floyd, pelo menos, nove anos antes de anunciar que a banda havia chegado ao fim. Desde 2005, quando os quatro integrantes da formação clássica, ele, Nick Mason (bateria), Roger Waters (baixo) e Richard Wright (teclado), se juntaram pela última vez no palco, o vocalista e guitarrista já sabia que o grupo tinha chegado ao fim. 

A última vez que os quatro haviam estado juntos, no mesmo palco, foi quando Waters ainda integrava a banda. Vinte e quatro anos depois, havia uma tensão entre os integrantes – afinal, o baixista insistia em processar o restante do quarteto para ter direito ao uso do nome Pink Floyd. Gilmour, em uma entrevista para jornalistas brasileiros e chilenos, prestes a se apresentar pela primeira vez em São Paulo, hoje e amanhã, revelou que o show histórico da banda no Live 8 teve momentos incríveis no palco. Nos ensaios, o clima era outro. Assista ao show completo do Pink Floyd no Live 8:

“É verdade que aquela noite foi mesmo ótima. Havia muita alegria, felicidade, ao mesmo tempo, eu percebi que era um ciclo que estava meio que se fechando”, explicou Gilmour. “Os ensaios foram um pouco tensos em alguns momentos. É preciso entender, existia uma história muito dolorida entre nós. Discutimos sobre quais músicas deveriam tocar e precisei dizer ao Roger que ele era um convidado do Pink Floyd e eu era o responsável por escolher as canções.” Ele continua: “Você entende, são momentos de tensão como esses, essas coisas que eu não gostaria de repetir. Não conseguiria imaginar qual seria o grande interesse em voltar a trabalhar novamente com aquelas pessoas”. 

Gilmour rebate a ideia de que seria tentador, financeiramente falando, um retorno oficial do Pink Floyd. “(Retorno financeiro) não era algo que eu estava procurando naquela fase da minha vida.” 

Não foi o último encontro de Gilmour e Waters, contudo. O baixista participou de um show beneficente ao lado de Gilmour, com o objetivo de ajudar crianças palestinas. O guitarrista sugeriu que eles tocassem To Know Him is to Love Him, composta por Phil Spector e gravada pelo Teddy Bears. “Roger me disse que essa música era muito fora da zona de conforto dele”, contou Gilmour.

Para convencer o ex-companheiro de banda, o guitarrista sugeriu participar de algum show da turnê dele. A participação, também histórica, ocorreu em 2011, numa gigantesca apresentação no O2. “To Know Him is to Love Him era uma música que a gente tocava nas passagens de som do Pink Floyd”, justificou Gilmour. “Quando contei essa história para Polly, ela disse que seria, no mínimo, engraçado ver a gente cantando esses versos um para o outro”, completou. Na O2, Gilmour surgiu surpreendentemente durante o clássico Comfortably Numb. Assista abaixo:  

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