David Bowie volta de cara limpa e disco novo

Ziggy Stardust ficou com tanta inveja que tirou a guitarra do armário, montou uma banda de rock e anda espalhando que é "a resposta inglesa aos Strokes". Major Tom, que ouviu a notícia da galáxia onde está vivendo, enviou sinais sonoros que especialistas garantem significar algo como: "Não é justo!" Thin White Duke manteve o ar blasé - mas quem conhece o rapaz diz que ele está rangendo os dentes de ódio. E Aladdin Sane anda tão irritado que agora circula pelos clubes de Nova York - com a maquiagem retocada e o mullet vermelho escovado - implorando por uma vaga como DJ de electro. O que fez os famosos personagens do cantor inglês David Bowie ficarem tão abalados? É que depois de aproveitar-se deles por mais de 30 anos para sustentar o status de "camaleão do rock", Bowie reservou só para ele - de cara limpa e sem personagem nenhum - a empreitada mais exagerada da sua carreira.Na segunda-feira passada, o cantor fez um show para convidados para promover o disco Reality (que sai no dia 18, no Brasil). A apresentação foi em Londres, mas pôde ser assistida ao vivo em uma transmissão inédita para salas de cinema de quase 50 cidades da Europa, Ásia e Austrália. Quem foi até uma delas podia ainda fazer perguntas para o cantor - da poltrona - que ele respondia - lá do palco. "Pensava em fazer isso há 15 anos", disse. O show vai ser apresentado hoje em salas de São Paulo, Rio e Campinas. Foi o aquecimento para uma turnê pela Europa, que começa no mês que vem.Ser visto em Hong Kong e na Finlândia ao mesmo tempo? Motivo mais do que justo para gerar inveja em qualquer personagem de popstar. Mas quem acha que Bowie se preocupa com os chiliques de suas criações antigas está enganado. O camaleão tem bons motivos para olhar para frente: depois de passar toda a década de 90 recebendo sorrisos amarelos da crítica, David Bowie, 56 anos de vida e quase 40 de carreira, é cool outra vez. Seu álbum Heathen, do ano passado, serviu como tratado de paz com os fãs, fez os críticos se curvarem novamente e ainda levou uma indicação para o Mercury Prize, o mais importante prêmio da indústria na Inglaterra.A fórmula mágica para o sucesso foi simples: elementos clássicos de sua carreira aliados a uma produção contemporânea - a cargo do amigo Tony Visconti, que produziu metade de seus discos importantes na década de 70. "O disco é ótimo. Todo ele", ironizou o semanário inglês New Musical Express. Vindo de um de seus conterrâneos, o elogio é mesmo raro: desde que Bowie decidiu abandonar a Inglaterra e virar um "new yorker", é tratado com certo rancor na terra natal.

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