Dave Douglas e Achie Shepp encerram Chivas Jazz

Dave Douglas é inquieto, ansioso e atravessa o palco por fora e por dentro, bebendo água no gargalo da garrafa com grandes goles. Archie Shepp parece em transe, as pálpebras pesadas, o corpo esgueirando-se, lentamente, como um pai-de-santo antes de receber uma visita do Além.Um trompetista e um saxofonista, grosso modo, porque são muito mais que isso. Os dois foram os destaques do Chivas Jazz Festival, que terminou na noite de sábado , com a apresentação festiva do grupo do trombonista Steven Turre.Douglas tem 37 anos e a performance explosiva dele carrega o novo na mistura exata de rua e academia, que ele explora com maestria com o sexteto.A rua está no trombone de Joshua Roseman, sujeito de dreadlocks mal-amarrados que faz um som sujo, virulento, falsamente displicente. A academia está no piano de Uri Caine, erudito que submete a improvisação ao rigor camerístico de Mahler.Já Archie Shepp, de 64 anos, tem uma missão, mais que uma profissão. Busca o sagrado com ânsia. Além do standard Round Midnight, pouco ele concedeu ao público. Acha necessário afirmar que o jazz nasce na virada do século como um elemento de domesticação da resistência negra.Então, Shepp transfigura-se num bluesman de terno de algodão, auxiliado na tarefa de reconstruir o teatro de sombras da escravidão por um baterista fenomenal - Steve McCraven -, que parece recém-saído de uma passeata dos Panteras Negras.Mesmo quando se investe de crooner de boate, cantando "Que reste´t´il de nos amour", de Charles Trenet, Shepp o faz com agradável desrespeito pelas regras, como se procurasse a gênese da música cajun. Só se consegue perceber que ele fala francês quando pronuncia "visage".A retomada do discurso político e um mergulho investigativo na tradição foram as tônicas desta edição do Chivas Jazz Festival. Como Shepp, o flautista James Newton lembrou a escravidão negra na América, Nelson Mandela e as chagas da África do Sul.Por seu turno, o guitarrista Bill Frisell fez uma profunda releitura de gêneros que compõem o arcabouço inicial da música americana, como a música country e o folk. Nos dois extremos, prazer e inquietação - o jazz como um mediador sábio.

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